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Atrás do grande homem…

...sempre há uma grande mulher. O que ‘A Esposa’ ora ilumina, ora turva — graças à atuação de Glenn Close – é o porquê de ela não se colocar à frente

O telefonema vem no meio da madrugada: Joe Castleman (Jonathan Pryce), venerado escritor americano, é o ganhador do Nobel de Literatura. Joe grita, comemora, chora. Sua mulher, Joan (Glenn Close), oscila entre estados emocionais antagônicos. Trai cansaço com a celebração exuberante de Joe, comove-se até as lágrimas quando o representante da Academia sueca pede para falar com ela, constrange-se em ter de pular sobre o colchão como criança, de mãos dadas com o marido, que canta: “Ganhei o Nobel! Ganhei o Nobel!”. Os embaraços perseguem Joan na viagem a Estocolmo. No avião, o casal é abordado por outro escritor que há tempo vem fazendo marcação cerrada: Nathaniel Bone (Christian Slater) quer publicar uma biografia de Joe, que o rechaça com maus modos. É estranho que um homem tão vaidoso — isso já ficou claro — recuse ser biografado, e cabe a Joan pôr panos quentes no incômodo que se forma. Assim como cabe a ela manter, em todos os dias seguintes, o papel de esposa abnegada e grande apoiadora do talento que ela própria não possui. É um mistério o que essa mulher tão inteligente e com tal discernimento do caráter alheio está fazendo, há décadas, ao lado de um homem que se percebe como frívolo, sem tato, mulherengo e dado a se pavonear. E esse mistério, é evidente, é o cerne de A Esposa (The Wife, Inglaterra/Suécia/Estados Unidos, 2017), que estreia no país nesta quinta-feira. Por isso, recomenda-se a quem deseje manter-se na ignorância que interrompa aqui a leitura.

Joan e Joe têm certa idade e, de início, esse aspecto geracional é uma explicação plausível para a divisão de funções tão marcada dentro do casamento. Também não é incomum que, na presença de dons tão excepcionais, um parceiro sacrifique suas aspirações em prol do outro. O que o filme do diretor sueco Björn Runge aos poucos vai tornando quase impossível compreender, porém, é de onde vem a visão aguda, perspicaz e reveladora dos relacionamentos humanos que destaca a literatura de Joe.

É claro que é Joan a autora de todos os livros tão festejados que Joe assina. Como se vê nos flashbacks que começam a se inserir na ação, Joan foi a aluna de literatura que atropelou, com seu talento vívido, os esforços de Joe, então seu professor — e logo seu amante, e depois seu marido. Desencorajada da ideia de lutar contra o machismo do público e do establishment literário dos anos 50, ela propôs tornar-se a escritora-fantasma. Tanto cuidado tomou para esconder dos filhos o estratagema, e de si mesma seu descontentamento, que a essa altura o marido já se persuadiu totalmente da fantasia. E, a cada vez que agradece nos discursos o “apoio” da esposa, mais ela se enche de ódio e nojo — entre outros sentimentos que Glenn Close, num momento comparável ao de Ligações Perigosas, de 1988, deixa o espectador intuir em sua fisionomia.

O MEU E O SEU - Colette e Gauthier-Villars: hoje, é ele a nota de rodapé O MEU E O SEU – Colette e Gauthier-Villars: hoje, é ele a nota de rodapé

O MEU E O SEU – Colette e Gauthier-Villars: hoje, é ele a nota de rodapé (Adoc-Photos/Corbis/Getty Images)

Adaptado do romance homônimo da americana Meg Wolitzer, A Esposa é ficção, porém a traição brutal de que trata — o roubo não meramente de um crédito ou um direito, mas da essência de um ser humano — está longe de ser inverídica. Dos 27 aos 30 anos, a francesa Colette (1873-1954) escreveu uma série de quatro novelas que viraram mania na França de seu tempo — mas saíram todas assinadas pelo seu marido, Henry Gauthier-Villars, que resistiu quanto pôde a admitir a autoria real da série e, mesmo após o divórcio e a confissão, nunca deu à ex-­mulher um centavo da fortuna amealhada à custa dela. Apropriadamente, Gauthier-Villars é hoje uma nota de rodapé na biografia de Colette, que escreveu sob o próprio nome outros sucessos, como Gigi. Bem mais triste foi o caso da pintora Margaret Keane, não só explorada mas também diminuída pelo marido, Walter Keane, que ficou rico com as reproduções vendidas no mundo todo dos quadros com figuras de olhos imensos, um símbolo do kitsch, e prosseguiu sempre chamando-a de mentirosa. Depois de duas décadas reclamando sua autoria, Margaret teve de passar pela humilhação de pintar um quadro diante de um júri. Após mais quatro anos, em 1990, um tribunal de apelação confirmou o veredicto mas redobrou a humilhação, ao retirar a indenização que lhe fora concedida no julgamento anterior.

A Esposa, entretanto, termina por iluminar um dado mais complicado que o momento de fraqueza em que uma mulher deixa um homem se apropriar de sua natureza criativa: o desejo, ou necessidade, ou talvez a veia manipulativa, de uma mulher que prefere exercer poder por meio dos homens como forma de subjugação. Joan Castleman, ao fim, não dispõe mais do marido. Mas tem ainda um filho — também ele aspirante a escritor, e também ele sem muito talento. Rei morto, rei posto.

Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2019, edição nº 2616