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Al Pacino em dose dupla (e boa forma) em Veneza

O ator faz homens solitários em 'Manglehorn', de David Gordon Green, em competição, e 'The Humbling', de Barry Levinson

Al Pacino tem aparecido no cinema com moderação, com uma média de um filme por ano – o último, Salomé, dirigido por ele próprio, passou no Festival de Veneza de 2011 e estreou nos EUA em 2013. Mas o ator de O Poderoso Chefão surge em dose dupla no 71º Festival de Veneza, com Manglehorn, de David Gordon Green, que concorre ao Leão de Ouro, e The Humbling (A Humilhação, na tradução livre), de Barry Levinson, exibido fora de competição. Ambos falam de solidão e envelhecimento.

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The Humbling, que teve sessão de imprensa na noite da sexta-feira, é baseado no romance A Humilhação, de Philip Roth, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Pacino interpreta Simon Axler, um ator de sucesso que descobre não conseguir mais atuar. Depois de se jogar do palco, ele se interna numa clínica psiquiátrica. De volta a sua casa, recebe a visita de Pegeen (Greta Gerwig), filha de um casal de antigos amigos – isolado, Simon não tem família nem amigos atualmente. Lésbica, ela dá em cima de Simon descaradamente, declarando-se obcecada por seu ídolo desde a infância. Os dois começam a ter um caso, enquanto o protagonista cada vez dá mais mostras de não conseguir separar a sua realidade dos seus personagens. O tom de The Humbling, dirigido por Barry Levinson, é de comédia. Exemplo: Pegeen estava se relacionando com a reitora da universidade onde dá aulas e também teve uma namorada que virou homem. Com passagens de puro pastelão, outras mais dramáticas e também representação de cenas de peças shakespearianas no palco, o filme dá bastante espaço para Al Pacino brilhar, quase como antigamente. O longa tem algumas semelhanças com Birdman, de Alejandro González Iñárritu, curiosamente. Há uma cena em que o ator também fica preso para fora do teatro e, quando volta, não é reconhecido pelos funcionários da peça.

Em Manglehorn, de David Gordon Green, exibido em sessão de imprensa na manhã deste sábado, Pacino também é um homem que está envelhecendo solitariamente. A.G. Manglehorn, que trabalha como chaveiro, é amargo e explosivo. Vive afastado do único filho, Jacob (Chris Messina), que ganha muito dinheiro no mercado financeiro. Todo encontro dos dois termina em briga. Manglehorn alimenta uma obsessão por Clara, a mulher que deixou escapar 40 anos atrás. Toda semana, ele escreve-lhe uma carta, jamais respondida. Preso ao passado e ao mesmo tempo a um futuro nunca realizado, o personagem é incapaz de enxergar o presente. É um papel bastante rico, mas Gordon Green carrega um pouco o filme de imagens e sons sobrepostos pouco necessários.

Mas Manglehorn, ainda assim, é mais um bom filme desta competição de Veneza, que apresentou até agora obras de qualidade. Uma exceção é 3 Coeurs (Três Corações, na tradução livre), também exibido para jornalistas na manhã do sábado, que vale pelo elenco forte – Catherine Deneuve como a mãe de Charlotte Gainsbourg e Chiara Mastroianni e sogra de Benoit Poelvoorde (que também está em La Rançon de la Gloire, de Xavier Beauvois, também em competição). Tirando isso, é um melodrama digno de telenovela em que Marc (Poelvoorde), de passagem por Lyon, conhece Sylvie (Gainsbourg). Passam a noite perambulando e marcam um encontro em Paris, sem trocar nomes ou telefones – claramente nenhum dos dois viu Antes do Amanhecer, de Richard Linklater. Mas ele tem um ataque do coração (sério!) e chega atrasado. A moça então parte para os Estados Unidos com o namorado. De volta a Lyon, Marc conhece Sophie (Mastroianni), a irmã de Sylvie. Logo no começo do relacionamento descobre a relação entre as duas, mas não fala nada – porque senão não teria filme. O comportamento seria aceitável caso fossem adolescentes, mas não faz muito sentido quando se trata de pessoas acima dos 40.