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Auto-Tune, a ‘voz’ da geração 2000

A cantora Demi Lovato: Auto-Tune como acusação A cantora Demi Lovato: Auto-Tune como acusação

A cantora Demi Lovato: Auto-Tune como acusação (/)

Nesta semana, a cantora americana Demi Lovato foi espinafrada por um participante do reality show musical X Factor, do qual é jurada. Depois de receber críticas pesadas do júri, ele descarregou a sua ira na ex-estrela da Disney, de quem ouviu que o sonho de cantar, infelizmente, não é para todos. “Sim, é por isso que você usa Auto-Tune”, rebateu o homem. Hoje onipresente nos estúdios de gravação, o Auto-Tune é um programa que permite tornar afinada qualquer cantoria. Ele possibilita, assim, uma espécie de estelionato musical: gente incapaz de acertar uma nota pode, de repente, se apresentar como cantor. Mas não é para sair por aí queimando caixas de Auto-Tune. Produtores consultados pelo site de VEJA garantem: hoje, quem não usa nenhum tipo de correção vocal é exceção. E isso não é necessariamente ruim. O programa pode, sim, ser um aliado da criatividade.

A primeira coisa que se deve saber a respeito do Auto-Tune é que o software pode ser usado de dois jeitos. Inicialmente criado para corrigir pequenos defeitos na voz de um artista, como uma espécie de Photoshop sonoro, o programa passou a ser usado para distorcer e dar um revestimento robótico e metálico aos vocais, criando um efeito que é usado até hoje. Uma das canções que mais ajudaram a popularizar esse uso da ferramenta foi Believe, lançada por Cher em 1998. Na mesma época, reforçando a proposta, o duo eletrônico Daft Punk começou a fazer sucesso com músicas que utilizavam vocoder, outro instrumento que robotiza a voz. Hoje, também se usa o Auto-Tune para produzir efeito cômico numa canção, mas a principal utilização do programa continua sendo estética. O programa e o som metalizado que produz são marcas da geração 2000.

“O mais legal do Auto-Tune é justamente ser explorado ao máximo para criar aquele efeito de voz metalizada, como se você estivesse cantando através de um cano de PVC”, diz Pedro D’Eyrot, integrante do Bonde do Rolê, grupo que mistura funk e pop, e um dos produtores da banda Uó, que surgiu fazendo releituras bregas de músicas pop. “Tem artista que, sem Auto-Tune, não teria carreira. O uso do software deveria vir discriminado na embalagem do CD”, afirma o produtor João Marcello Bôscoli, filho de uma das vozes mais célebres da história da música brasileira, a cantora Elis Regina.

Outro ponto a ser esclarecido sobre o Auto-Tune é que, embora o programa, lançado no começo dos anos 1990 pela empresa americana Antares Technologies, tenha se tornado sinônimo de programa de afinação (assim como Bombril se tornou sinônimo de palha de aço), ele não é o único calibrador de voz, nem o mais usado hoje. A maioria dos músicos e produtores consultados diz usar o Melodyne, desenvolvido pela alemã Celemony em 2001.

Miley Cyrus – Party in the U.S.A.

Em um de seus primeiros hits como Miley Cyrus — e não como a personagem Hannah Montana, da Disney — a cantora tentava emular um timbre de voz que não era o seu, e deve ter dado um trabalho danado aos produtores, que tiveram de disfarçar as tamanhas correções de voz da moça com vários efeitos — perceptíveis especialmente no refrão da música. Para entender melhor assista ao próximo vídeo, com Miley cantando a mesma música ao vivo, e compare.

Miley Cyrus – Party in the U.S.A.

Aqui, sem usar Auto-Tune, Miley mostra um alcance vocal bem mais limitado. Repare como ela muda o tom da voz para conseguir cantar a música, e ainda conta com duas backing vocals que a ajudam nas partes mais agudas.

Lady Gaga – Just Dance

Uma das piores consequências do uso repetido de Auto-Tune em estúdio é a dificuldade de reproduzir, ao vivo, a voz impressa no disco. É por essas e outras que tantas cantoras se apresentam com playback, hoje em dia. Algumas têm respostas justificáveis, como Beyoncé, que dança sem parar no palco. Não é o caso de Lady Gaga, que faz poucos movimentos bruscos e, mesmo assim, abusa do playback. Duvida? Assista ao próximo vídeo.

Lady Gaga – Just Dance

Aqui, em apresentação na Suécia, a cantora nem procura disfarçar que uma versão pré-gravada da música está rolando ao fundo. É claro que a voz dela não é robotizada assim naturalmente — isso é playback.

Rihanna – We Found Love

A caribenha Rihanna é um exemplo de cantora que poderia dispensar o Auto-Tune, pois tem uma voz interessante. No entanto, ao optar por soar como grande parte do pop radiofônico característico dos dias de hoje, a cantora perde um pouco da originalidade. Pior: em We Found Love, soa quase metálica. Ao vivo (veja o próximo vídeo), é possível perceber que, embora também use um pouco de playback, canta por cima sem nenhum demérito.

Rihanna – We Found Love

Aqui, em performance na cerimônia de entrega do BRIT Awards deste ano, a voz natural de Rihanna, sem Auto-Tune, pode ser ouvida bem no comecinho do vídeo (até 0:25). A partir daí, entra o playback e a cantora passa a confiar demais no “truque”, soltando menos a voz.

Beyoncé – 1+1

Beyoncé é das poucas que ainda sabem cantar. Se faz uso de algum tipo de recurso para melhorar a voz em gravações, o faz de maneira sutil. Nos shows, embora use playback nas músicas com coreografia mais pesada — pular de um lado para o outro do palco consome o fôlego necessário para projetar a voz –, geralmente confia bastante no gogó. Ela pode (veja o próximo vídeo).

Beyoncé – 1+1

Conforme provou o maridão, o rapper Jay-Z, Beyoncé se garante ao vivo. Pode até mesmo prescindir do microfone. Em um vídeo publicado por ele na internet no ano passado, a cantora mostra que tem uma bela voz enquanto ensaia para participar do programa American Idol. Beyoncé solta a voz em seu camarim, acompanhada somente de uma tecladista e de algumas backing vocals, que entram no fim da canção.

Justin Bieber – Baby

Justin Bieber estava com dor de garganta e, como não gosta de cancelar shows, recorreu ao playback. Ao menos, essa é a nobre desculpa usada pela fã que postou este vídeo no YouTube. Mas não é bem verdade. O cantor emprega o playback em todos os seus shows — como ficou claro durante a sua passagem pelo Brasil, no ano passado. E também usa bastante o Auto-Tune. O que, no caso de um menino que acaba de sair da puberdade, é compreensível. Dado que seu primeiro hit, Baby, estourou quando ele tinha 15 anos, é impossível para Bieber reproduzir hoje a voz usada na canção de três anos atrás (veja o próximo vídeo).

Justin Bieber – Baby

Neste vídeo, feito no fim do ano passado, Bieber muda o tom da música para adaptá-la à sua nova voz, pós-puberdade. O truque funciona, mas não para o refrão, quando ele tem de pedir a ajuda das fãs.

Ke$ha – Tik Tok

Ke$ha é o tipo de artista que, como diz o produtor João Marcello Bôscoli, não existiria se não fosse o Auto-Tune. Com o programa, a voz naturalmente estridente da cantora é transformada até ficar quase robótica. Para as pistas, funciona. O problema é quando Ke$ha decide cantar ao vivo (veja o próximo vídeo).

Ke$ha – Tik Tok

Nessa apresentação do European Music Awards (EMA) de 2010, a cantora inventou de cantar algumas partes da música (tudo, exceto o refrão) sozinha, sem ajuda de Auto-Tune ou playback. Além da voz estridente, Ke$ha desafina praticamente a cada nota, e transforma a apresentação em um desastre completo.

Excesso – Capaz de deixar redondas faixas que, sem ele, sairiam do estúdio cobertas de arestas, o Auto-Tune pode ser um grande aliado dos músicos. O problema é que usar o programa tornou-se regra, e não exceção. E toda homogeneização, em arte, é um perigo – ou pelo menos uma chatice. Para se ter uma ideia, no atual top 10 da Billboard, a lista de músicas mais tocadas nos Estados Unidos, todas as músicas usam Auto-Tune. E, em sete delas, o uso é excessivo, com a finalidade de distorcer a voz do artista, não somente afiná-la, caso de One More Night, do Maroon 5, Blow Me (One Last Kiss), de P!nk, e Call Me Maybe, de Carly Rae Jepsen, uma das cantoras que, de tão dependente do recurso, talvez nem existisse sem ele.

“Uso o Auto-Tune para acertar finais de frases melódicas e pequenos detalhes. Mas o uso excessivo de alguns artistas e produtores têm deixado as interpretações sem emoção”, diz Rick Bonadio, produtor de bandas como NX Zero. “A voz perde a naturalidade”, corrobora o DJ e produtor João Brasil, conhecido por seus mashups (mistura de duas músicas).

Além de ser usado em estúdio, o Auto-Tune também tem sido levado para os palcos. Diferentemente do playback, em que uma gravação prévia da música toca ao fundo e o artista apenas a dubla, o “Photoshop da voz” é difícil de ser percebido ao vivo. Mas, por outro lado, é um truque sem graça. “Se você está fazendo uma coisa que qualquer um pode fazer, não tem porque estar em cima de um palco, não é mesmo?”, diz Bôscoli.

Por essas e outras, o programa tem feito vários inimigos nos últimos anos. Um dos mais notáveis é o rapper Jay-Z, que em 2009 lançou uma música chamada D.O.A. (Death of Auto-Tune), na qual proclama a “morte” do programa. Na mesma época, outros artistas apoiaram a causa, como Christina Aguilera e o cantor Michael Bublé, que, ao lado de Adele, estão entre os que não usam o programa e não precisam dele. Embora a música fosse mais uma provocação de Jay-Z ao pop sem graça produzido nos últimos anos, o cantor também é um dos adeptos do programa, e, mais tarde, se associaria a outro rapper, esse sim um amante confesso do software: Kanye West.

“O Auto-Tune é como qualquer outra ferramenta para mim. Alguns produtores parecem não conseguirem trabalhar sem isso, mas existe todo um mercado para isso”, diz David Kahne, produtor que já trabalhou com Paul McCartney e Lana Del Rey. “O Auto-Tune é uma ferramenta do mal, mas necessária. Quando eu a uso, tento fazer isso de forma sutil, afinal, não quero que o ouvinte perceba. Com cantores como Kurt Vile, Jay Farrar, J Mascis e Thurston Moore, eu nunca precisei. Geralmente, eles cantam de um jeito muito bonito”, afirma John Agnello, que já produziu bandas como Dinosaur Jr. e Sonic Youth.

Diferentemente de Bôscoli e Jay-Z, Mauricio Tagliari, que assina a produção dos discos mais recentes de Nina Becker e Rômulo Fróes e compõe para o cinema e para a publicidade, defende o uso do afinador ao vivo. “Num show, o cantor pode estar com problemas de retorno, sem conseguir ouvir a si mesmo. A pessoa canta bem, mas está numa situação adversa. Aí, o Auto-Tune é válido.”

Auto-Tune no Brasil – No país, muitos artistas declaram não usar programas para correção de voz, mas ser a favor do software. “Os erros e ‘desafinações’ são parte do charme e, às vezes, um take sai mesmo perfeito”, diz Tomaz Paoliello, guitarrista do grupo Garotas Suecas. Opinião similar tem a cantora Lulina, que diz “curtir as imperfeições da gravação”, mas afirma não ter objeção caso seus produtores queiram usar. “Eles têm mais conhecimento técnico do que eu.” Exceção entre seus colegas, a paraense Gaby Amarantos, voz mais proeminente da cena de tecnobrega, admite usar o programa. “Uso para afinar vocais muito agudos para mim. Acredito que todo recurso é bem vindo, desde que utilizado na medida certa.”

Muitos artistas, no entanto, usam Auto-Tune e não sabem, conta o produtor Missionário José, que trabalha com vários nomes da cena independente. “Alguns artistas não gostam de saber que foram ‘afinados'”, diz José, que não revela nomes de quem já afinou a voz. “Isso normalmente é uma espécie de ‘segredo de Estado’.”

Interessante na proposta, mas infelizmente fraco na execução, Recanto, o disco de Gal Costa que Caetano Veloso produziu com Auto-Tune, tem um verso que vale tanto para adeptos exagerados quanto para inimigos radicais do software. “Auto-Tune não basta para fazer o canto andar.” Em outras palavras, não é preciso temê-lo. Mas se o artista não pode viver sem essa muleta, talvez seja o caso de mudar de profissão.

Bed Intruder Song

O americano Antoine Dodson não poderia imaginar que falar sobre o estupro de sua irmã, Kelly, na televisão daria tanta repercussão. As frases e os trejeitos engraçados do rapaz se tornaram um dos primeiros memes da internet, e não demorou até que uma dupla chamada Gregory Brothers, que se tornaria conhecida pelo canal do YouTube chamado Auto-Tune the News, transformasse o “desabafo” de Dodson em música. É, até hoje, um dos virais mais lembrados da história.

System of a Dilma

Criado no ano passado pelo DJ Faroff, codinome de Leonardo Bursztyn, 29 anos, o vídeo fazia uma espécie de “mash-up” (quando se misturam duas músicas diferentes) entre a faixa Chop Suey, do grupo americano System of a Down, e um discurso de Dilma durante a campanha eleitoral de 2010. Há até uma participação especial do presidente Lula.

Joel Santana

Não demorou até que o conceito de Auto-Tune the News, o canal do YouTube que usa o programa de correção de voz para fazer humor, chegasse ao Brasil. O treinador de futebol Joel Santana foi uma das primeiras vítimas desse desembarque divertido. Os criadores do vídeo, anônimos, usaram uma entrevista de Santana feita na época em que ele dirigia a seleção da África do Sul e falava à imprensa com um inglês macarrônico. O resultado é hilário.

Backin’ Up Song

Outra travessura dos Gregory Brothers, o vídeo de uma excêntrica senhorinha que dava testemunho a uma emissora de TV local sobre um assalto que havia presenciado a uma loja de conveniência de um posto de gasolina, nos Estados Unidos, acabou se tornando um clipe musical com direito a coreografia.

O Show de Schunemann

O depoimento do ator Werner Schunemann, logo após sofrer um acidente de trânsito em Porto Alegre, não era dos mais felizes. Entre outras coisas, o artista dizia que “cinto de segurança é da época das carroças” e que não se deveria mais fabricar carros sem airbags. Uma turma bem-humorada, no entanto, conseguiu transformar a bobajada em um vídeo engraçado.