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Arquitetos de Nova York projetam a São Paulo do futuro

Em entrevista ao site de VEJA, dupla do renomado escritório nova-iorquino TWBTA aponta medidas bem-sucedidas implantadas na cidade americana que poderiam funcionar para transformar a metrópole paulistana num lugar melhor

As cidades de São Paulo e Nova York têm diversas semelhanças entre si, mas é com as diferenças que São Paulo pode aprender. A cidade americana está muito à frente na resolução de questões que ainda demandam grande atenção dos governantes daqui, como o trânsito caótico e a ociosidade de espaços públicos. Por isso, algumas ideias que deram certo por lá podem ser importadas. É nisso que acredita o casal de arquitetos Tod Williams e Billie Tsien, presença aguardada no simpósio Arq. Futuro SP, que vai reunir especialistas em urbanismo, arquitetura e tecnologia para discutir os desafios de São Paulo, nesta segunda e terça, no Auditório do Ibirapuera.

O casal é a cabeça pensante do renomado escritório de arquitetura TWBTA, sediado em Nova York desde 1974. Entre os projetos mais relevantes da dupla, está a nova sede da Fundação Barnes, que administra a coleção de arte francesa de Albert Barnes, na Filadélfia. Batizado de Gallery in a Garden, o novo prédio resolveu um problema crônico de falta de luz que havia na área expositiva da antiga sede da fundação, construída na Pensilvânia. É de autoria da dupla também o Museu da Arte Popular Americana, em Nova York, a Asia Society Hong Kong e outros projetos cobertos de elogios.

Em meio a tantos problemas, diz o casal, São Paulo deve priorizar a relação com seus moradores, começando por facilitar o deslocamento pela cidade. Para isso, é preciso diversificar os meios de transporte e investir em ciclovias — proposta que aliás se tornou queridinha dos candidatos a prefeito. “Hoje em dia, nós temos ciclovias em Nova York, algo que simplesmente não existia há alguns anos. Algumas partes da cidade, inclusive, são fechadas ao tráfego de carros em dias alternados da semana para permitir uma maior circulação de ciclistas e pedestres”, diz Williams.

Em segundo lugar, São Paulo deve repensar seus espaços ociosos. A capital financeira do país está se tornando uma cidade de serviços, cada vez mais distante da cidade industrial que foi a partir do início do século XX. Essa mudança de perfil, e os desafios de concretizá-la, é mais um tema a ser debatido no Arq. Futuro. A programação do evento se estende entre 14h e 17h30, na segunda-feira, e das 9h às 17h30, na terça-feira. Os ingressos custam 20 reais.

Leia a seguir a entrevista concedida por Tod Williams e Billie Tsien ao site de VEJA.

Quais são os maiores problemas que detectaram na cidade?

(Tod) Em São Paulo, mais do que em outras cidades, há uma enorme disparidade entre ricos e pobres. E sabemos que o sistema de transporte é muito problemático. Eu moro em Nova York desde 1967 e durante esses anos todos vi medidas tomadas pelo poder público para solucionar problemas como esse. Vi a cidade mudar ao longo do tempo e se tornar um lugar mais agradável para os cidadãos em geral, ricos ou pobres. Acho que podemos transmitir o conhecimento que adquirimos como moradores de Nova York aos cidadãos de São Paulo.

(Billie) De fora, vemos uma enorme disparidade entre ricos e pobres. Além de debater a cidade no Arq Futuro, pretendemos encontrar um lugar no centro para criar um programa de residência, onde jovens de 16 a 22 anos possam morar por um determinado período de tempo, um ano mais ou menos, aprender algumas habilidades, como cozinhar para restaurantes de alta gastronomia, e elaborar um projeto para São Paulo.

Há algum projeto específico que deu certo em NY e pode funcionar em SP?

(Tod) O projeto mais incrível feito recentemente em Nova York foi o High Line (parque público construído numa linha férrea desativada num elevado no West Side de Manhattan, que o Rio de Janeiro sabiamente já está copiando). Eu ainda não conheço São Paulo pessoalmente, mas acredito que exista uma maneira semelhante a essa de juntar as pessoas num parque e aproveitar um espaço ocioso.

(Billie) São Paulo é uma cidade com muitos viadutos, então, fazer algo parecido ao High Line em um deles seria uma ótima ideia.

(Tod) Outra ideia que tem sido muito bem-sucedida em Nova York é a instalação de um sistema de balsas ao redor da ilha de Manhattan. Isso é impossível em São Paulo, mas a ideia principal é proporcionar diferentes meios de transporte à população. Hoje em dia, em Nova York, nós temos ciclovias, algo que simplesmente não existia há alguns anos. Algumas partes da cidade, inclusive, são fechadas ao tráfego de carros em dias alternados da semana para permitir a maior circulação de ciclistas e pedestres. Dessa forma, os cidadãos se sentem no comando de sua própria locomoção, em vez de se verem sujeitos a algo fora de seu controle, como o trânsito.

Qual é o papel dos centros culturais numa metrópole?

(Tod) O Brasil é um país com forte tradição em grandes projetos públicos de infraestrutura, como a construção de Brasília. Hoje em dia, acho que precisamos de obras mais modestas que se adequem à cidade sem causar tanto impacto. Essas construções menores inspiram mais envolvimento da população que vive em torno delas, as pessoas passam a se sentir responsáveis por aquele espaço e cuidam dele com mais atenção, ao contrário de infraestruturas maiores, que são alienantes. Outra iniciativa interessante feita em Nova York recentemente foi a instalação de poltronas de teatro na calçada da Broadway Street até a Times Square, onde as pessoas podem se sentar e observar o movimento.

(Billie) A preocupação central deve ser transformar espaços públicos em lugar atraentes ao público.

(Tod) Presume-se que os espaços públicos são bem cuidados pelo governo, mas há dois exemplos que mostram que isso não necessariamente acontece em Nova York. Um deles é o Central Park, que há 25 anos é administrado por um conselho formado pela prefeitura e pelos moradores de seu entorno. Eles também são responsáveis pelo parque, como se fosse o quintal de suas casas. É muito importante encorajar as pessoas a se responsabilizar pelos espaços públicos que as rodeiam. Ao lado do Lincoln Center, havia um terreno abandonado frequentado, basicamente, por sem-tetos. Ou seja, praticamente abandonado. Nós fomos convidados a transformar esse terreno num lugar agradável e seguro. Hoje, o lugar recebe as mais diferentes performances e é um ponto de encontro vibrante. Ainda é frequentado por mendigos, mas também por ricos, jovens e idosos. Esses são exemplos de como é possível conscientizar a população para usar e cuidar da cidade.

Uma cidade deve ter um determinado número de centros culturais por habitante?

(Tod) Não, o conceito de centro cultural é semelhante ao de três pessoas que se reúnem para jogar cartas na rua e convidam outra que está passando para participar, ou àquele de quem sai de seu apartamento e vai tocar violão na calçada. É preciso rever o significado de centro cultural, todos podemos ser propagadores de cultura. Então, em São Paulo, existem 12 milhões de centros culturais.

Vocês falaram do projeto de residência. Por que o interesse de trazer estudantes?

(Billie) Nós já levamos alunos para diferentes lugares, como Irlanda, Alasca e Índia. Nós estamos interessados na efervescência cultural de São Paulo.

(Tod) Nos Estados Unidos, de certa forma, acreditamos estar no melhor lugar do mundo. A melhor parte de ir a lugares como a Índia é repensar e ampliar nossos referenciais de beleza. A riqueza cultural é o que mais nos atrai no Brasil, além de sua enorme gama de potenciais a serem explorados.

Quais são esses potenciais?

(Billie) É evidente que a economia do país está crescendo. Muitos empresários nova-iorquinos têm pensado em investir no Brasil, mas a força maior do país está em sua diversidade cultural. O Brasil é habitado por pessoas de origens diversas, é um caldeirão formado por muitas influências que confluem para algo muito interessante.

(Tod) Praticamente o mundo todo foi moldado por colonizadores europeus e o Brasil é afetado por isso muito fortemente. O hemisfério norte é mais desenvolvido do que o sul atualmente e eu acredito que, em breve, essa ordem vai se inverter. Conhecer a cultura dessa parte do mundo é se aproximar de nosso futuro, quando o mundo inteiro, provavelmente, vai virar de ponta-cabeça em termos de centralização de poder econômico. É melhor reconhecer essa mudança agora do que protelá-la.