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A hora certa de Rodrigo Santoro

Com mais de uma década de trabalho no cinema americano, ator agora começa a colher de fato os frutos de sua persistência

Com duas dezenas de trabalhos no exterior contabilizados e pelo menos outros seis para estrear entre 2015 e 2016, Rodrigo Santoro é, aos 39 anos, um veterano do cinema americano. Mas, nos seus doze anos de atividade fora do Brasil, sua carreira nunca esteve tão aquecida, variada e instigante quanto agora. Santoro interpreta um milionário argentino em Golpe Duplo, o primeiro acerto de Will Smith em um bom tempo, que acaba de entrar em cartaz no país. Vai ser Jesus em um remake de Ben-Hur assinado pelo russo Timur Bekmambetov, de O Procurado. Em The 33, faz Laurence Golborne, o ministro que coordenou o salvamento dos mineiros chilenos presos sob a terra em 2010. E já gravou o piloto de Westworld, uma série da HBO criada e produzida por Jonathan Nolan, irmão e colaborador do cineasta Christopher Nolan na trilogia Cavaleiro das Trevas e em Interestelar. A seguir, Santoro fala a VEJA sobre as maneiras em que sua trajetória fora do Brasil o surpreendeu ou o frustrou:

Você tem uma meia dúzia de projetos enfileirados, em fase de lançamento ou de produção. Pelo jeito, está chovendo na sua horta. Bom, em parte isso se deve ao fato de muitos desses projetos terem se acumulado. Golpe Duplo, que está sendo lançado agora, foi feito há algum tempo. Jane Got a Gun, um faroeste que deve sair aí por agosto ou setembro, eu rodei em 2013, mas ele foi adiado várias vezes – rolou uma confusão, a diretora (Lynne Ramsay, de Precisamos Falar Sobre o Kevin) abandonou o filme, foi uma loucura. Aí tem The 33, o filme sobre os chilenos que ficaram presos em uma mina, que foi filmado no começo de 2014 e já está quase finalizado. E finalmente tem Dominion, sobre o último dia de vida do Dylan Thomas, o poeta irlandês que bebeu até a morte. Esse trabalho foi um prêmio para mim. Faço um personagem meio misterioso, que serve de contraponto ao Thomas. O filme foi feito às pressas, numa correria, porque os recursos saíram de última hora, mas logo ele deve ir para o circuito de festivais.

E agora você também vai voltar à televisão americana, certo? Sim, já gravei o piloto da série Westworld, da HBO, que é inspirada na ficção científica Westworld – Onde Ninguém Tem Alma (de 1973, em que Yul Brynner interpretava um robô que, num parque temático do Velho Oeste, começava a matar os frequentadores). E “inspirada” é a palavra certa: sei que a série tem o mesmo conceito, mas vai divergir do filme em vários pontos. Ela tem um cunho mais filosófico. Acho que o criador, Jonathan Nolan (irmão e colaborador frequente do Christopher Nolan da trilogia Cavaleiro das Trevas), pretende usar a ambientação e o ponto de partida do filme para discutir questões bem atuais. E mais do que isso não sei – ou, o pouco que sei, estou contratualmente proibido de comentar. Estou muito empolgado. Eu não tinha muita familiaridade com esse universo das séries da TV a cabo, em que um único arco dramático é desenvolvido em dez ou treze episódios. Mas, quando recebi o convite, no ano passado, dei um mergulho e assisti a várias delas, para me informar melhor. E o fato é que as possibilidades desse tipo de formato são infinitas.

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Você vai, ainda, fazer o papel de Jesus no Ben-Hur do diretor russo Timur Bekmambetov, de O Procurado e Abraham Lincoln – Caçador de Vampiros. Conheci o Timur quando ele me fez o convite e gostei muito dele e da conversa que tivemos, acho que nos demos bem. Ele tem uma pegada muito visual, muito original, e uma visão bem diferente do Ben-Hur de 1925 e principalmente do de 1959, com o Charlton Heston, que é tão conhecido. O próprio Timur disse que não faria sentido simplesmente refilmar um clássico tão sensacional. É uma responsabilidade enorme interpretar Jesus, claro – pelas razões óbvias e porque tantos outros atores já o retrataram no cinema.

Ou seja, embora você tenha sempre tido trabalho fora do Brasil, parece que sua carreira está mesmo em um período de reaquecimento, não? Parece que sim! Só não quero dizer que estou em um momento melhor, ou que tudo está acontecendo, porque continuo nesse trabalho do dia a dia, de batalhar por oportunidades e plantar sementes para o futuro – já com um pouco mais de liberdade para escolher roteiros que me interessem, ou às vezes recebendo convites que não dependem de testes, como Ben-Hur, mas ainda assim na batalha. De qualquer maneira, tenho mesmo a sensação de que estou colhendo os frutos de escolhas ou trabalhos que fiz no passado. Mesmo os filmes que tiveram seu lançamento adiado e estão agora encavalando com os mais recentes contribuem para criar essa impressão, o que não é ruim, de jeito nenhum. Tenho pensado muito sobre a diferença entre construir uma carreira – no sentido de procurar projetos que deem visibilidade – e construir personagens que me preencham, e não há dúvida de que, hoje, o material com que vou trabalhar me interessa muito mais do que o resultado que ele possa ter.

Quando você começou a trabalhar fora do Brasil, no entanto, ainda não era possível fazer esse tipo de escolha, certo? O mercado mudou muito nestes últimos dez anos. Quando comecei a ganhar oportunidades de trabalhar fora, os meus personagens eram, nos roteiros, muito menores, mais esquemáticos e mais estereotipados – eram sempre “o latino”. Mas, de uma década para cá, vários outros fatores entraram em cena: a internet, a globalização, o crescimento da parcela internacional na bilheteria dos filmes americanos. O mercado se abriu muito, e a nacionalidade do ator hoje tem muito menos importância do que no passado. Nesse faroeste Jane Got a Gun, por exemplo, meu personagem se chama Fitchum e é de origem irlandesa; não ocorreu a ninguém mudar isso simplesmente porque o ator que interpreta Fitchum é brasileiro.

Olhando para trás e para as expectativas que você tinha no início, em que pontos os últimos anos surpreenderam você agradavelmente, e em que pontos deixaram a desejar? Desde o princípio encarei o trabalho no exterior como uma grande aventura, inclusive porque eu viajava, ficava um pouquinho fora, voltava. Essa porta se abriu em 2001, primeiro com Bicho de Sete Cabeças, da Laís Bodanzky, e depois com Abril Despedaçado, do Walter Salles, que foi comprado pela Miramax – então de repente me vi numa première, em Los Angeles, no tapete vermelho, sem entender o que eu estava fazendo ali mas gostando. Aí os agentes começaram a se aproximar e tudo parecia uma espécie de brincadeira, até porque os trabalhos vinham e eu os aceitava mas não me sentia minimamente preenchido por eles. Decidi encarar a experiência por curiosidade, pelo aprendizado. E, de repente, o trabalho em si começou a se tornar mais gratificante. Em 2008 fiz Che com Steven Soderbergh, e no mesmo ano Cinturão Vermelho com David Mamet. A partir daí, comecei a investir mais. Mas o fato é que ainda hoje procuro encarar esse processo da mesma maneira, como uma aventura. É claro que me dedico muito mais do que naquele princípio. O desafio sempre foi equilibrar o trabalho fora com a minha vida no Brasil: a família, os amigos, a vida afetiva, a rotina que eu adoro. Não falo isso por demagogia. É a pura verdade. Nunca fiquei mais do que dois meses e meio sem voltar ao Brasil. Mas é uma vida nômade. E essa é uma das coisas que me animam em um projeto como Westworld: em uma série, você sabe quando o trabalho começa e quando ele termina, o que torna muito mais fácil eu me organizar. Estou planejando uma peça de teatro no Brasil, e também alguma coisa em TV, com esses novos formatos que estão surgindo na televisão brasileira.

Como lidar com experiências frustrantes, como a da sua participação em Lost? Essa experiência teve dois lados para mim. Do ponto de vista pessoal ela foi incrível, porque morei durante um tempo no Havaí e surfei muito. Do ponto de vista profissional, ela foi mais curta do que eu imaginava que seria, porque o personagem não foi desenvolvido como se esperava. Eu tinha um contrato de seis meses e, quando propuseram renová-lo, não quis. Eu estava em fase de lançamento de 300, tinha minha vida no Brasil e não estava nos meus planos passar anos morando no Havaí. Mas acredito que é a maneira como você recebe, assimila, aceita e responde aos imprevistos da vida, aos altos e baixos dela, que determina a qualidade de uma experiência. Agora, por exemplo, quando chegou o convite para Westworld, eu estava muito mais informado sobre os pontos que é preciso esclarecer quando se entra numa série do que estava naquela ocasião. Sem aquela passagem por Lost, eu provavelmente não saberia o que perguntar hoje aos produtores e o que negociar com eles. E é preciso aceitar que a natureza desta profissão é a instabilidade: realisticamente, é impossível prever o que vai dar certo ou não, o que vai durar ou vai ser breve, o que vai ser gratificante ou frustrante.