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A eletrônica ‘cabeça’ do Maximum Hedrum

Conheça o novo – e excelente – projeto de Derrick Green, vocalista do Sepultura, com o produtor americano Sam Spiegel, famoso pelo projeto N.A.S.A.

O isolamento provocado pela internet é mote do projeto de música eletrônica Maximum Hedrum, que, apesar do nome e de ser formado por “gringos”, tem tudo a ver com o Brasil. Tudo começou quando os músicos Derrick Green (vocalista da banda brasileira de heavy metal Sepultura) e Sam Spiegel (criador do projeto N.A.S.A., em parceria com o DJ brasileiro Zegon, ex-Planet Hemp), amigos de longa data, decidiram se juntar para fazer algo completamente diferente de tudo em que já haviam trabalhado. Spiegel queria fazer um trabalho mais aprofundado, conceitual, e Green, mostrar que podia cantar de outras maneiras que não os gritos guturais que o tornaram famoso. À mistura, se juntou o produtor alemão Harold Faltermeyer, ganhador de dois Grammy. E os resultados são ótimos.

Entre a música eletrônica produzida hoje, poucas têm letras de conteúdo significativo. Nesse cenário, grupos com projetos conceituais ou que expressem sentimentos e reflexões são raros. Mas o Maximum Hedrum arrisca e não passa nem perto de soar cafona. Spiegel conta que a ideia para o projeto nasceu de estudos seus da obra do escritor futurista Ray Kurzweil, hoje um diretor de engenharia do Google. “Ele me fez pensar em como usamos a tecnologia para nos isolar. Estamos mais conectados do que nunca, mas menos íntimos”, diz o músico. A reflexão fez com que Spiegel escrevesse letras sobre temas que giram em torno da solidão, como falta de sexo e amor, criando um resultado muito interessante. Todas elas cantadas por Green de formas diferentes do trabalho no Sepultura – em algumas, com voz de barítono, e outras, falsetes. Há ainda uma colaboração do lendário músico George Clinton (Parliament-Funkadelic), em Keep In Touch.

O grupo lança seu primeiro disco no dia 19 de março e já planeja turnê mundial para divulgar o trabalho – o giro inclui, claro, o Brasil, por onde eles passarão em abril para fazer shows. Em alguns vídeos que já circulam na internet, é possível ouvir algumas das músicas do Maximum Hedrum — um deles, tirado do documentário sobre skate Pretty Sweet, dirigido pelo irmão de Spiegel, o cineasta Spike Jonze (Quero Ser John Malkovich, Onde Vivem os Monstros).

Spiegel e Green falaram ao site de VEJA sobre o projeto.

Qual o significado do nome Maximum Hedrum? Sam Spiegel: Tem um significado triplo. Pode ser uma técnica de gravação, mas também tem a ver com o significado desse disco para mim. O álbum que gravei como N.A.S.A. era sobre o espaço sideral, o que vinha de fora, e esse é sobre o nosso espaço interior. Enquanto com o N.A.S.A. nós queríamos fazer muitas colaborações com outras pessoas, esse projeto foi mais sobre entrar nas nossas próprias mentes, por isso, evitamos fazer músicas com outros artistas. A tecnologia nos tornou muito isolados das outras pessoas, nos fez mais introvertidos, de uma forma que não costumávamos ser. Então, nesse sentido, quer dizer estar dentro da sua própria cabeça. Eu sempre fui obcecado com um personagem ficcional de inteligência artificial chamado Max Headroom, então nós queríamos que fosse inspirado nisso também. Primeiro, pensamos em fazer todos os vocais robotizados, mas deixamos de lado essa ideia depois.

Derrick sempre quis cantar de um jeito diferente? Derrick Green: As pessoas sempre me convidam para outros projetos, mas querem que eu cante do jeito que canto no Sepultura, e para mim isso não é tão interessante quanto o que nós estamos fazendo agora. Eu queria mostrar esse lado da minha voz, era um desafio tentar algo diferente. Eu estudei canto quando era mais novo e sabia que podia cantar de outros jeitos. Eu nunca me interessei muito por música eletrônica. Cheguei a trabalhar em um clube noturno quando era mais jovem, conhecia as coisas dos anos 80 e 90, mas eu não conhecia as coisas novas. Mas eu gosto de ouvir todos os tipos de música. E eu queria expandir a área da música que eu faço.

Sobre o que falam as letras? Sam Spiegel: Falam sobre muitas coisas, mas especialmente sobre sexualidade e solidão. A falta de sexo, a solidão, começamos por aí. A sensação de querer estar perto de outras pessoas. E falam muito sobre amor também.

No que vocês se inspiraram para compor? Sam Spiegel: Eu comecei a me interessar muito pelo (escritor americano) Ray Kurzweil, um “futurista”. Ele previu como a tecnologia e os computadores iriam afetar a humanidade. Essa foi uma grande influência para o como eu passei a olhar para o mundo e para a tecnologia, mudou a forma como eu pensava sobre tudo. E isso me fez pensar no como estamos usando a tecnologia para nos isolar. Nós estamos mais conectados do que nunca, mas menos íntimos.