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‘A música popular brasileira está perdida’, diz Mazzola

Responsável pela ascensão de estrelas da MPB, o produtor Marco Mazzola faz críticas à música atual e aposta no futuro digital

Produtor desde a década de 1970, o carioca Marco Mazzola, 68 anos, conheceu de perto quase todas as grandes figuras da MPB. Foi responsável pela produção de discos de Raul Seixas, Elis Regina, Vinícius de Moraes, Gilberto Gil, Ney Matogrosso e Caetano Veloso. Em pleno mundo analógico, em 2010, criou o primeiro prêmio de música digital do país – hoje transformado em um evento de três dias, a Digital Music Experience, que encerra sua quarta edição nesta quinta-feira, no Rio. Em entrevista a VEJA, Mazzola falou sobre as transformações no mercado e o futuro da música brasileira.

Quando o senhor percebeu que a música digital tinha vindo para ficar? Foi em 2007, quando as vendas de CDs começaram a declinar. A indústria vivia um momento de euforia e ainda demoraria muito a tomar consciência da mudança do mercado. As gravadoras continuaram oferecendo as mesmas mordomias de contratos astronômicos, carros para os diretores, cartão de crédito e não sei o quê. Levaram um susto quando boa parte dos 8 000 pontos de vendas de CDs no Brasil fechou, especialmente depois do surgimento do MP3. Também fui um dos primeiros a notar que havia um movimento na internet de artistas completamente desconhecidos, a quem as gravadoras não davam oportunidade. Um projeto que me chamou a atenção na época foi a parceria da Vivo com a Mallu Magalhães, uma artista 100% da internet. Fiquei curioso com o que havia por baixo dessa revolução e criei o prêmio de música digital. Queria descobrir quem estava bombando longe do universo que conhecíamos.

Houve resistência ao prêmio por parte das gravadoras? Muita. Para dar transparência à premiação, eu precisava de uma auditoria. As gravadoras tinham os números, mas não queriam ceder para não confirmar que o mercado digital estava em ascensão. Na véspera do prêmio, soube que elas apresentaram números oficiais de 600 mil downloads, quando na realidade as músicas baixadas legalmente já chegavam a 9 milhões. O prêmio acabou em 2017 porque, com as plataformas do streaming, basta um clique para descobrir quem são os mais ouvidos.

Antes do streaming, os resultados pegavam os artistas de surpresa? Totalmente. Na primeira edição do prêmio, em novembro de 2011, eu era produtor da Ivete Sangalo e ela estava na festa, concorrendo em duas categorias. Na hora H, quando a gente abriu os envelopes, os vencedores eram nomes inesperados e ela não ganhou nada. Foi uma tremenda saia justa. O choque foi tamanho que o Exaltasamba, vencedor de duas categorias, me procurou querendo saber o número de vendas dele e descobriu que podia estar ganhando muito mais dinheiro. A gravadora não ficou feliz.

Qual o futuro das gravadoras? Terão que se adaptar bastante. Antigamente elas investiam em catálogos de artistas contratados. Produziam todo o CD com dez ou doze músicas e tinham os direitos autorais de todas. Só que este modelo, além de muito caro, não funciona mais. Quantos artistas você conhece que têm mais de quatro sucessos em um mesmo álbum? Gravar dez faixas de uma tacada só hoje é loucura. O streaming entendeu esta mudança e, além de licenciar álbuns já gravados, passou a investir em hits próprios. A própria plataforma produz e distribui conteúdo – mais ou menos como a Netflix com suas séries autorais.

O streaming matou a produção de álbuns? Em parte, sim. Perde-se aquela coisa que eu adoro, de escolher a capa, folhear o encarte, guardar a caixinha. Mas o fato é que a geração millenial não tem paciência para ouvir uma introdução de 40 segundos, que dirá um CD inteiro. Se você não pega o cara de primeira, acabou. Vale mais a pena investir em um single de cada vez. Praticamente só se compra CD físico em shows.

Isso não alimenta a indústria do “artista de um hit só”? Sem dúvida. Lembro que na época do Rebolation, em plena DMX, pensei: “Pô, esses caras vão ganhar algum prêmio e vou ter que botar isso no palco”.  Não ganharam, graças a Deus. O lado bom é que o artista pode investir em uma música de cada vez, arriscando pouco. O projeto Cheque Mate, da Anitta, é um retrato bem sucedido desta nova lógica de produção adaptada ao público da atualidade. Foi uma estratégia brilhante de marketing. Coisa de quem tem faro para o que está acontecendo.

Pode destacar outros artistas com o mesmo “faro”? O Zeca Baleiro detesta aparecer na televisão, detesta tocar na rádio, mas faz um monte de shows lotados por ano, justamente porque sabe que é do que o público dele gosta. Lá fora, quem faz isso bem é a Taylor Swift. Celine Dion também. Além de talentosas, são artistas com uma visão empresarial da própria carreira. Espero que a tendência pegue.

O MPB está perdendo qualidade? Sim. A música brasileira está completamente perdida. Eu sei que é uma impressão nostálgica, mas se você pega uma letra antiga de um Caetano, um Chico, não tem nem comparação com o que corre por aí. Não se compara a essa onda de “gostosa”, “vou bater nela” e sei lá o que.

E por que isso está acontecendo? Olha, quando estou em casa, por mim, desligo a televisão. Os programas musicais da TV Globo que são líderes de audiência — The Voice, Superstar etc etc — só têm cópia. Dão dinheiro para a emissora, mas não formam ninguém. Criam um monte de covers. Me diz o último grande artista que saiu de um programa desses, além do Thiaguinho? A falta de conteúdo e criatividade está matando a música nacional.

O Rock in Rio vai mudar? Não tenho a menor dúvida. Se não houver renovação, vai ter problema. Os produtores ainda têm alguma desconfiança de quem nasceu na internet e não vendeu um zilhão de discos físicos, mas estão acordando. Você viu a paulada que o Roberto Medina tomou por não ter convidado a Anitta. Não esqueço de como fiquei abismado, no Rock in Rio do ano passado, com a aglomeração em um stand pequenininho do Itaú. Perguntei pro Medina se ele sabia quem era o tal do Pabllo Vittar e nenhum de nós tinha a menor ideia. E ele é o futuro. Vão vir muitos outros Pabllo Vittar por aí.