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‘À Beira do Caminho’ faz retrato emocionante da perda com músicas de Roberto Carlos

Novo longa de Breno Silveira, diretor do blockbuster '2 Filhos de Francisco', fala sobre encontros e desencontros e sobre a dor de lidar com a morte

Para o diretor Breno Silveira, seu novo filme, À Beira do Caminho, é uma frase de para-choque de caminhão. “Dependendo do seu estado emocional, você pode ler e fazer todo o sentido. No entanto, é uma sabedoria popular boba”, diz, com modéstia. Silveira conhece bem o filme que fez, de uma forma até mais íntima do que gostaria (leia abaixo). O longa, terceiro do cineasta brasileiro que estreou na telona com 2 Filhos de Francisco (2005), uma das maiores bilheterias da retomada do cinema nacional, entra em cartaz nesta sexta-feira.

A analogia com as frases de para-choque de caminhão está no contexto do filme, que conta a história de João (João Miguel), um caminhoneiro que vive à sombra de uma tragédia familiar. Sua mulher, Helena (Ludmila Rosa), morreu há alguns anos, uma perda que ele ainda não superou. Para piorar a situação, João acredita que carrega uma parcela de culpa pela morte de Helena, e decide viver isolado do convívio com os familiares, inclusive da filha a quem a mulher deu à luz antes de morrer.

A chegada do garotinho Duda (vivido pelo espetacular Vinícius Nascimento, de 13 anos), que se esconde no caminhão de João para pegar carona, é o ponto de virada da história. Após a morte da mãe, o menino sai em busca do pai que nunca conheceu, mas a única pista que tem é uma foto e um endereço em São Paulo. Sem saber exatamente o que fazer com o garoto, e após algumas tentativas frustradas de entregá-lo para a polícia, João decide levá-lo para São Paulo. Durante a viagem, cresce uma amizade entre os dois, que será a redenção do caminhoneiro. É a partir daí que ele criará coragem para retomar contato com uma ex-namorada, Rosa (Dira Paes), pela qual ainda é apaixonado. E para retomar a vida.

Assim como 2 Filhos de Francisco, À Beira do Caminho começou com um argumento musical. “Eu nunca mais vou conseguir fazer filme sem música. Tenho a sensação de que, se eu fosse recomeçar do zero, viraria músico”, brinca Silveira, que iniciou carreira dirigindo videoclipes. O argumento, aliás, se tornou fio condutor: o longa é contado por meio de canções de Roberto Carlos, ideia dada ao cineasta pela jornalista Léa Penteado, autora do livro Um Show em Jerusalém – O Rei na Terra Santa. “Para mim, o filme é uma canção do Roberto. Apesar de ser uma história simples, a forma como ela é contada é tão real que não tem como não emocionar”, diz o diretor, agora menos modesto. Ele desfila quatro canções certeiras do cantor capixaba no filme: Distância, Amigo, Outra Vez e O Portão, além de versões para Nossa Canção e Esqueça, feitas por Vanessa da Mata e Nina Becker. Uma escolha perfeita. “Roberto tem o poder de entrar do jeito mais secreto na vida das pessoas”, resume o protagonista, João Miguel.

Para o diretor, a única música que ficou faltando no filme é De Tanto Amor, que Roberto vetou. “É uma dessas canções que ele não libera de jeito nenhum. Mas tem que respeitar a emoção dele”, diz Silveira. Segundo ele, Roberto Carlos só aprovou as músicas que seriam usadas no filme quando o longa já estava pronto, e gostou do resultado. “Ele me recebeu no estúdio dele na Urca, e eu estava muito nervoso, quase pedindo pelo amor de Deus para ele ver o filme. Acho que ele percebeu, e disse logo de cara que tinha adorado 2 Filhos de Francisco. Daí pude respirar. Quando ele liberou as músicas, fiquei tão feliz que tomei um porre.”

Silveira já transformou a ideia de usar música para emocionar em sua principal marca. “Eu tenho uma ligação com filmes que emocionam. Criou-se uma coisa louca das pessoas terem vergonha da emoção, mas ela está aí para ser sentida. Eu jamais conseguiria fazer um filme de comédia ou um thriller. Eu sequer vou ao cinema para ver esse tipo de coisa. Acho que nunca vi um Batman na vida”, diz o diretor.

Ator-mirim – Depois da história emocionante, o destaque de À Beira do Caminho é Vinícius Nascimento, que apesar de ter apenas 13 anos já está em seu sexto filme – ele começou a carreira aos sete, quando a diretora Monique Gardenberg o viu brincar na rua, em Salvador, e o chamou para fazer o longa Ó Pai, Ó. Com o novo filme, ele obteve o maior reconhecimento de sua carreira até agora: venceu o prêmio de ator coadjuvante do festival Cine PE, em maio deste ano. “Isso é bom”, diz, com um sorriso de satisfação. “Todo menino pensa que vai ser médico, policial ou bombeiro, e eu pensava essas coisas, também. Mas, depois que vi o que era o cinema, quero continuar”, diz Nascimento.

A interpretação do garoto no filme chama atenção por ter a dose exata de emoção, sem exagerar. “O filme não é piegas, e tinha tudo para ser. O trabalho desse menino não é de criança, é de ator. Os tempos e os olhares dele são precisos”, diz Dira Paes, só elogios ao trabalho do colega. Para transmitir as emoções necessárias, o menino contou com sua experiência pessoal. De família humilde, foi criado pela mãe, sem pai. “Nem o considero como pai, não me refiro a ele pelo nome”, diz. “Para entender o que o personagem está passando, tem que se imaginar no lugar dele, e pegar toda a tristeza que você passou na vida, o que te emociona, e colocar na cena. Fiz o que qualquer um faria se fosse ele.”

Projeto pessoal – Se quando Breno Silveira começou a gravar À Beira do Caminho o longa já tinha um viés intimista, tornou-se ainda mais pessoal após uma infeliz coincidência. Pouco antes do fim das filmagens, o diretor perdeu a mulher, Renata, vítima de câncer. “Para mim, é difícil assistir ao filme. Eu fico mal até hoje, porque me senti muito ‘João’ nesse processo todo”, afirma o diretor, comparando-se ao personagem principal do longa. Por causa do choque, Silveira não conseguiu montar o filme, atrasando o lançamento em pouco mais de um ano. “A partir daí, virou uma forma de homenagear a pessoa que eu perdi. Mas, para mim, isso só fez com que o filme ficasse mais bonito.”

Silveira não foi o único a perder alguém especial durante as filmagens, mas também João Miguel. “Foi o filme que eu mais me emocionei, porque fala de perda, e eu também perdi uma pessoa importante para mim, meu mestre (o ator Sotigui Kouyaté). A morte de uma pessoa próxima é um desafio para você continuar vivendo, e transformando aquilo que você aprendeu com aquela pessoa em vida”, diz o ator.