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‘As canções batem à minha porta, eu só as deixo entrar’, diz Bob Mould, lenda do rock alternativo que toca em SP e Rio

O músico e ex-líder das bandas Sugar e Hüsker Dü, que influenciou vários grupos nos anos 1990, como Nirvana e Pixies, fala ao site de VEJA sobre rock alternativo, música eletrônica e os shows que fará no país neste fim de semana

Por Carol Nogueira - 4 out 2013, 08h04

“A música eletrônica era enorme nos anos 1990 na Europa, mas só começou a pegar mesmo nos Estados Unidos nos anos 2000. E agora é impossível pôr o pé para fora de casa sem ver três DJs na esquina. Mas música é música. Todos temos uma história para contar, é isso o que fazemos e cada um tem o seu jeito de fazer isso. Há espaço para todo mundo”

Bob Mould é um nome que pode não ter significado de primeira para muitas pessoas, especialmente os nascidos depois dos anos 1990. Mas, se algum dia você curtiu bandas como Nirvana ou Pixies, além dos grupos atuais que se inspiram nessas bandas, deve muito a ele. Isso porque Mould ficou mais conhecido no cenário alternativo como líder dos influentes grupos Sugar e Hüsker Dü — este, o grande responsável por marcar os outros citados.

De alguns anos para cá, o nome de Mould tem sido bastante lembrado por dois fatores. O primeiro foi a parceria com o Foo Fighters de Dave Grohl (ex-Nirvana e fã confesso de Mould) na música Dear Rosemary, presente no disco Wasting Light, de 2011. O outro foi seu álbum mais recente, Silver Age, de canções mais pop, lançado no ano passado e bem recebido pela crítica. Graças a isso, o músico desembarca no Brasil pela primeira vez, com uma turnê que promete clássicos de suas ex-bandas, além de repertório solo. Os shows acontecem nesta sexta e sábado em São Paulo, no Sesc Pompeia (ingressos esgotados), e no domingo no Rio de Janeiro, no Circo Voador (bilhetes à venda por 176 reais na ingresso.com).

Aos 52 anos, a lenda do rock alternativo diz que seu maior talento é fazer canções pop — e é, mesmo. “As músicas caem do céu. Eu sou muito bom em escrevê-las, refinar a história que estou pensando para um formato de três minutos e tentar marcar as pessoas com ela. Mas o que eu faço é só deixar entrar as canções que batem à minha porta. Tento transformá-las em algo que as outras pessoas vão entender”, disse, em entrevista ao site de VEJA.

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Mas Mould não se dedicou somente às guitarras em sua carreira. Desde 2002, quando lançou o álbum Modulate, ele vem flertando com a música eletrônica, algo que irritou alguns de seus fãs. “Como um homem gay, a trilha sonora da minha vida é a dance music, a trilha dos clubes noturnos. É engraçado que meus fãs não se identifiquem com algo que faz parte da minha vida”, afirma. No entanto, por ironia do destino, justamente quando a eletrônica se tornou o estilo dominante nos Estados Unidos, Mould voltou ao rock, um estilo que, bem, não é tão popular hoje em dia. Uma maneira, talvez, de continuar alternativo?

Leia a entrevista abaixo, concedida por Mould ao site de VEJA.

Apesar de ter uma carreira consolidada na música alternativa, você está vindo ao Brasil pela primeira vez só agora. Por que demorou tanto? Ninguém nunca me convidou. Esta foi a primeira vez que rolou uma proposta. Estou muito animado, não faço ideia do que esperar. Dizem que o público é incrível no Brasil e na América do Sul em geral, especialmente com rock barulhento. Imagino que haja muita expectativa, espero me sair bem. Ouvi dizer que há muitas bandas indo ao Brasil agora, espero que, ainda assim, consiga atrair atenção do público para as nossas apresentações.

Você tem problemas de audição e já chegou a dizer que se aposentaria por causa disso, mas não o fez. Desistiu? E, por falar nisso, como anda a sua audição? Está ótima, obrigada por perguntar. Estou em turnê e em cima do palco costuma ser muito barulhento, então estou com um zumbido praticamente eterno nos ouvidos. Mas aprendi a viver com isso. Faz parte do trabalho, tento não reclamar muito hoje.

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Você teve um retorno e tanto do público e da crítica com o seu disco mais recente, Silver Age, lançado no ano passado. O que o inspirou? Sim, ele se saiu muito bem, fiquei feliz com isso. Em 2008, quando comecei a escrever minha autobiografia, que levou quatro anos para ser terminada, passei a relembrar os velhos tempos e pensar que gostaria de voltar a escrever músicas pop mais curtas, mais diretas, com letras sobre o que eu estivesse sentindo no momento. Havia também a expectativa de uma reunião do Sugar por causa dos 20 anos do disco Copper Blue. Ao mesmo tempo, estava acontecendo toda a coisa com os Foo Fighters. Dave Grohl ligou perguntando se eu toparia ir para Los Angeles gravar vocais em uma música do disco deles e eu aceitei. Fiquei muito honrado e ele acabou se tornando um amigo próximo, afinal, fazíamos shows juntos toda noite. Isso também me influenciou, de certa maneira. O disco foi um resultado de tudo isso. Há uns anos, quando as coisas estavam confortáveis, eu mudava de direção e fazia tudo ao contrário, queria ser “do contra”. Mas agora eu me deixei levar, pensei: “Bom, isso é o que está acontecendo agora, vamos ver aonde vai dar”. E fluiu muito bem.

Como foi trabalhar com Dave Grohl? No documentário deles, Back and Forth, pareceu bem divertido. Nós nos conhecemos há muitos anos e somente nos últimos quatro anos é que nós temos mantido contato e conhecido a família um do outro, por exemplo. Agora, parece que somos parte da mesma família. Dave é um cara ótimo, não é à toa que as pessoas deem esse apelido para ele de “o cara mais legal do rock”. O que você vê é o que ele é, não tem nenhuma jogada, nenhuma atuação. Acho que esse é um dos motivos do sucesso dele.

Você teve uma passagem pela música eletrônica, mas agora voltou ao rock — justamente num momento em que a música eletrônica cresceu nos EUA. Como se sente? Os últimos dez anos foram muito interessantes para mim, porque em 2002 eu lancei Modulate, um disco de música eletrônica. Na época, muitas pessoas me perguntaram porque eu havia feito aquilo e a verdade é que eu não sabia direito. Naquela época, eu queria tentar coisas diferentes e, como um homem gay, a trilha sonora da minha vida era a dance music, a trilha dos clubes noturnos. Dito isto, é engraçado que os fãs não se identifiquem com algo que faz parte da minha vida. Para mim, a música eletrônica é mais familiar. É uma transição engraçada.

https://youtube.com/watch?v=rB-rAO2Bq2I

E como foi escrever um livro sobre a sua vida? É diferente de escrever canções? É completamente diferente. Músicas caem do céu. Elas só se fazem conhecidas através de você. Eu sou muito bom em escrevê-las, refinar a história que estou pensando para um formato de três minutos e tentar marcar as pessoas com ela. Mas o que eu faço é só deixar entrar as canções que batem à minha porta. Tento transformá-las em algo que as outras pessoas vão entender. Mas, voltando ao livro, bem, ele é sobre todas as canções que eu escrevi e sobre tudo o que aconteceu entre cada uma delas. Todas as casas em que morei e sobre todas as pessoas que fizeram parte da minha vida, todas as que pedi para irem embora. É muito maior que uma canção. Já haviam me convidado para escrever um livro aos 40 anos, mas achei cedo demais. Só fui topar alguns anos depois, quando percebi que, como minha memória não é das melhores, era melhor que eu pusesse tudo no papel logo de uma vez, senão ia esquecer tudo. Foi um processo longo, tive de reencontrar antigos amigos para relembrar algumas coisas e dar sentido a elas. As partes tinham de se encaixar. Não foi muito divertido, mas está lá. Os momentos bons, o não tão bons… São os primeiros 48 anos da minha vida, e eu não pretendo fazer de novo. Não recomendo a ninguém, a menos que a pessoa realmente queira se conhecer (risos).

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Você influenciou o trabalho de muita gente. Acha que as pessoas reconhecem o suficiente o seu trabalho? Olha, essa é uma pergunta difícil. Seria melhor se mais pessoas ouvissem as músicas, claro, mas fico muito grato em ouvir elogios de qualquer um que seja. Para mim, é mais do que suficiente. Eu levanto de manhã e vou trabalhar. O resto está fora do controle. Eu sei o que as pessoas falam sobre o Hüsker Dü e sobre o Sugar. Mas basta. Toda vez que encontro Dave ou Kevin Shields (do My Bloody Valentine) ou Frank Black (dos Pixies), nós discutimos essas questões (todas são bandas influenciadas por Hüsker Dü) por uns 20 minutos, rimos e então tudo volta ao normal. É assim que funciona. Quando eu comecei a tocar, também tive de copiar um monte de gente.

Como você vê o rock hoje em dia? Está em baixa? Ah, não sei. Há muitas bandas legais hoje em dia, como No Age, Cloud Nothings, White Lung. Há outras mais pop muito boas, como o Best Coast. Adoro várias coisas que estão por aí atualmente. É engraçado, porque a música eletrônica era enorme nos anos 1990 na Europa, mas só começou a pegar mesmo nos Estados Unidos nos anos 2000, acho que o Postal Service (banda indie formada por Ben Gibbard, do Death Cab for Cutie, que mistura rock e eletrônica) foi responsável por isso. E agora é impossível pôr o pé para fora de casa nos EUA sem ver três DJs na esquina. Mas música é música. Todos temos uma história para contar, é isso o que fazemos e cada um tem o seu jeito de fazer isso. Há espaço para todo mundo. O rock está em bom estado, a música eletrônica tem coisas boas, adoro o novo do Delorean, o do Holy Ghost. Sou um otimista, né? (risos)

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