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A tuiteira que ensina história da arte com memes

A mineira Ari Noert conquistou a internet ao chamar a Monalisa de “Kardashian das artes”

Por Maria Clara Vieira - Atualizado em 10 fev 2020, 12h10 - Publicado em 10 fev 2020, 11h40

Caravaggio, o famoso pintor barroco autor de obras icônicas como A Ceia em Emaús e Madona de Loreto, era um “pudim de ódio” que colecionou onze passagens pela polícia e, de quebra, um assassinato. Raffaelo Sanzi, afável e conquistador, era o “vira-lata caramelo” da Renascença, querido por todos – uma preferência de fazer inveja ao próprio Michelangelo, o autor mal-humorado da Capela Sistina cuja vida foi comparada a uma “pororoca de feelings”. Leonardo Da Vinci, por fim, é o pai da “Kardashian” das artes: a tela Monalisa, da qual todo mundo já ouviu falar, mas pouco realmente sabem por que é tão famosa.

Através de metáforas inusitadas e gírias típicas do internetês, a mineira Ari Noert, de 27 anos, conquistou uma legião de fãs no Twitter ao publicar sequências de posts (“fios”, para os não familiares) ensinando história da arte. Seu primeiro sucesso foi uma coletânea sobre a “rinha de pintores” entre Da Vinci e Michelangelo. “Tinha escrito antes alguns posts sobre o Leonardo e duas pessoas me pediram mais informações. Fiz a sequência sobre a briga entre os dois gênios despretensiosamente. Quando voltei para casa, o negócio tinha mais de 30 000 compartilhamentos e estava entre os assuntos mais comentados”, conta a Ari, que é natural de Juiz de Fora e trabalha como fotógrafa em São Paulo.

Ela é formada em psicologia e design gráfico, e tem planos de começar um mestrado em história da arte. O apreço pelo tema começou na infância por influência da mãe, que era pintora. “Cresci em um ateliê, com cheiro de tinta a óleo e vários livros sobre pintura em volta”, conta a mineira, que sofre da forma mais rara de daltonismo e tem dificuldade de enxergar tons de amarelo. Não por acaso seu pintor favorito é Raffaelo, versado no uso de variações de azul e vermelho. Durante a segunda graduação, retomou o contato com as biografias dos artistas e transformou em hobby. “Eu tinha o hábito de falar sobre eles do jeito mais acadêmico possível e ninguém aguentava. Até que conheci um professor que fazia analogias com o mundo moderno, sem pressupor que soubéssemos alguma coisa. Percebi que a maioria das pessoas que detesta história da arte acha que se trata de decoreba, como o dia que começou o Renascimento”, explica.

Daí surgiram os posts, recheados de memes do universo da internet. Ao invés de priorizar o ensino da técnica ou da filosofia por trás de cada artista, Ari privilegia curiosidades sórdidas dos bastidores da Renascença – todas, diga-se de passagem, devidamente registradas em livros de história. A procrastinação de Da Vinci, o temperamento de Michelangelo e o roubo da Monalisa, assim, ganharam as redes: foram compartilhados mais de 180 000 vezes. “A gente tem um tempero fofoqueiro e gosta de saber da vida das pessoas. Mas aprendemos que Da Vinci saiu do útero da mãe como gênio, ninguém fala dos fracassos”, conta.

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A divulgação de fatos relacionados às vidas pessoais dos pintores acabou por levantar, entre os seguidores de Ari, o debate sobre o “cancelamento” (para os não familiarizados, campanha na rede para deletar pessoas) de artistas consagrados por conta de sua má conduta. A mineira tem opinião formada sobre o assunto: “Caravaggio era violento e hoje em dia seus relacionamentos seriam entendidos como pedofilia. Mesmo assim, a arte dele é magnífica. Não tem sentido cancelar um cara que morreu há 400 anos”, defende a pesquisadora, que aplica outra régua aos contemporâneos. “Para mim, é diferente de passar a mão na cabeça do Woody Allen, que está vivo e ainda pode pedir desculpas”, diz Ari, em referência ao cineasta acusado de assédio sexual.

Apesar do sucesso, Ari não tem previsão para publicar novas “fofocas”. Como nem tudo é arte no implacável mundo das redes sociais, a mineira conta ter sido vítima de ataques violentos na rede  por usar tom informal, não ser graduada no assunto e até por causa do daltonismo. “Ainda há quem acredite que a arte precisa ser erudita. Reclamaram de eu ter comparado a Monalisa com o ‘lixo’ das Kardashians, por exemplo”, diz. Apesar das críticas, a fotógrafa coleciona mensagens de internautas que dizem ter voltado a se interessar pelo tema através das postagens. No fim das contas, a linguagem dos memes é, sim, capaz de traduzir o conhecimento.

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