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Aleksandr Soljenítsyn: o escritor que driblou a KGB

'Arquipélago Gulag', obra monumental que expôs a opressão nos campos de prisioneiros soviéticos, ganha nova tradução no país

Por Flávio Ricardo Vassoler - Atualizado em 13 dez 2019, 11h01 - Publicado em 13 dez 2019, 06h00

Depois da morte do ditador Josef Stalin, em 1953, o novo secretário-­geral do Partido Comunista da União Soviética, Nikita Khruschev, deu início a uma política de degelo e relativa (isto é, tutelada) liberalização do país. Durante a realização do XX Congresso do partido, em 1956, Khruschev denunciou os julgamentos, fuzilamentos e expurgos políticos realizados pela máquina de repressão stalinista. Foi no embalo dessa atmosfera de flexibilização do Estado policial que a novela Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch (1962), do escritor russo Aleksandr Soljenítsyn (1918-2008), laureado com o Nobel de Literatura em 1970, ganhou publicação na revista Nóvy Mir. A narrativa apresenta o cotidiano acossado de um zek, apelido dos condenados a trabalhos forçados em algum lugar do “arquipélago gulag”, em referência aos campos de prisioneiros do regime soviético — ou, nas palavras de Soljenítsyn, “nossa torrente punitiva, nosso sistema de esgoto”.

A novela provocou forte comoção dentro e fora da União Soviética (URSS), foi traduzida para várias línguas e, quando veio o recrudescimento do regime sob Leonid Brejnev (1906-1982), o mandachuva à frente da ditadura comunista após Khruschev ser apeado do poder, teve publicação proibida, na segunda metade da década de 60. Mas Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch desencadeou uma onda ensurdecedora: cartas, relatos e testemunhos de ex­-prisio­neiros dos gulags chegavam em abundância a Soljenítsyn. O material riquíssimo detalhava as injustiças sofridas pelos ex-prisioneiros, das detenções e inquéritos arbitrários, passando pela tortura em busca de autoconfissões e delações, até o cotidiano dos gulags e a tentativa de encontrar um liame para permanecer vivo para além das sentenças (que podiam alcançar mais de uma década por meros chistes contra Stalin). O escritor então tomou como missão moral, política e literária — em Soljenítsyn, tais esferas se imiscuem a ponto de serem indiscerníveis — a composição de Arquipé­lago Gulag, obra-prima que agora é publicada no país em volume condensado, com nova tradução direta do russo, feita por Lucas Simone, e um precioso prefácio de Natália Soljenítsyna, viúva do escritor e presidente da Fundação Soljenítsyn, editora de sua obra completa.

Arquipélago Gulag não só representa a mais radical denúncia dos crimes perpetrados pelo Estado soviético sob o totalitarismo de Stalin. O caudaloso livro revoluciona as relações entre literatura e história ao enredar, de maneira inconsútil, elementos documentais e testemunhais à estrutura narrativa para compor um trabalho de natureza híbrida e aberta. Natália Soljenítsyna revela que a publicação do primeiro tomo do Arquipélago Gulag em Paris, em fins de 1973, envolveu uma verdadeira odisseia para driblar a onipresença da KGB. Para (tentar) escapar à vigilância do serviço secreto soviético, Soljenítsyn passou dois invernos num sítio nos arredores de Tartu, na Estônia, em meados dos anos 60, a fim de compor uma obra que revelasse ao mundo a reversão da utopia socialista na mais rematada e totalitária distopia: das prisões arbitrárias e noturnas de milhões de inocentes ao degredo para os gulags siberianos mais longínquos e invernais — nomeadamente, para Kolimá, no nordeste extremo da URSS.

ARQUIPÉLAGO GULAG,  de Aleksandr Soljenítsyn (tradução de Lucas Simone; Carambaia; 702 páginas; 139,90 reais ./.

Terminado o livro, em 1968, Soljenítsyn consegue esgueirá-lo para fora da URSS por intermédio do russo radicado em Paris Sacha Andrêiév, neto do escritor Leonid Andrêiév (1871-1919), então de passagem por Moscou numa missão da Unesco. Quando a KGB, no encalço de uma das ajudantes de Soljenítsyn, se apodera de um manuscrito da obra, o escritor dá o aval para a publicação estrangeira de Arquipélago Gulag: “Com aperto no coração, eu abdiquei durante anos de publicar este livro já pronto: o dever perante os ainda vivos prevaleceu sobre o dever perante os mortos. Mas agora que, de qualquer maneira, a Segurança do Estado capturou o livro, não me resta mais nada a não ser publicá-lo imediatamente”.

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Em consequência do retumbante sucesso da obra pelo mundo afora e dada a propaganda antissoviética amplamente disseminada pelos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria, a alta cúpula do Politburo solicitou à Direção-Geral de Proteção dos Segredos de Estado na Imprensa, no início de 1974, a proibição de todas as obras de Soljenítsyn publicadas no país. Decorreram daí a cassação da cidadania soviética do escritor, sob a acusação de traição à pátria, e sua expulsão sumária da União Soviética — que só teria fim com o colapso do gigante comunista, no início dos anos 1990.

No panorama atual de revivescência de tendências e práticas autoritárias, e de rupturas com as instituições da democracia liberal em diversos países, a nova edição do Arquipélago Gulag desponta como um importante alerta contra a opressão. Que as violações dos direitos humanos que levavam brutamontes a revirar fraldas de bebês em busca de (supostas) provas e a coagir prisioneiros inocentes a trabalhar a 40 graus negativos façam reverberar um sábio provérbio russo citado por Soljenítsyn: “Aquele que recorda o passado perde um olho. Aquele que o esquece perde os dois”.

Publicado em VEJA de 18 de dezembro de 2019, edição nº 2665

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Nova edição do livro Arquipélago Gulag, de Aleksandr Soljenítsyn

Livro sobre a história da Rússia

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