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Sobram exames, falta política educacional, avalia especialista

Por Nathalia Goulart - 4 jun 2010, 18h50

Há avaliações demais e políticas de educação de menos no Brasil. A opinião é do economista e especialista em educação Gustavo Ioschpe. Ele afirma que o Exame Nacional de Ingresso na Carreira de Docente, anunciado na semana passada pelo governo federal, não deverá alterar a realidade do ensino no país. Para promover melhorias no setor sem a necessidade de criação de mais um mecanismo de avaliação, o especialista recomenda uma receita curiosa: “Feijão com arroz”, ou seja, a adoção de medidas básicas. “Elas provocam impactos significativos no aprendizado”, garante. Confira a seguir a entrevista que Ioschpe concedeu a VEJA.com.

Como o senhor julga a iniciativa do Ministério de Educação de instituir um exame para selecionar professores?

Vejo a medida como positiva. É sempre bom dispor de mecanismos acurados de avaliação. Mas o problema da educação brasileira não é a falta de avaliação. Até acho que ela é uma das mais bem avaliadas do mundo e dispõe de muitos instrumentos para isso. As provas aqui são bem realizadas, temos uma competência e uma sofisticação grande na elaboração de provas. O problema é que os resultados dessas avaliações não se traduzem na mudança de políticas públicas e em práticas de sala de aula, o que faz com que não haja melhora efetiva.

Quais as fragilidades desse novo exame?

Uma delas é que a prova é opcional. Fica a cargo dos estados e municípios decidir aplicá-la ou não, o que por si só já é um fator limitador. Mais delicado, porém, é o fato de que, da maneira que foi criada, não mexe na formação dos professores. Imagino que, se aqueles que aplicarem a prova forem muito exigentes, um grande número de professores não conseguirá atingir o patamar desejado. Em algum momento, será necessário reduzir o grau de exigência e assim nada tende a mudar.

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Qual seria a saída?

Se essa fosse uma prova aplicada ao fim do curso de graduação, exigindo-se também uma performance mínima do candidato para a obtenção do diploma, teríamos impactos mais relevantes, porque os cursos de formação seriam obrigados a se modificar. Do jeito que as coisas foram colocadas pelo governo, provavelmente os cursos de formação vão continuar a funcionar da mesma maneira. O exame é um passo positivo, mas será mais um mecanismo a acender a luz vermelha, mostrando que os professores não estão tão bem preparados.

É possível identificar, por meio de uma prova, um bom professor?

Nenhuma prova é 100% eficaz, mas é um instrumento positivo. Até hoje, a literatura científica sobre educação ainda não identificou as variáveis que compõem um bom professor. Ainda não conseguimos identificar e isolar de uma maneira quantitativamente rigorosa do que é feito um bom professor. Conhecemos algumas variáveis relevantes, como conhecimento da matéria, formação, práticas de sala de aula: algumas delas são perceptíveis em uma prova, outras, não.

O senhor costuma afirmar que países que deram saltos educacionais o fizeram porque adotaram medidas básicas de aprimoramento, que o senhor chama de “feijão com arroz”. Como deve ser preparada a receita brasileira?

Devemos formar bons professores, formar melhor os gestores das escolas e adotar práticas de sala aula cuja eficiência seja comprovada. O que são essas práticas? Usar mais o livro didático e o dever de casa, parar de inventar currículo, parar de fazer com que cada professor seja um pesquisador e invente a própria roda, fazer com que o tempo da sala de aula seja aproveitado de maneira mais eficiente e não usá-lo apenas para colocar matéria no quadro negro, avaliar mais constantemente o desempenho dos alunos, manter bibliotecas nas escolas e nas salas de aula. São medidas básicas, que provocam impacto significativo no aprendizado.

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