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‘A Vida e os Imperadores’: Roma de cima a baixo

Uma mostra excepcional em Belo Horizonte celebra o apogeu do império dos césares. Mas a sua maior virtude é desvendar a vida dos cidadãos comuns

No fim do século II, o casamento do imperador Sétimo Severo com uma estrangeira mexeu com a cabeça das romanas. Literalmente: das ricaças às plebeias, a mulherada logo aderiu à peruca oriental com gomos frisados – versão d’antanho dos dreadlocks modernos – ostentada pela poderosa Lúcia Domna. Oriunda do que hoje é a Síria, ela difundiu em Roma ainda outra tendência exótica: o culto a Baal, divindade que se confundia com o Sol. Na história do império dos césares, essas curiosidades não constituem mais do que notas de rodapé. Mas é possível extrair algo precioso delas: uma perspectiva dos hábitos de seus cidadãos comuns. A influência de Lúcia Domna sobre os súditos, antecipando aquela exercida pelas celebridades atuais sobre as massas, é atestada por uma cabeça de mármore que retrata uma mulher anônima com peruca igual à dela. Eis um dos itens da excepcional mostra Roma – A Vida e os Imperadores, que entra em cartaz nesta quarta-feira no Museu de Arte de São Paulo (Masp), depois de passar pela Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte. Antes dela, viram-se no país, no máximo, acervos que iluminavam aspectos pontuais da civilização romana. Composta de 370 relíquias de instituições como o Museu Nacional Romano e a Galeria Uffizi, em Florença, a nova exposição fornece um painel abrangente, capaz de satisfazer o apetite do público a respeito dos imperadores, seus feitos militares e os deuses clássicos. Como fica explícito na ordem de fatores do título, contudo, sua maior qualidade é desvendar a vida cotidiana dos romanos.

Apesar da distância dos séculos, a Roma antiga continua muito presente hoje. Os romanos inventaram o Direito, forjaram as instituições políticas e administrativas do Ocidente e inauguraram práticas como a filantropia (além, claro, de tantas outras heranças óbvias, como as línguas neolatinas – entre as quais o português). Surgido no século anterior ao nascimento de Cristo, seu império dominou o mundo por mais de 700 anos. Sabe-se do valor de sua máquina de guerra na conquista de um território que ia da atual Inglaterra ao Afeganistão. Mas o que explica a capacidade de manter um domínio tão vasto por tanto tempo não é a força bruta. “Os romanos sabiam fazer com que os conquistados assimilassem sua cultura e seus mecanismos de governo. E obtinham, com o tempo, o consentimento e a colaboração da maioria deles”, diz o historiador Guido Clemente, professor da Universidade de Florença e curador da mostra.

Evento que abriu o Momento da Itália no Brasil, ciclo que até o meio deste ano traz ao país a pintura do barroco Caravaggio e do modernista De Chirico, a exposição usa o exemplo de Roma para examinar essa questão. No período de dois séculos conhecido como Pax Romana, iniciado com a ascensão de Otávio Augusto, o primeiro imperador, no ano de 27 a.C., deu-se a convivência entre diversos povos. Os romanos toleravam as cores locais e davam abertura para que suas elites participassem do jogo de poder. Prova da eficácia do sistema é que houve um imperador como Trajano (do qual há um busto magnífico na mostra), de origem espanhola. Ou, ainda, um líbio, como Sétimo Severo. Embora o politeísmo olímpico fosse a religião oficial, outras crenças eram permitidas e até “romanizadas”, como o culto à deusa egípcia Ísis (elas só incomodavam ao virar ameaça à ordem – caso, bem mais adiante, do cristianismo). Mas – e aí a experiência no período de apogeu imperial enfocado pela mostra serve de antídoto à empulhação esquerdista chamada de multiculturalismo – a chave para o equilíbrio era que esses povos se ajustassem aos valores e ao estilo de vida do império. “Eles tinham de se aceitar como romanos, apesar das culturas e línguas distintas”, diz José Eduardo de Lima Pereira, presidente da Casa Fiat.

O estilo de vida romano era ditado pelas cidades, cujas feições modernas foram também elas legadas pelo império. Tratava-se de uma realidade marcada por convenções rígidas. Aristocratas, militares, homens livres e escravos tinham de se moldar a seus lugares na hierarquia social. Perante a lei, os cativos nem sequer eram considerados gente: não passavam de “instrumentos com voz”. Mesmo nesse ambiente, contudo, a ascensão era possível. Se ganhassem dinheiro ou tivessem algum talento, os escravos podiam ter uma vida melhor que a de muitos homens livres e até comprar a alforria. A medicina, aliás, era exercida por eles: as famílias ricas possuíam um “instrumento com voz” para esse fim – o qual, por sua vez, cortava e costurava seus amos com instrumentos que deviam dar vontade é de gritar, como bisturis e agulhas de bronze. Usavam vinagre para a assepsia e ópio como anestésico – mas, como nem sempre ele funcionava, amarravam os pacientes durante as cirurgias.

Se há relíquias que revelam a vida de seus habitantes, é porque a arte em Roma não era privilégio dos césares. Ainda que sua atividade fosse tida como pouco nobre, isso não impedia os comerciantes de enriquecer e investir em arte. A exposição traz baixos-relevos que adornavam sarcófagos desses homens de negócios. O mais singelo deles, vindo da Galeria Uffizi, retrata uma loja de travesseiros, com o dono exibindo tecidos a um casal. Os pobres também tinham direito a túmulos decorados de forma digna, bancados por associações patrocinadas por gente de posses. Esse acesso aos meios artísticos permitiu que pessoas de todos os estratos – inclusive os escravos – tivessem a feição imortalizada num tipo de arte romana por excelência. Enquanto os gregos, séculos antes, haviam investido em estátuas e bustos idealizados, os romanos deram um passo além: imprimiram a essas obras traços realistas. À maneira da própria Roma, essas representações de crianças, velhos e casais ainda conservam seu esplendor.