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A genialidade de B.B. King, em poucos acordes

Aos 87 anos, o gênio do blues comove a platéia paulistana em uma hora e meia de um show perfeito

De volta após dois anos de seu último show no Brasil, o lendário guitarrista americano B.B. King mostrou porque segue fazendo cerca de 100 apresentações por ano, mesmo aos 87 anos. Em seu primeiro show, de uma série de três que ele faz em São Paulo, o músico tocou por um curto período de tempo (pouco menos de 1h30, com várias pausas e brincadeiras no meio), mas não precisou de mais do que isso para justiticar o título de gênio do blues e deixar toda a plateia comovida.

Com a Via Funchal lotada e ingressos disputados na frente da bilheteria, o show começou com cerca de 10 minutos de atraso. Primeiro, sem King, para que os músicos de sua banda pudessem fazer uma boa introdução para a estrela da noite em uma longa jam session – e, por que não, para terem eles mesmos um pouco de destaque. Afinal, quando King é levado ao palco, lá pelo meio do segundo tema, ganha a plateia em questão de segundos.

Bem velhinho, com certa dificuldade de locomoção, ele segue até uma cadeira no centro do palco com ajuda. Mas, quando senta e toma em mãos uma de suas famosas Gibson pretas — carinhosamente chamadas por ele de Lucille há mais de 60 anos –, King não precisa fazer esforço para explicar porque ganhou o apelido “rei do blues”. Com apenas alguns acordes, o músico mostra que ainda tem a técnica e o timing que o consagraram e que são capazes de tocar no fundo da alma.

Antes de começar a tocar, King puxa o microfone para dizer suas primeiras palavras. “Obrigado”, diz, em português. “Essa é a única palavra que eu sei”, afirma, rindo. E então começa a apresentar sua banda. Ganha destaque o sax tenor Walter Riley, seu sobrinho, cuja semelhança física com King é surpreendente. Ele faz graça ao apresentar o parente: “Como é mesmo o seu nome, filho?”. E, então, quer saber da plateia como se diz “sobrinho” em português. Depois, repete para saber se acertou, e dá risada, puro bom humor. “Todos esses caras são meus amigos. Quer dizer, pelo menos eu acho que eles são”, brinca, dando início à primeira música de verdade da noite, I Need You So.

Vieram ainda, em execuções bem demoradas, Everyday I Have The Blues — que teve espaço para um longo solo de bateria — e Key to the Highway.

Durante o show, King interrompe os versos tradicionais das músicas para resmungar coisas quase inaudíveis com a plateia. Sempre brincalhão, finge cobiçar as comidas e bebidas dos fãs. “Estou vendo aí que você tem um baldinho com gelo e várias cervejas gostosas”, diz a uma mesa. “E isso daí, é um Johnnie Walker? Nada mal…”, brinca, com outra. Mas, apesar de comentar sobre as bebidas alcoolicas, King só toma mesmo água durante o show, que ele vira de um copo em um gole só.

Depois, King colocou a plateia para cantar junto e bater palmas com You Are My Sunshine (“You make me happy/When skies are grey/You’ll never know, dear/How much I love you/So please don’t take/My sunshine away”), e se mostrou satisfeito com o resultado, ajudando com as palmas. Em outra de suas brincadeiras, pediu aos casais que se beijassem. “Você se deu bem, hein?”, disse, olhando para um casal no gargarejo. “E você, por que não beijou ela?”, pergunta a um rapaz. “Me beija, B.B.!”, grita uma moça no fundo da plateia. E ele sorri, feliz da vida, agradecendo de braços abertos.

No auge do show vieram Rock Me Baby e a tristíssima The Thrill is Gone — a melhor da noite — e ainda teve espaço para um snippet de When Love Comes to Town, que ele compôs com a banda U2 em 1989. O show foi encerrado com When The Saints Go Marching In. “É isso, pessoal. Acabou. Posso voltar?”, pergunta. Claro que pode, B.B., ouve em resposta. E ainda fica um tempo atendendo a pedidos de autógrafos.