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‘Precisamos despertar paixão pelas ciências’

Brasileiro que leciona na Universidade de Stanford diz que escolas precisam atualizar ensino, com o objetivo de garantir a inovação e o desenvolvimento

Quando fazia mestrado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), o engenheiro Paulo Blikstein visitou escolas públicas de regiões pobres da capital paulista para oferecer oficinas de robótica aos alunos. Uma constatação intrigou o jovem universitário: mesmo os bons estudantes tinham dificuldades para absorver conhecimentos básicos de ciências. Hoje, cerca de dez anos depois, Blikstein, de 39 anos, agora professor da Universidade de Stanford, na Califórnia, tem uma explicação: “A escola precisa tornar a ciência atraente. É possível obrigar uma criança a estudar matemática ou física, mas essa obrigação não desperta paixões. Os grandes cientistas se apaixonaram pela ciência e foram fundo no assunto. Precisamos despertar essa paixão.” Não é à toa que Blikstein quer encorajar paixões. Ele é um dos estudiosos que apontam a relação direta entre inovação, fruto do domínio das ciências, e desenvolvimento. De olho no problema, ele se dedica nos Estados Unidos a criar e implantar a disciplina de inovação, que quer estimular, desde cedo, estudantes a pensar de forma criativa, inventar e, portanto, gerar riqueza. “Se continuarmos formando crianças e jovens que odeiam as ciências exatas, como construiremos uma geração de inovadores?”, indaga o pesquisador. Confira a seguir a entrevista que ele concedeu a VEJA.com.

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Em um mundo em que inovar é sinônimo de desenvolvimento, qual a situação do Brasil? Nosso país ainda detém um dos menores índices de patentes per capita do mundo. Isso é preocupante. Somos grandes exportadores de commodities, como soja e ferro. Mas esse é um cenário em que podemos ser ultrapassados a qualquer momento por outro país e ainda ficamos expostos a flutuações internacionais. Por isso, se não investirmos em conhecimento científico e inovação, não teremos um crescimento sustentável nas próximas décadas. Quando decidirmos deixar de ser exportadores de commodities, não teremos mão de obra qualificada para essa transição

Qual o papel da educação nesse processo? É preciso investimento desde cedo. A escola precisa tornar a ciência atraente. É possível obrigar uma criança a estudar matemática ou física, mas essa obrigação não desperta paixões. Os grandes cientistas se apaixonaram pela ciência e foram fundo no assunto. Precisamos despertar essa paixão. Agora, se continuarmos formando crianças e jovens que odeiam as ciências exatas, como construiremos uma geração de inovadores?

Fazer com que a matemática seja atraente para crianças não é tarefa fácil. Como lidar com essa equação? Em um dos meus projetos, criei a disciplina de inovação em algumas escolas americanas com as quais trabalho. Criamos um laboratório com tecnologia de baixo custo e lá as crianças passam um determinado tempo tendo ideias e desenvolvendo produtos. Há décadas as escolas começaram a introduzir no currículo disciplinas como química e física porque perceberam que era preciso formar mais pessoas nessas áreas. É o mesmo que temos que fazer hoje com a inovação científica.

Esse é um desafio apenas para o Brasil? Acredito que seja uma desafio para todos os países, em maior ou menor medida. Nações com modelos educacionais consagrados como a Coreia do Sul estão muito preocupados com a inovação. Porque a escola ensina conteúdos, mas não ensina o aluno a pensar de forma inovadora. E para ser inovador, para uma grande ou pequena invenção, não basta apenas reformular o que já existe – é preciso mais que isso. É necessária uma dose de subversão para pensar os problemas de uma forma completamente diferente do que faz a maioria das pessoas. Um exemplo disso é a Apple, que vive de reinventar o mundo. Steve Jobs, seu ex-CEO, nunca pensou em pegar um tocador de CD e simplesmente fazê-lo menor. Ele criou algo que nunca existiu, que as pessoas nem sabiam que precisavam.

Por que os Estados Unidos são uma grande referência quando o assunto é inovação? Lá, existe uma cultura muito arraigada de inovação. Uma pessoa que chega ao Vale do Silício, centro de inovação do mundo, sem o objetivo de inventar algo ou abrir uma empresa é mal vista. Essa é uma cultura que foi construída ao longo de muitos anos. Outro ponto positivo é o financiamento. As empresas são ávidas por investir em novas ideias. Além disso, o empreendedorismo é forte, principalmente na faculdade. Em suma, é um ecossistema que se retroalimenta.

Essa cultura pode ser levada para a educação? Essa grande capacidade de reinvenção dos Estados Unidos é muito importante para a educação. Se algo não serve mais, é descartado. Na educação, precisamos olhar para o currículo escolar, identificar o que não serve mais e jorgar fora. Há coisas que faziam sentido há cem anos, mas que hoje não fazem mais. A maneira como se faz ciência atualmente não tem nada a ver com o que se ensina nas escolas. É preciso desenhar um novo jeito de ensinar, próprio para nossos dias. Operações matemáticas que fazemos na sala de aula eram utilizadas no século XV por mercadores que precisavam fazer comércio, mas não tinham calculadora. Agora, qualquer celular faz isso. Temos que aproveitar o tempo da escola para ensinar coisas mais construtivas do que aquelas que se faziam há 500 anos. A educação parou no tempo.

Recentemente, o senhor recebeu um prêmio da National Science Foundation concedido a jovens pesquisadores. O que pretende com seu projeto? A maneira como se faz ciência hoje é muito diferente da que se ensina nas escolas. Ciência não se faz mais só com tubos de ensaio. Atualmente, ela é feita com tubos de ensaio conectados a computadores, que rodam modelos matemáticos. O que eu faço é levar isso para a escola, levar ciência de ponta para o aluno. Em resumo, meu projeto permite que as crianças criem teorias sobre fenômenos científicos e modelos computacionais usando linguagem de programação. Ao mesmo tempo em que uma determinada experiência acontece no computador, elas fazem o experimento físico e comparam os resultados.

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