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As Suplicantes inicia a temporada de “Ésquilo”

Por Maria Eugênia de Menezes

São Paulo – “Para que tudo permaneça igual, é necessário que tudo mude.” Essa era a crença do protagonista de “O Leopardo”, na cena que Visconti tornou célebre no cinema. Com o tempo, a frase ganhou ares de axioma. Mas é possível que seu oposto também faça sentido. Não temer deixar tudo igual para que alguma coisa, por fim, se transforme.

Em “Peep Classic Ésquilo”, projeto que a cia. Club Noir estreia nesta sexta-feira, as marcas do teatro do diretor Roberto Alvim seguem intocadas. Como em suas montagens recentes, as ações se passam sob luz rarefeita. A movimentação dos atores é contida, quase inexistente. As atenções estão voltadas para as palavras: suas formas de elocução, a capacidade que possuem de instaurar climas e estados mentais. É dentro desse cenário de aparente constância, sem o afã da novidade, que o encenador tenta avançar.

Sob a capa da estética minimalista, despontam novas inquietações. Criada em 2006, a Club Noir surgiu com o propósito de investigar dramaturgias contemporâneas. Desta vez, o grupo voltou mais de 2000 anos no tempo. Foi buscar na origem da tragédia o prelúdio de uma arte anterior à civilização que conhecemos hoje. “Ésquilo é o único autor pré-socrático de que temos notícia. Sua obra não tem um caráter civilizatório e a visão de Aristóteles, da tragédia como meio de catarse, não faz sentido aqui”, crê o diretor.

A montagem de “As Suplicantes” abre uma programação que compreende toda a obra dramática do escritor grego. Até dezembro, serão encenados outros cinco textos: “Os Persas”, “Sete Contra Tebas”, “Prometeu”, “Oresteia 1” e “Oresteia 2”.

São histórias que lidam com temáticas distintas. Podem dar conta de ambições individuais, como acontece em “As Suplicantes” e em “Prometeu”. Ou adquirir contornos épicos, caso de “Os Persas”, que se debruça sobre a guerra e o destino do povo grego. “Mas o importante não são propriamente as narrativas e sim o campo de forças mobilizado pelos atores em cena”, diz Alvim.

Eis a justificativa para a utilização de um único cenário, que se mantém inalterado nas seis peças. O estilo do encenador, discípulo do francês Claude Régy, atinge certo paroxismo. Em cena, existe uma única lâmpada, constantemente acesa. Não há trilha ou efeitos sonoros. A cada título, mudam os intérpretes. Mas não importa qual seja a configuração do elenco, todos estarão dispostos em uma forma geométrica, cuja inspiração vem da tela de Kazimir Malevich, “Quadrado Negro Sobre Fundo Branco”.

Também norteia a leitura do Club Noir a filiação de Ésquilo ao pensamento de Heráclito, filósofo que defendia que tudo está em constante estado de mutação. Nas tragédias montadas por Alvim, merece relevo a ideia de instabilidade. “Não é à toa que se volta ao Ésquilo justamente agora”, lembra o diretor. Se a contemporaneidade pôs sob suspeita a onipotência do homem e ressaltou sua fragilidade, a obra esquiliana não faz diferente. “Caem as ilusões de controle sobre a vida, as coisas e até sobre si mesmo”, considera Alvim.

Curioso que Ésquilo seja hoje reabilitado pelos mesmos motivos que solaparam a sua tragédia. Eurípides condenou esse seu antecessor pela dose de inconsciência que pautava a construção de sua ficção. Mas quem atualmente renegaria o autor por trazer à tona o lado escuro de cada um, o não apolíneo, o descontínuo? O mundo instável nos deu novos olhos para ler sua tragédia. Ésquilo permaneceu o mesmo, mas conseguiu tornar-se outro.

Peep Classic Ésquilo

Club Noir (R. Augusta, 331).

Tel. (011) 3255-8448.

6ª e sáb., 21 h; dom., 20 h.

R$ 20 /R$ 10