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Amora Mautner: a fruta da estação

Criada em um lar tropicalista (e bem doido), filha de Jorge Mautner se converteu na mais festejada diretora da Globo. Sua nova ousadia: gravar a próxima novela das 9 como um reality show

Tempos atrás, a carioca Amora Mautner se consultou com Mãe Carmem, herdeira do terreiro do Gantois, na Bahia. Ao jogar os búzios, a mãe de santo se intrigou: Amora lhe pareceu “calminha” demais para uma filha de Xangô e Iansã, orixás de temperamento explosivo. “Calminha, eu? É só por respeito que estou aqui ajoelhada e calada”, reagiu ela. Quem convive com Amora na vida pessoal ou no trabalho como diretora de núcleo da Globo sabe do que ela fala. Filha do mentor e maluquete do tropicalismo Jorge Mautner e da etimologista Ruth Mendes dos Santos, ela é produto das agitações dos anos 70. “Já nasci pilhada. Minha mãe deve ter feito tanta loucura quando estava grávida que o efeito passou para mim”, diz.

Na TV, esse turbilhão candomblecista e pós-tropicalista tem se revelado funcional. Aos 40 anos, Amora é a fruta da estação na teledramaturgia da Globo. Garimpadora de novas técnicas de gravação, ela teve papel relevante no sucesso de Avenida Brasil, trama de 2012 que foi um marco na renovação do gênero. A novela de João Emanuel Carneiro tinha entre seus trunfos a balbúrdia suburbana na casa do ex-jogador Tufão. Aquele jogral caótico, no qual os atores falavam de improviso ao mesmo tempo, foi uma invenção típica da “Amoralândia”, a peculiar usina de inovações que é a mente da diretora. No próximo folhetim das 9 da emissora, A Regra do Jogo, também de autoria de Carneiro, sua aposta no coloquialismo ruidoso vai redobrar. A novela terá ares de reality show: câmeras serão escondidas no cenário, com o intuito de fazer com que os atores se movam com maior naturalidade. Nem uma mãe de santo poderia prever se uma ousadia assim vai vingar. Mas o histórico de Amora e Carneiro inspira confiança. “Posso me dar bem ou quebrar a cara de um jeito bizarro”, diz ela.

A Regra do Jogo estreia em 31 de agosto com a missão de tapar a cratera aberta no ibope pela desastrada Babilônia. A diretora jura que não sente a pressão, mas debate-se com outro fator de stress: o medo de seu trabalho não fazer jus à trama de Carneiro. O jeito é recorrer aos milagres da medicina. “O texto do João é um negócio de maluco. A cada capítulo que leio, tenho de tomar um Frontal antes de dormir. O que eu posso fazer? Frontal é legalizado”, diz a falante diretora, referindo-se a um ansiolítico.

Segundo Amora, a inquietude existencial foi um traço estimulado por seus pais – especialmente o caldeirão de sincretismos quânticos chamado Jorge Mautner. Desde cedo, o pai instigou os hábitos de leitura da filha. “Eu aumentava a mesada toda vez que Amora lia um livro. Começou com Monteiro Lobato, mas logo ela passou a ler de Simone de Beauvoir a Bertrand Russell.”

Nem tudo foram flores na convivência com o pai. Aos 7 anos, Amora foi fazer terapia para lidar com um efeito adverso da criação em um lar tropicalista: ver o pai peladão o tempo todo fez mal para sua cabeça. Ela conta que até brincava com um, digamos, detalhe anatômico do pai. “Para eles, era tudo normal. Coisa de índio”, diz Amora. Mautner faz um mea-culpa. “Se eu soubesse que faria mal a ela, nunca teria feito isso. Vivo ajoelhado aos pés da cruz, em eterna penitência”, diz.

Sendo filha de quem é, foi natural para Amora crescer dentro da teia de relações da elite cultural no Rio. Entre seus amigos, desde sempre estão os filhos de Gilberto Gil e Caetano Veloso. O primeiro namorado já era uma celebridade: aos 16 anos, ela se iniciou no amor com o galã Fábio Assunção. “Para quem vinha de uma família tão doida, até que demorei para perder a virgindade. Fui praticamente uma mulher do século XVIII”, diz. A coisa encrespou quando Amora, pouco depois de completar 18 anos, trocou o então jovem ator por um homem com mais de 50 anos. O pai virou uma arara. “Ele falou que eu estava querendo namorar um homem mais velho porque tinha um problema freudiano é com ele. Virou o maior dos caretas”, conta.

A fila andou – e como – na vida de Amora. Ela foi mulher do ator Marcos Palmeira (pai da filha Julia, de 7 anos) e anuncia o casamento com sua paixão atual: Arnon de Mello, filho do ex-presidente Fernando Collor e de Lilibeth Monteiro de Carvalho, expoente do high society carioca. “Sempre quis um príncipe. Serei uma noiva tradicional”, diz. Mas, em se tratando de Amora, a tradição tem seu lado inesperado: “Estou quase ficando com Arnon e Lilibeth juntos, de tanto que a amo. Fiz duas baladas para ela lá em casa”.

As festas na Amoralândia, aliás, são animadas. “É tudo o que Ibiza queria ser: música disco e loucurinha”, diz. A lista de convidados vai da sogra à atriz Carolina Dieckmann. “A Carolzinha era careta até me conhecer”, conta. Para Amora, o Rio é uma festa até no horário do expediente. Enquanto dava entrevista a VEJA, em um restaurante na Barra da Tijuca, ela interrompeu a conversa ao encontrar o cantor Zeca Pagodinho. “Gênio, eu te idolatro”, disse. Em seguida, deu um rolezinho com o sambista pelo restaurante, para negociar a participação dele na festa da novela e tratar de outros babados.

Alguma dose de loucurinha também faz parte de seu método de trabalho. Tome-se o jeito como ela convenceu o ator Alexandre Nero a encarnar o protagonista de A Regra do Jogo, Romero Rômulo. Após fazer o Comendador de Império, Nero estava cansado e não queria nem saber do convite. Sem achar ninguém para a vaga, ela focou o Frontal e se atirou na presa. “Num telefonema muito tropicalista, eu disse que me ajoelhava para ele passar uma horinha no estúdio comigo”, afirma. Nero achou graça em sua abordagem “mucho louca” – e acabou cedendo.

Amora credita o êxito como executiva a um traço improvável sob sua pele folclórica: o pendor para general. A novela nem começou e já se contabilizam três baixas em sua equipe por não aguentar a pressão. Isso sem botar na conta a saída do ator Murilo Benício, que faria o papel que acabou nas mãos de Nero. “Ele apresentou, simbolicamente, uma energia menos propícia ao que considero necessário para um trabalho dar certo”, diz ela.

A moral da moça na Globo está estampada em seu holerite: ela embolsa 150  000 reais mensais. Perdulária, Amora abriu mão de controlar a própria conta depois que estourou seu cartão de crédito comprando dois contêineres de mobília numa loja em Nova York. A amiga Flora, mulher de Gilberto Gil, estava junto e a socorreu. Após o episódio, Amora entregou a administração de seu dinheiro à empresa da família Gil. Na hora de zelar pelos frutos do trabalho, até loucurinha tem limite.

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