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Animação made in Hollywood — mas com sotaque brasileiro

Artistas nacionais que trabalharam em ‘Zootopia’, ‘Moana’ e ‘Madagascar’ explicam como chegaram ao competitivo mercado americano

Por Mariane Morisawa, de Los Angeles - Atualizado em 8 mar 2017, 08h46 - Publicado em 8 mar 2017, 08h41

O vencedor do Oscar 2017 de melhor animação, Zootopia – Essa Cidade É o Bicho, de Byron Howard e Rich Moore, pode se passar em uma sociedade fictícia de animais, mas tem um saborzinho brasileiro. O paulista Renato dos Anjos foi o chefe de animação do filme, responsável pelo trabalho de todos os animadores de dar movimento e expressões faciais à coelha Judy Hopps e ao raposo Nick Wilde, no filme que celebra o que os indivíduos têm em comum, embora sejam tão diferentes entre si. Uma das melhores cenas, aliás, se passa em um Detran onde só trabalham bichos-preguiças, animal conhecido da fauna nacional. “Uma das coisas mais difíceis do nosso trabalho é que tentamos fazer com que o espectador veja o personagem, sem pensar que é uma animação”, disse Dos Anjos em entrevista ao site de VEJA, direto dos estúdios da Disney em Burbank, cidade na região metropolitana de Los Angeles.

Moana – Um Mar de Aventuras, que também disputou a estatueta e em quatro semanas de exibição tornou-se a maior bilheteria do mesmo estúdio, passando o próprio bilionário Zootopia, viaja a uma remota ilha do Oceano Pacífico, mas também com profissionais “made in Brazil”. Caso da mineira Natalia Freitas, que trabalhou no departamento de desenvolvimento de visual, fazendo as texturas de personagens, cenários e objetos – especificamente, ela contribuiu com as cestas, as tochas, os tambores, os tecidos estampados que a heroína, sua família e o semideus Maui usam. “Foi um trabalho muito divertido e prazeroso, nem me sentia cansada quando chegava em casa.”

Nos cinemas, antes da exibição de Moana, naquele momento em que passam os trailers, é possível ver um curta da Disney, Trabalho Interno, dirigido por um brasileiro. Leo Matsuda é um “story artist” que trabalha no departamento de storyboard, onde é encarregado de desenvolver ideias do roteiro em forma de imagem. No currículo, além de um curta para chamar de seu, tem atuação em Zootopia, Operação Big Hero e Detona Ralph, entre outros. Zootopia, aliás, contou com mais um brasileiro, Eric W. Araujo, que também atuou em Moana e Frozen, entre outros, no setor de efeitos visuais.

Mas a legião de profissionais exportados pelo Brasil, vale dizer, não se restringe aos estúdios Disney. Não muito longe dali, em Glendale, na DreamWorks, o carioca Ennio Torresan Jr. acaba de concluir seu trabalho como chefe do setor de storyboards (departamento que transforma o roteiro em cenas) em O Poderoso Chefinho, de Tom McGrath, que estreia dia 30, sobre uma criança de 7 anos ameaçada pela chegada do irmão, um bebê mandão e manipulador dublado na versão original com voz de adulto por Alec Baldwin – agora conhecido por personificar o presidente dos Estados Unidos Donald Trump no humorístico Saturday Night Live.

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Torresan Jr., que trabalhou no mesmo setor em filmes como Madagascar, inspirou-se nos conflitos entre suas duas crianças pequenas para trazer histórias e piadas para o filme. “O diretor não tem filhos, então ele sempre perguntava: ‘E aí, o que aconteceu no fim de semana?’”, conta. “Eles ficam brigando pelo amor dos pais, acham que o amor é finito, que um deles vai ficar sem. Então, o filme fala da descoberta de que o amor dos pais é infinito e incondicional.”

A Pixar, em Emeryville, perto de São Francisco, contou com o trabalho da animadora paulista Nancy Kato e do carioca Ivo Kos, modelador de cenários, em Procurando Dory, de Andrew Stanton e Angus MacLane, outra animação a passar de 1 bilhão dólares em bilheteria.

Mesmo que tenham como ponto de partida comum a paixão pelo desenho desde a infância, cada um traçou seu próprio caminho para chegar a Hollywood. “Eu não ia bem na escola, mas estava sempre desenhando”, conta Renato dos Anjos. “Conforme foi passando o tempo, acho que meus pais pensaram: ‘O que vai ser desse menino? O que ele vai fazer da vida?’ Minha sorte é que um amigo da nossa família trabalhava com animação. Ele viu meu progresso ao longo do tempo e me chamou para uma entrevista na Casinha de Animação, que fazia curtas-metragens da Turma da Mônica.” Renato foi contratado como estagiário aos 14 anos de idade. Depois disso, trabalhou em comerciais. Em meados dos anos 1990, quando a animação estava vivendo um “boom” nos Estados Unidos, seu amigo Sandro Cleuza, que fazia o filme Anastasia (1997), ligou dizendo que a Fox Animation precisava de pessoas. O estúdio no Arizona fechou depois de três anos e meio, então Renato mudou-se para a Califórnia, onde passou a trabalhar primeiro na Sony, até chegar à Disney em 2007. “Estar aqui, para mim, sempre foi um sonho, mas nunca imaginei que fosse se realizar.”

‘Tem um sabor especial no trabalho que o brasileiro produz. Nosso humor é parecido com o americano, mas o ritmo da animação é outro. Ou seja, temos algo de diferente, mas atraente’

Renato dos Anjos, animador

Foi também graças a um amigo que Ennio Torresan Jr. saiu do Brasil. Ele começou a pintar aos 7 anos de idade, graças aos incentivos da mãe, que comprou tela e tinta a óleo. “Eu era pequeno, mas me lembro que a tinta era muito difícil de tirar. Então, pensei: ‘Vou pintar só a tela, não vou mais pintar meu corpo com essa tinta’”, conta, rindo. “Minha mãe gostava muito de pintura. Era uma pintora frustrada. Me incentivava muito. Não tive ninguém na minha família que me dissesse para estudar engenharia. Eu perdi meu pai aos 7 anos, então a influência da minha mãe na minha vida foi muito grande.” Torresan Jr. fez faculdade de Belas Artes na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e trabalhou com quadrinhos, quando se apaixonou pelo processo de contar histórias. Acabou em um curso de animação na Casa de Cultura Laura Alvim por necessidade: ia dar uma aula de animação. “Eu não sabia nada sobre o assunto. O curso acabou mudando tudo.”

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Depois disso, dirigiu o curta-metragem El Macho, que correu os festivais no mundo. Dois amigos, Céu D’Ellia e Fábio Lignini, o chamaram para trabalhar em Londres. Ele experimentou então funções diferentes e, em meados dos anos 1990, foi para os Estados Unidos a convite de um colega que conheceu na Inglaterra. “Estava no lugar certo na hora certa”, disse, sobre a época em que foi fundada a DreamWorks e o Cartoon Network e a própria Disney vivia um excelente momento, com produções como O Rei Leão. Ele aproveitou: dirigiu médias para a HBO, trabalhou em Bob Esponja na Nickelodeon, fez Teacher’s Pet na Disney. “Eu procurava projetos legais, interessantes, que tinham uma cara diferente”, diz. “Eu pedia demissão e migrava direto. Eles não entendiam. Eu queria aprender.” Sossegou depois de ser convidado a trabalhar em Madagascar, de Eric Darnell e Tom McGrath, na DreamWorks. Na sequência, fez Megamente, Kung Fu Panda Turbo no mesmo estúdio. “Flexibilidade e capacidade de adaptação são bons talentos para ter aqui”, afirmou. Paciência também. “É fascinante criar um mundo completamente ilusório, mágico, impossível. E isso dá um trabalho desgraçado”, conta. “Somos grupos de cinco a onze artistas de storyboard por produção, fazendo em média 80 desenhos por dia.” Vários deles acabam indo para o lixo, no trabalho contínuo de melhorar a animação.

Natalia Freitas cresceu assistindo a filmes de animação, jogando videogame e lendo quadrinhos com seus três irmãos. Aos 10 anos, perdeu os pais. “Desenhar e assistir a animações ganhou um outro significado: era um momento em que eu conseguia fugir da tristeza”, diz. “A arte virou meu maior apoio, eu passava horas desenhando, vendo TV e lendo, ou com minha irmã, tocando música.” Aprendeu sozinha, praticando, reproduzindo técnicas vistas em livros de arte e assistindo a fitas VHS do pintor Bob Ross. Na hora de escolher uma profissão, não teve dúvida. Fez animação na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em 2009, formou-se e dirigiu seu primeiro curta. Mudou-se para Porto Alegre e fez comerciais de televisão, filme e até campanhas políticas. Acabou voltando para Belo Horizonte, desanimada por não ter tido uma oportunidade como animadora 2D.

Renato dos Anjos participa dos processos de seleção da Disney e explica que a origem dos candidatos, ao contrário do que diria Donald Trump, nunca interessa ao estúdio

“Percebi que, para conseguir um lugar no mercado, eu teria que aprender como ser uma artista digita. Essa frustração me deixou com muito sangue nos olhos e comecei a estudar 3D com tutoriais na internet. Então, finalmente, consegui um emprego em um pequeno estúdio.” No início de 2012, conseguiu uma bolsa de estudos na Alemanha, estudando na Filmakademie Baden-Württemberg / Animationsinstitut. Fez dezenas de projetos de estudantes nessa época. No final de 2015, viu uma vaga no site da Disney, para o programa Talent Development. Foi uma das três selecionadas para fazer treinamento e acabou no departamento de desenvolvimento de visual, trabalhando em Moana. Como o contrato era temporário – algo normal nos estúdios –, ela passa agora uma temporada no Brasil, mas já tem outros projetos em vista.

Renato dos Anjos participa dos processos de seleção da Disney e explica que a origem dos candidatos, ao contrário do que diria Donald Trump, nunca interessa ao estúdio. “Se a gente vê potencial, não importa de onde o artista vem.” O programa de trainee dura um ano e é bom para os animadores, que ganham experiência, e para o estúdio, que já fica de olho em quem contratar. A DreamWorks também tem um projeto parecido. No ano passado, 500 pessoas se candidataram para seis vagas. “Hoje, as chances são bem maiores, mas a competição também é absurda”, explicou Ennio Torresan. Na sua época, fazer um filme custava 25 000 dólares (cerca de 80 000 reais), mesmo com desenhos em papel em vez de acetato, que é mais caro. Agora, só é preciso um computador. Depois, dá para divulgar o próprio trabalho nas redes sociais. Os estúdios também procuram os alunos dos cursos de animação conceituados nos Estados Unidos, como o da Cal Arts, que formou a nata dos animadores em atividade, de John Lasseter, diretor criativo da Disney e da Pixar, a Pete Docter (Divertida Mente), Andrew Stanton (Procurando Dory) e Rich Moore (Zootopia). Foi lá que Leo Matsuda estudou.

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O mercado americano sempre está à procura de novidades. “Hollywood é muito faminta, sempre quer uma coisa diferente, porque o objetivo é vender para o mundo inteiro. Então, vale tudo o que você puder trazer de novo para contribuir para essa indústria”, afirma Torresan. É aí que o brasileiro costuma se dar bem, diz Renato dos Anjos. “Tem um sabor especial no trabalho que a gente produz. Nosso humor é parecido com o americano, mas o ritmo da animação é outro. Ou seja, temos algo de diferente, mas atraente.”

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