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As famílias modernas

As relações se tornaram flexíveis, mas o amor permanece igual

Um amigo é pai de adolescente. Foi casado com a mãe dele. Hoje casou-se com outro homem. O garoto compareceu à cerimônia e desejou felicidades ao novo casal. Passa períodos com a dupla. Como chamar o companheiro do pai? Padrasto? Ou pior, madrasta? (Céus, depois da história da Branca de Neve, alguém quer ser chamada/o de madrasta?) O próprio menino optou por “tio”. Mais neutro. Fato: o conceito de família tornou-se flexível. Encontro uma amiga que diz “estou casada”. Não mora junto. Não divide as despesas e não há bebês à vista. No passado, seria um “namoro”. Mas a própria definição do relacionamento esticou. Se há um sentimento de relação estável, vira “casamento”. Existem famílias formadas por pais que já tiveram outros casamentos. A mãe foi casada, teve filhos. O pai também, teve outros filhos. As crianças convivem entre si. Chamam-se de “irmãos”, embora não possuam laços de sangue. Se nascer um bebê, será, sim, irmão de todos, agora com parentesco sanguíneo (no passado, dizia-se meio-irmão, mas não acho bonito. Irmão sempre é irmão inteiro). Confuso? Para eles, nunca. Tudo pertence à família.

Conservadores criticam. Pessoas comuns aprendem a conviver. Vão à reunião de pais e mestres da escola, e o coleguinha de seus filhos tem duas mães. Que acabam comparecendo ao churrasco de fim de semana. Pior a situação de um conhecido meu: só viu o pai duas ou três vezes na vida. Muitos homens adotavam (ainda adotam) o comportamento de uma ave migratória. Pousavam na família de quando em quando. Isso, acho péssimo. A falta da presença do pai marca, sim, a criança. Deixa uma mágoa profunda no adulto. Mas comportamentos flexíveis? A garotada absorve, pelo menos é o que vejo no dia a dia. Tenho uma amiga com três filhas, casada desde sempre com o mesmo homem. Sua melhor amiga, porém, já aos 50 anos, separou-se do marido. Apareceu com outra mulher, mais jovem. Apresentou­-a às meninas: “Esta é minha namorada”. A menorzinha, de 10 anos, surpreendeu-se: “Mas ela não é muito nova pra você?”. Foi o único comentário.

“Pessoas comuns aprendem a conviver. Vão à reunião de pais e mestres da escola, e o coleguinha dos filhos tem duas mães”

Também já existe o trisal. Ou seja, o casamento entre três pessoas. É óbvio que no passado relacionamentos a três existiram. Mas hoje são, muitas vezes, assumidos abertamente. O trisal foi reconhecido em um cartório, em Jundiaí, no interior de São Paulo, em 2015. Klinger vive com Angélica e Paula. Na declaração de união poliafetiva, o direito a um terço dos bens, a seguro de vida etc. Ele é heterossexual e elas, bissexuais. Mais tarde, o Conselho Nacional de Justiça proibiu o casamento a três. Quem quiser terá de bater no tribunal. Alguma dúvida de que em algum momento será legalizado?

Fala-se muito da possível má influência na formação das crianças. Estou envelhecendo. Fui adolescente na década de 60. Vi filhos de hippies crescer e tornar-se executivos conservadores. Não há regras. Fala-se também da dissolução da família. Coisa nenhuma. A família só está mudando. Mas o principal permanece: amor e família são palavras entrelaçadas.

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Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2019, edição nº 2647