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‘A Garota Dinamarquesa’, sobre primeira mulher trans, é um retrato das dores do casamento

Filme traz Eddie Redmayne, indicado ao Oscar de melhor ator, na pele de Lili Elbe, primeira transexual submetida a cirurgia de mudança de sexo no mundo

Por Vivian Carrer Elias - 11 fev 2016, 13h42

Existem muitas formas de contar uma história como a de Lili Elbe, provavelmente a primeira transexual a submeter-se a uma cirurgia de mudança de sexo no mundo, em 1931. Certamente a sua transição teve importante impacto na sociedade e época em que vivia – e até mesmo em outros cantos do globo e durante as décadas seguintes. No entanto, o filme A Garota Dinamarquesa, dirigido por Tom Hooper (O Discurso do Rei) e inspirado no livro homônimo de David Ebershoff, tem um foco diferente, e muito mais intimista. O longa explora a relação de Einar (Eddie Redmayne) – que assume-se como Lili ao longo da história – e Gerda (Alicia Vikander). O resultado é sensível e delicado, embora seja mais o retrato de um casamento do que da vida de Lili em si. O que não é ruim, mas pode desapontar aqueles que desejam aprofundar-se no íntimo da protagonista.

Inicialmente, o filme, que estreia no Brasil nesta quinta-feira, apresenta ao público o casal de dinamarquesas Einar e Gerda Wegener, que vivem em Copenhague na década de 1920. Ambos são pintores, mas passam por fases distintas de suas carreiras: ele é um artista prestigiado em seu país e encontrou sucesso ao pintar diferentes versões da mesma paisagem, inspirada no local onde passou a sua infância. Ela, por outro lado, cria apenas retratos e enfrenta dificuldade de ser reconhecida no meio artístico. Na intimidade, parecem felizes. São amorosos um com o outro e, como bons artistas, compartilham um espírito livre e mais moderno do que o do restante da sociedade.

Certo dia, Gerda precisa terminar o retrato da bailarina e amiga Ulla (Amber Heard), que se atrasa para a sessão. A pintora convence seu marido a posar para ela vestindo sapatilhas de ballet. A princípio relutante, Einar é visivelmente arrebatado pela experiência e mergulha em um processo irreversível de autoconhecimento. A primeira vez em que ele se veste como mulher em público é encarada por Gerda como uma brincadeira, uma forma divertida de fazer com que o seu marido fosse a uma festa sem ser reconhecido. Para o pintor, no entanto, a situação revela a verdade sobre a sua essência e torna cada vez mais impossível viver sob a identidade de um homem.

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O impacto desse processo em Gerda é explorado de forma extremamente sensível no filme de Tom Hooper. A princípio, ela encara tudo como uma brincadeira, embora algumas vezes pareça provocar o marido para desvendar o íntimo dele. Isso fica claro em cenas como aquela em que Einar elogia a camisola da mulher, que diz: “Talvez eu te deixe você usá-la”, ao que ele responde: “Talvez eu goste”. A verdade é que a pintora tem um amor incondicional pelo companheiro, e o expressa de formas diferentes ao longo da história. Em alguns momentos, nega a situação para não o ver desaparecer diante de seus olhos e, em outros, é surpreendentemente compreensiva. A transição de Einar acaba tendo outra influência na vida de Gerda. A artista se sente inspirada por Lili, passa a pintar retratos dela e, com eles, finalmente encontra reconhecimento no meio artístico.

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Com uma ótica tão intimista e um elenco enxuto, A Garota Dinamarquesa depende muito de seus atores principais. A atuação de Eddie Redmayne, vencedor do Oscar de melhor ator em 2015 por Teoria de Tudo, porém, foi vista por boa parte da crítica internacional como um dos problemas do filme. Jornais como The Guardian e The New York Times consideram que a transição da protagonista foi muito demonstrada a partir de sua linguagem corporal. Ou seja, a mudança na forma como a personagem sorria e se movia. Justiça seja feita, é uma tarefa difícil e o ator britânico a cumpriu com elegância – não à toa, foi indicado novamente pela Academia de Hollywood em 2016. Porém, a abordagem priva o público de ter acesso às emoções e pensamentos de Lili.

O roteiro do filme e a brilhante atuação de Alicia Vikander, também indicada ao Oscar deste ano na categoria de atriz coadjuvante, acabam destacando Gerda como ponto importante da história. E, no fim, tão interessante quanto a transição da protagonista é a forma como a esposa lida com a situação. Por isso, não é difícil enxergar uma heroína tanto em Lili quanto em Gerda. Assim, A Garota Dinamarquesa, sem subestimar a extraordinária história de Lili Elbe, pode ser classificado como um belo retrato das dores do casamento e do amor incondicional.

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