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A banalidade e o mal

Um diretor de cinema russo decidiu montar uma espécie de reality show para reviver o período soviético — deu tudo errado

Por Fábio Altman - 22 fev 2019, 07h00

O jornal inglês The Guardian chamou o projeto do diretor de cinema russo Ilya Khrzhanovsky de “um show de Truman stalinista” — Truman Burbank é aquele personagem interpretado por Jim Carrey que não sabe estar vivendo numa realidade simulada para um programa de televisão. DAU, eis o nome da aventura megalomaníaca, culminou na semana passada com a exibição de treze filmes em duas grandes salas de teatro de Paris. O plano: reviver o período soviético. A estratégia: durante três anos, de 2009 a 2011, cerca de 400 pessoas — apenas uma delas era ator profissional — viveram numa cidade construída para as filmagens perto de Khar­kov, na Ucrânia. A arquitetura do local foi inspirada no Instituto Kharkov de Física Experimental, que existiu de 1938 a 1968, dirigido por Liev Landau (daí o nome DAU), físico premiado com o Nobel em 1962 e que ficou conhecido também por defender o amor livre, a ruptura familiar. Cada detalhe foi cuidadosamente colado ao original, das luminárias ao papel higiênico. Os participantes — que incluíam um ganhador do Nobel na vida real, um famoso regente de orquestra, além de um ex­-dirigente da KGB e agentes penitenciá­rios — eram obrigados a viver 24 horas por dia num Big Brother de foice e martelo, comendo pratos soviéticos, vestindo roupas íntimas soviéticas, lendo livros soviéticos, pensando como soviéticos. Microfones escondidos estavam em todos os cômodos, e a instalação era supervisionada por sua própria polícia secreta. Uma equipe formada por um cameraman e dois auxiliares registrava tudo, em detalhes, misturando “cinema verdade” com reality show. O resultado foram cenas cruas, de sexo, violência, vômito, gritos, de vez em quando, mas só de vez em quando, um pouco de paz e eterna vigilância — enfim, a vida como ela é, ou como era na União Soviética. Foram gastos mais de 10 milhões de dólares, dinheiro cedido por um magnata russo de cidadania búlgara.

As críticas foram muito ruins — em relação aos filmes e também às salas, nos saguões dos teatros, que reproduziam bibliotecas, cozinhas e quartos do tempo comunista, e que apenas repetiram o que se vê em museus de segunda categoria em Berlim e Moscou. Escreveu Rachel Donadio na revista americana The Atlantic: “DAU é uma enorme Gesamtkunstwerk sem Kunst”. Gesamtkunstwerk é a obra de arte total, em alemão. Kunst é arte. “É uma festa, mas faz você se sentir como se não tivesse sido convidado”, disse Rachel. “É um estudo de caso sobre como o boca a boca se espalha entre os artistas e como o establishment cultural de Paris tende a abraçar qualquer projeto que afirme seu compromisso com a vanguarda, mesmo que seja grotesco.”

O embuste de Khrzhanovsky — houve quem o acusasse de usar o dinheiro para viver como um magnata, cercado de luxúria — ecoa outro experimento malsucedido, desenhado pelo psicólogo Philip Zimbardo na Universidade Stanford, em 1971, no auge dos anos hippies da Califórnia. Zimbardo pôs um anúncio no jornal em que procurava voluntários e oferecia a eles 15 dólares por dia, durante duas semanas. Foram selecionados 24 jovens, todos aborrecidamente normais para aqueles anos loucos, sem problemas familiares nem vício algum. Um time de seis dos escolhidos foi posto de lado — os dezoito restantes foram divididos em dois grupos, no cara ou­ coroa. Metade virou “prisioneiro”, metade “carcereiro”. Em poucas horas, a prisão de mentirinha transformou-se numa detenção de verdade, e rapidamente o caldo entornou. Os rapazes que vestiam o papel de guardas tornaram-se déspotas. A agressividade explodiu, cenas de humilhação eram comuns. No sexto dia, Zimbardo interrompeu a experiência comportamental. Ainda hoje ela é considerada um marco polêmico — Zimbardo, atualmente com 85 anos, queria entender como um ambiente institucional influencia a atitude das pessoas, como o “efeito manada” deságua no autoritarismo mais boçal. Não por acaso, aquela aventura de Stanford inspirou filmes de cinema e episódios de séries de televisão. Khrzhanovsky bebeu da mesma fonte, mas há diferenças fundamentais.

Zimbardo, já um respeitado psicólogo, intuiu chegar aonde de fato chegou — em outras palavras, pretendia, a partir de sua experiência, elaborar uma reflexão em torno do conceito da “banalidade do mal”, construído magistralmente pela jornalista e filósofa alemã Hannah Arendt (1905-1975), em 1963, com base em suas observações do julgamento de Adolf Eichmann, acusado de genocídio contra os judeus durante a II Guerra. Para Hannah, Eichmann fez o que fez como personagem de uma engrenagem burocrática, levado ao crime por ser peão de uma postura política, determinada pelo Estado. O “mal radical”, tal qual formulado por Kant, não existiria — ele só brota quando há espaço institucional para que viceje, como na Alemanha nazista ou, em grau infinitamente menor, nas salas de Zimbardo em Stanford.

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No caso de Khrzhanovsky, a ideia era fazer uma peça inovadora, sem cunho acadêmico — talvez para denunciar o totalitarismo soviético, e nem mesmo isso (o cineasta nunca escondeu seu fascínio pela história de Liev Landau). “É curioso perceber que as pessoas que se debruçam sobre o meu trabalho são mais moralistas do que os voluntários que participaram dele”, disse Khrzhanovsky, defendendo-se.

Deu tudo errado, culminando em um duplo pastiche: pastiche do regime soviético e pastiche de Zimbardo. Se fosse o caso de atrelar o projeto DAU a algum tipo de ideia, caberia voltar cinco séculos no tempo, em torno dos 1500 renascentistas, e colá-lo ao “discurso da servidão voluntária” do francês Étienne de La Boétie (1530-1563), que usou a contradição do termo para tentar explicar por que temos a tendência a abrir mão espontaneamente da própria liberdade submetendo-nos à vontade de um só, invariavelmente um rei, um primeiro-ministro, um presidente. La Boétie escreveu seu texto no momento histórico em que crescia a polarização na Europa Ocidental, na véspera da Noite de São Bartolomeu, com o massacre de protestantes pelos católicos, maciçamente aplaudidos.

Se, de fato, Khrzhanovsky desse as mãos a La Boétie, ele estaria fazendo de sua maluquice uma crítica aos tempos de hoje, de divisões extremistas, de adesões cegas — nos Estados Unidos de Trump, na Hungria de Viktor Orbán, no Brasil de Bolsonaro. Mas não. Sorte a dele, para conceder algum significado à exagerada obra de arte, que exista um Vladimir Putin, e que Putin — sem nenhuma surpresa — tenha vetado o DAU na Rússia, sobretudo pelo exagero das cenas de sexo e violência. E o DAU, salvo da insignificância pelo novo czar, virou involuntariamente uma condenação à censura — já é alguma coisa, mas muito menos do que desejava seu criador. Pelas reações negativas, quase todas sem concessão alguma, o resultado foi uma anacrônica e desmiolada viagem ao passado.

Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2019, edição nº 2623

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