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A última dama da era do rádio

Morre a cantora Angela Maria, aos 89 anos

Comemorando o centésimo show da turnê do álbum Angela à Vontade em Voz e Violão, a cantora Angela Maria havia decidido voltar ao estúdio em setembro, para gravar mais um disco acústico. Selecionou Azul da Cor do Mar, de Tim Maia, e Nossa Canção, de Luiz Ayrão, para o repertório. Dias antes da planejada gravação, deu entrada no Hospital Sancta Maggiore, em São Paulo, com infecção. No período de 34 dias acamada, sofreu dois AVCs. No sábado 29, calou-se a voz mais famosa da era de ouro da rádio no Brasil.

“O palco é a minha vida. Quero morrer cantando”, Angela Maria costumava dizer aos amigos que a incentivavam a sair de cena. Nem a saúde debilitada dos últimos anos pôde afastá-la de sua paixão. A cantora sofria de diabetes, doença que lhe trouxe sequelas severas: perdeu totalmente a visão do olho esquerdo e 80% da visão do direito. Amparada por ajudantes, subia aos palcos do Brasil com cabelo impecável, voz forte e aura de diva. Fez shows todos os meses deste ano — só em abril, foram nove apresentações —, até ser internada, no fim de agosto. Ao cabo de cada apresentação, fazia questão de receber os fãs para tirar fotos e dar autógrafos.

A cantora estourou no início dos anos 1950, no auge dos sambas-canções, com a dolorida interpretação de Não Tenho Você. Passou a rodar o país em aviões exclusivos para ela. Era seguida por legiões de fãs e desejada por homens de todas as classes. Foi em uma dessas ocasiões que Agnaldo Rayol, então com 13 anos e morando em Natal para acompanhar o pai em serviço na Marinha, a viu pela primeira vez. “Eu não tinha dinheiro para entrar no auditório da Rádio Poty, então subi em uma árvore para ver minha ‘ídola’ pela janela”, lembra. Anos mais tarde, na condição de amigos e admiradores mútuos, cantaram juntos inúmeras vezes.

Jamais deixaria de cantar e subir nos palcos.

Angela Maria (1929-2018)

Angela Maria, de 1,50 metro, foi uma das maiores artistas do Brasil, ao lado de Dalva de Oliveira e Emilinha Borba. Brilhou em programas das rádios Nacional, Mayrink e Tupi. Passou por ritmos como valsa, samba e bolero. Babalu e Ave Maria no Morro estão entre algumas de suas canções mais conhecidas. Getúlio Vargas deu-lhe o apelido que a acompanharia para sempre: “Você tem a voz doce como o sapoti”.

Nascida Abelim Maria da Cunha, em Conceição de Macabu, no interior do Rio, a garota nunca teve um brinquedo. Chegou a trabalhar como operária em uma fábrica de lâmpadas. Foi demitida por cantar durante o expediente e fazer com que o rendimento dos colegas diminuísse. Casou-se quatro vezes antes de encontrar o homem de sua vida, aos 50 anos — Daniel D’Angelo tinha apenas 18 anos, e viveu com a cantora até a morte dela. Angela sonhava em ser mãe. Não conseguiu pelos mé­todos naturais, então adotou quatro filhos. Adorava dar festas em sua casa paulistana. Ela mesma cozinhava (sua especialidade: feijoada). “Elis Regina e Agnaldo Rayol frequentaram o lugar”, lembra Thiago Marques Luiz, produtor dela nos últimos quinze anos.

Angela Maria morreu aos 89 anos. Na próxima semana sairá um CD inédito dela, registro de um show ao lado de Nelson Gonçalves, em 1978. Será o 129º álbum de uma carreira gloriosa.

Publicado em VEJA de 10 de outubro de 2018, edição nº 2603