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Ascensão do gangsta rap é tema de ‘Straight Outta Compton’

Cinebiografia acompanha a história do nascimento do grupo N.W.A, criado por Dr. Dre, Ice Cube e Eazy-E

Desempregado, morando com a mãe e com um filho para criar, Andre Romelle Young se vira como pode com o cachê quase simbólico recebido por seu trabalho como DJ em uma casa noturna mequetrefe. Quando ele não aparece em uma entrevista de trabalho, a mãe joga, literalmente, na cara do rapaz, os irrisórios cinquenta dólares ganhos por ele com o sonho de ser músico. A cena, parte da cinebiografia Straight Outta Compton: A História do N.W.A., não poderia ser mais emblemática do porvir. Andre, ou Dr. Dre, é um dos rappers e empresários mais bem-sucedidos da atualidade. Seu nome é constante na lista de artistas mais ricos da Forbes, especialmente depois que ele vendeu sua linha de acessórios musicais Beats, adquirida por 3 bilhões de dólares pela Apple em 2014. O contraste da conta bancária ocorre com a distância de 27 anos.

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Em 1987, Dr. Dre (vivido por Corey Hawkins) convence o amigo Eric Lynn Wright (Jason Mitchell) a investir em um selo musical independente, no qual Dre produziria um disco de hip hop, estilo que dava seus primeiros passos. Wright era um traficante, sem aspirações musicais. Adequadamente moldado por Dre e o letrista Ice Cube (O’Shea Jackson Jr, filho do Ice Cube original), Wright passa a atender pelo nome Eazy-E. O encontro dos três em um pequeno estúdio, para a gravação do single Boyz n the Hood, é o marco do nascimento do grupo N.W.A., sigla para Niggaz Wit Attitudes (pretos com atitude, em tradução livre).

A canção é um estouro e ultrapassa os limites de Compton. O condado de Los Angeles, um subúrbio pobre com altos índices de criminalidade, é a casa do grupo. E a vida levada no local, alvo constante de batidas policiais e de disputa entre gangues, inspiração para as letras assinadas por Cube, que popularizou o estilo conhecido como gangsta rap. Uma grande quantidade de palavrões se mistura com o cotidiano das ruas e a exaltação do crime e seus frutos. Para além da mensagem, a poesia funciona, a batida também, e o disco de estreia da banda, Straight Outta Compton, lançado em 1988, vende como água para a juventude (branca e negra) americana.

Mais que um retrato da popularização do estilo musical, a cinebiografia assinada por F. Gary Gray é um debate racial, que trata o preconceito com o mesmo peso das canções. A melhor representante é a música F*** The Police. A letra de desacato, que nasce após uma batida policial desnecessária, leva o grupo a um confronto com as autoridades em um show em Detroit – caso que aumentará a fama dos rappers, já que não existe publicidade ruim.

Entre sair da pobreza e viver em mansões em Los Angeles, o grupo passa por conflitos: desde o empresário que os leva ao estrelato, e se mostra um sacana, até os embates entre os próprios integrantes, que culmina com o fim da parceria. Por vezes, o drama é exagerado, assim como o sexismo, com mulheres (semi)nuas em diversos enquadramento. Aliás, uma das críticas ao longa foi feita por uma antiga vítima de Dr. Dre, que teria sido agredida pelo rapper, assim como outras mulheres que o acusam do mesmo crime. O caso ficou de fora do longa, produzido por Dre e os colegas. Mais tarde, ele pediu perdão.

A controvérsia, contudo, não foi suficiente para tirar o longa do caminho do sucesso. Assim como os rappers que ascenderam de forma rápida e surpreendente, o filme fez 199 milhões de dólares em bilheteria mundial, sendo 161 milhões só nos Estados Unidos. Uma sequência está garantida, agora focada na gravadora Death Row Records, que revelou nomes como Tupac e Snoop Dogg, criada por Dre e Suge Knight (R. Marcos Taylor) – o vilão do filme, que na vida real leva as letras do gangsta rap às últimas consequências.

Lista por Sérgio Martins