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“Refém dele mesmo”

Recém-demitido da presidência do Inep, Marcos Vinícius Rodrigues fala a VEJA

Por Da Redação - 29 mar 2019, 07h00

Na manhã de terça-feira 26, o engenheiro Marcus Vinícius Rodrigues, de 63 anos, foi convocado para uma reunião com o ministro Ricardo Vélez. Deixou o gabinete do Ministério da Educação pouco depois, destituído do cargo de presidente do Inep, instituto ligado ao MEC que cuida das avaliações do ensino. O ministro se sentiu traído por não ter sido informado sobre o adiamento, assinado por Vinícius Rodrigues, do teste que afere o nível de alfabetização das crianças. O demitido falou a VEJA.

O que o fez assinar um decreto que extingue a avaliação da primeira etapa escolar? Não sou técnico em alfabetização, mas, quando olhei o documento, pensei cá com meus cabelos brancos: “Isso vai dar problema”. Eu o assinei porque, no meu entendimento, era um documento gestado pela área responsável no MEC, com respaldo do próprio secretário.

O senhor não concorda com a portaria? Não me cabe discordar das posições técnicas do MEC.

O ministro disse que não sabia de nada e que o senhor lhe “puxou o tapete”. Isso procede? O Carlos Nadalim (secretário de Alfabetização) é hoje a pessoa de maior interlocução com o ministro. Nada sai dele sem o conhecimento do ministro, principalmente quando se refere a um assunto tão sério.

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Se o ministro sabia da portaria, por que a deixou passar? Acho que ele não esperava que a repercussão fosse tão grande.

Esse foi seu primeiro desentendimento com o ministro? Não. Ele fez duas indicações que eu considerei inadequadas. Não as levei para o Inep e acho que ficou um ranço.

O ministro é refém dos grupos que dominam o MEC? O ministro Ricardo Vélez não é refém de ninguém, só dele mesmo. Como não é gestor nem educador, não tem um norte. Uma vez sem diretrizes, começa a apagar incêndios tomando decisões momentâneas.

O viés ideológico atrapalha o ministério? A meu ver, o grande problema do MEC é a falta de planejamento estratégico. Não há plano nenhum.

O senhor quer dizer que o ministro não é capacitado para o cargo? Não é. A formação dele se deu em instituições que não são de primeira linha no nível mundial, nem mesmo nacional. Essa é uma área que exige muito conhecimento. Tente marcar uma reunião com ele para falar dos planos para resolver qualquer problema prático do MEC. Ele não sabe.

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O presidente Bolsonaro disse que quer ver o Enem antes da aplicação da prova. Isso o incomodou? Se ele pedisse, teria permitido. Mas não o aconselharia. Sugeriria que gastasse o tempo de outra maneira e confiasse na equipe do Inep, que está ciente dos desejos do governo.

Publicado em VEJA de 3 de abril de 2019, edição nº 2628

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