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‘A Garota da Moto’ sai do ar, mas acelera para segunda temporada

Com a série, o SBT introduz uma mocinha 'empoderada' no horário nobre. A receita do sucesso inclui ação, melodrama — e dindim do contribuinte

Desde que declarou independência dos pais, há dez anos, a atriz Chris Ubach se vira nos trinta. “Mudei minha visão sobre a condição feminina. Em um país machista, mulher sozinha tem de pensar até na defesa pessoal”, diz a carioca de 29 anos. A julgar por seu desempenho como Joana, heroína da série A Garota da Moto, marmanjos do mal devem pensar duas vezes antes de mexer com a mocinha de olhos azuis. Jovem mãe solteira, Joana se muda do Rio para São Paulo em fuga da ricaça psicopata casada com o pai de seu filho. Nas ruas paulistanas, vira motogirl (sim, versão feminina do motoboy). E duríssima na queda: Joana se vale das artes marciais para nocautear os capangas a serviço da vilã Bernarda (Daniela Escobar). “Os motoboys estão se sentindo super-representados”, diz a atriz.

A Garota da Moto é dessas surpresas que o SBT de Silvio Santos tira de vez em quando da cartola para reafirmar os fundamentos da TV popular. Parceria com a produtora Mixer e o canal Fox Life, a série exibirá nesta quarta-feira o último de seus 26 capítulos na condição de novo fenômeno da emissora. Com 11 pontos no Ibope em São Paulo, a motoqueira virou algoz da rival Record. “Haverá uma segunda temporada”, conta Fernando Pelegio, diretor artístico do SBT.

Além de bem-sucedida, a série é uma pechincha: do orçamento de 9 milhões de reais, 3 milhões foram recursos do Fundo Setorial do Audiovisual. Embora o valor total pareça alto, o SBT divide o custo de 350 000 reais por capítulo com seus parceiros. O efeito da economia é visível nos detalhes. Diálogos e atuações padecem de certa dureza no gingado. As coreografias marciais lembram filme dos Trapalhões. Ainda assim, A Garota da Moto funciona. Como as novelinhas infantis do SBT, caiu nas graças das crianças às avós da classe C. Tempera ação e suspense com um embate arroz com feijão entre mocinha e vilã. “Joana é uma Branca de Neve moderna”, diz Pelegio. Há núcleos cômicos, como a agência em que a heroína trabalha, a Motópolis. “Foi certeiro incluir na série coisas que dialogam com as novelas”, afirma João Daniel Tikhomiroff, da Mixer.

Altas considerações intelectuais, enfim, só da intérprete da motogirl. Chris é psicóloga, com predileção pela linha lacaniana, e se lançará escritora. “Meu livro será uma conversa entre uma mulher e ela mesma.” Meses atrás, deu um tempo na literatura para fazer aulas de moto e kung fu. Ao falar de sua personagem, mescla o discurso do “empoderamento feminino” a uma análise na melhor escola SBT de sociologia: “Como milhões de brasileiras, ela é uma batalhadora”.

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