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A moral de cada dia

O autor da atual novela das 9 diz que público cansou de tramas pesadas, não foge a um bom debate sobre ética e se revela menos conservador do que se imagina

Por Marcelo Marthe - 26 out 2018, 07h00

Recentemente, o noveleiro João Emanuel Carneiro nutria sentimentos ambíguos: estava feliz, mas deprimido com a iminência de pôr um ponto-final em Segundo Sol, que termina em 9 de novembro. “Depois de meses, você fica sozinho sem seus personagens”, diz. A atual trama das 9 da Globo acabava de atingir 39 pontos, seu recorde de ibope em São Paulo, cumprindo o desafio de manter o público plugado na principal atração da TV brasileira em um período com a forte concorrência das eleições. Aos 48 anos, ele conta por que a celebração da classe C de seu sucesso Avenida Brasil (2012) deu lugar a uma momentosa discussão sobre escolhas morais. Na entrevista a seguir, Carneiro fala ainda sobre a controvérsia da falta de negros no elenco de Segundo Sol, que se passa na Bahia, e de seu desafio, como analfabeto digital assumido, de fazer novelas na era das redes sociais.

Conduzir a atração mais vista da televisão em meio a uma eleição tão polarizada implica algum desafio extra? Essa turbulência capaz de provocar até o fim de velhas amizades por causa de discussões sobre política é muito difícil. Ao mesmo tempo, há um lado positivo: o brasileiro acordou para a política. As pessoas estão tendo de pensar, de se colocar, de sair do armário e expressar opiniões. Isso é salutar. Penso muito sobre o papel do novelista nesse processo. Se a novela fizer com que as pessoas reflitam sobre o caráter dos personagens, de certa maneira estarei fazendo-as pensar também em moral e política.

Avenida Brasil captou a ascensão da classe C. Que país Segundo Sol retrata? São novelas com propostas diferentes para tempos diferentes. Segundo Sol tece comentários sobre a realidade do país, como no caso do dinheiro apreendido com Severo (a cena com o empreiteiro corrupto vivido por Odilon Wagner remetia às malas de dinheiro encontradas em imóvel do ex-ministro Geddel Vieira Lima). Mas, apesar das brincadeiras com a realidade, Segundo Sol é uma fantasia colorida, sensual, com certa picardia. A Regra do Jogo (2015), meu trabalho anterior, era muito colada ao lado escuro da realidade. É novela que me dá orgulho, mas que se revelou pesada para quem já vivia uma realidade tão difícil. Diziam que era como ligar a TV e ver uma continuação dos escândalos de corrupção que apareciam no Jornal Nacional. Talvez uma trama como aquela viesse a despertar rejeição até maior hoje, com as dificuldades imensas na vida das pessoas.

Mas investir em uma trama escapista em uma fase tão aguda do país não é fugir da raia? De modo algum. Um narrador de novela das 9 fala todo dia com 70 milhões de pessoas e tem uma responsabilidade enorme para com elas. Uma coisa em que concordo com o Silvio de Abreu (chefe da área de teledramaturgia da Globo) é que a novela deve trazer alegria para a vida das pessoas. Sei disso por experiência própria. Como filho único, tive uma infância muito solitária. Ver televisão me salvou. O escapismo não é necessariamente uma coisa ruim.

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O que mudou entre 1988, quando o Brasil parava para ver os desmandos e a corrupção da nação espelhados em Vale Tudo, e o momento atual? As novelas podem até voltar a ter aquele papel de botar o dedo na ferida. Mas não agora que as pessoas estão cheias de tanta desgraça nos telejornais, nas redes sociais. No entanto, mesmo que não fale das mazelas de forma literal, a novela não pode nem deve abdicar de seu poder de provocar reflexão nas pessoas. Não abro mão, sobretudo, de tratar da questão que julgo mais básica, a ética. No fundo, essa é a discussão que precisamos encarar em tudo na nossa vida. Até que ponto são toleráveis o erro, a mentira, a falta de ética na política ou no dia a dia?

“Depois de ver o Museu Nacional pegando fogo — aquele palácio que foi casa dos reis —, nada parece inimaginável. E olhe que eu já tinha achado a eleição do Trump quase uma distopia”

O brasileiro está mais rigoroso com os desvios éticos? As pessoas podem estar bravas com os políticos, mas, ao contrário do que muitos imaginam, o espectador tem um limite de tolerância alto com os malfeitos do dia a dia. Também nas novelas, posições radicalizadas criam torcidas. No caso da Zefa (empregada negra vivida por Claudia Di Moura), a votação está meio a meio. Quem fala a favor dela diz que foi por amor à família que Zefa deixou o filho negro que teve com o patrão ser criado como serviçal. Quem fala mal diz que ela é uma negra submissa e racista. Rosa (Leticia Colin) também divide as pessoas. Os espectadores não viram grande problema quando ela se prostituiu para superar uma vida difícil. Porém, ao esconder do namorado que o pai de seu filho era outro homem, foi hipercriticada. Isso é inaceitável para o público. Mas ela resgatou o apreço do povo. Vai se redimir.

Colegas seus como Silvio de Abreu e Aguinaldo Silva já disseram que está difícil, para os ficcionistas, competir com a realidade. Faz sentido? Realmente, está duro competir com a realidade. Depois de você ver o Museu Nacional pegando fogo — aquele palácio que foi a casa dos reis —, nada mais parece inimaginável. E olhe que eu já tinha achado a eleição do Donald Trump quase a consumação de uma distopia, um filme de ficção científica. Tem-se a sensação de que os eventos se sucedem numa velocidade muito maior do que antes. O ficcionista precisa correr atrás para não ficar obsoleto.

A cena que mostrou o personagem Remy (Vladimir Brichta) supostamente esfaqueado foi ao ar poucos dias depois do atentado contra o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL). Como surgiu a ideia? Foi pura coincidência. Mas fiquei um pouco perturbado com isso, confesso. Parece que fiz de propósito, porém a cena foi escrita bem antes do atentado. Com faca e tudo. Não teve nada a ver, mas a gente está falando de conjunções astrais aqui, não?

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Como assim? É como Jung (o psiquiatra suíço Carl Jung) fala do inconsciente coletivo. Sem querer, a gente acaba captando certas coisas no ar. O novelista tem de ter uma antena ligada ao mundo lá fora. E isso só ­aumenta sua responsabilidade. Por mais que eu escreva guiado por minhas ideias, a novela, no fim das contas, pertence ao espectador. As pessoas me cobram sobre os rumos da história. Outro dia, uma caixa de supermercado me falou: “Ah, por que Segundo Sol já vai terminar em novembro? Podia ir até janeiro”. Dá vontade de matar a pessoa que diz isso. Tenho de terminar essa novela em algum momento. O noveleiro luta para pôr sua novela no ar, e depois para sair do ar. Você quer que aquilo acabe um dia. Eles falam assim porque sentem como se a novela fosse deles.

O que explica essa ligação? Novela é como se fosse um serviço público. As pessoas nos cobram como se reclamassem de ter acabado a água encanada em casa. Acho engraçado quando o povo diz: “Mas que porcaria, a Luzia (mocinha vivida por Giovanna Antonelli) foi enganada de novo”. Como se a pessoa não tivesse outra opção na vida a não ser ver novela. Ela poderia fazer qualquer outra coisa: cozinhar, dar um passeio, navegar na internet. Quem escreve novela, ainda mais a do horário das 9, tem de ter a humildade de reconhecer que a está fazendo para os outros. Você entra nas casas, hospitais, até em presídios. É impressionante. Se penso muito nisso, fico paralisado. É um peso enorme.

Qual sua sensação ao escrever a reta final da novela? Sinto certo ódio, uma náusea de trabalhar tanto. São doze horas por dia, de domingo a domingo. Mais do que o trabalho, há a responsabilidade imensa envolvida. A novela é um bicho incontrolável. Como é feita num frenesi maluco, o que sai lá do meu subconsciente chega à casa de milhões de pessoas sem nenhum filtro. É um chupa-cabra da sua mente: por mais que alguém tente controlar ou filtrar o conteúdo de uma novela, no fundo é impossível ter qualquer tipo de controle sobre a história. Já me arrependi de muita coisa que escrevi. Você não tem tempo de pensar. Novela é esboço, não trabalho que tem segunda demão, como pintura de parede. Mesmo assim, quando a novela acaba, fica um vazio enorme.

Luzia (Giovanna Antonelli) foi criticada nas redes sociais por sua burrice. Na era da afirmação feminina, não é arriscado investir numa heroína tão descerebrada? Se fosse assim, não poderia haver Quincas Borba, personagem do Machado de Assis que era enganado. Nem Branca de Neve, que come a maçã depois de já ter sido enganada pela rainha. A internet propiciou um patrulhamento da profissão de novelista quase insuportável. É um trabalho desumano. Você apanha carregando um piano, não descansando na praia. Os haters da internet se promovem falando mal de mim. Adoro quando levam pito dos meus fãs.

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Segundo Sol trouxe um ex-ídolo do axé que passou anos vivendo sob outra identidade quando qualquer um em Salvador poderia desmascará-lo dando uma olhada no Google. Também houve um recado crucial deixado numa secretária eletrônica de telefone na era do WhatsApp. O senhor, pelo visto, continua um analfabeto digital assumido. Eu tenho fax ainda. Só faço cheque, não sei fazer transferência eletrônica. E fui provavelmente das últimas pessoas a entrar na internet no Rio de Janeiro. Mas tenho uma missão: neste mês, juro que vou conseguir finalmente entrar no Spotify. Para mim, o máximo como ser humano será botar uma música para tocar no meu celular com blue tools (sic: Carneiro quis dizer “Bluetooth”).

“Quem faz novela tem de ter a humildade de reconhecer que a escreve para os outros. Você entra nas casas, hospitais, até em presídios. Se penso nisso, fico paralisado. É um peso”

Sua novela foi acusada de não ter negros o suficiente para representar a Bahia. Depois disso, ganhou muitos personagens negros. Foi uma admissão de erro? Acho que sim. Reconheço que foi uma falha. Eu deveria ter sido mais atento à questão da representatividade racial, ainda mais se tratando de uma novela que se passa em Salvador, uma cidade de maioria negra tão evidente. Agora, escrever novela é um trabalho feito de cambulhada. É na urgência do momento. Então você comete erros. Simples assim. Ainda mais nesse caso, em que minha entrada no ar foi antecipada em vários meses e o elenco teve de ser escalado às pressas. A verdade é que praticamente não há testes para definir o grosso do elenco de uma novela. Só no ar a gente vai descobrir se os atores vão funcionar. É o talento brasileiro do improviso de escola de samba.

Segundo Sol tem um negro vítima de racismo que se revelou vilão e uma lésbica que sente atração por homem. O desafio à lógica da correção política é deliberado? Personagens negros, gays e de outras minorias não necessariamente têm de ser vestais ou exemplos de virtude. Senão, aí sim, você faz uma história preconceituosa. Se todo mundo que pertencer a uma minoria tiver de ser cordeirinho, não vai ter vida, não vai ter conflito, não será real.

A maré conservadora revelada nas eleições afeta as novelas? Não vejo mais conservadorismo. No fundo, o público de TV é como criança: se você encaminha a trama de forma palatável, ele está aberto a temas controversos. Mas no horário das 9, com toda a família diante da TV, pé na porta não dá. Tem de ter sensibilidade.

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Publicado em VEJA de 31 de outubro de 2018, edição nº 2606

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