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Palpites para o futuro ministro

Conselhos para o responsável pela Educação não errar e ruir

Vem aí um novo ministro da Educação. Segundo um antigo ditado espanhol, “más sabe el diablo por viejo que por diablo”. Antes de saber quem seria, como entro e saio do edifício do MEC já faz muito tempo, atrevo-me a oferecer alguns palpites.

1. Ministro da Educação manda pouco (pode até mandar, mas ninguém obedece). Canetadas não funcionaram, nem mesmo no período militar.

2. Consertar a educação básica alçará o ministro à história. Mas quem o derruba é a universidade. Disse isso a Eduardo Portella, quando era ministro. Apeado, por bulir com a universidade, um jornalista encontrou no seu gabinete o papelzinho em que ele anotou a frase.

3. Ernesto Schiefelbein, educador chileno, virou ministro da Educação. Como me disse, é necessário escolher não mais que três ou quatro metas e ir a fundo. Pouco tempo depois de alçado à Presidência da República Checa, Vaclav Havel desabafou a um jornalista: “Como escritor, fui sempre cobrado pela originalidade. Como presidente, tenho de repetir a mesma coisa mil vezes, até que todos se lembrem!”. Foco é tudo.

4. O MEC não tem escolas, quase não as financia e não manda em quem as tem, os estados e municípios. Ainda assim, espera-se que seja responsável pela educação. Data venia, muita humildade!

5. Não se subestime a enorme força da burocracia do MEC. Logo que entrou, Fernando Haddad me ouviu falar dos “subterrâneos do MEC”. Perguntou a um amigo comum se, de fato, existiam os tais subterrâneos. Suponho que, ao sair, estava mais do que convencido de sua existência.

6. Os políticos vão atazanar, sempre, pedindo empregos para parentes e buscando maneiras de tirar uma casquinha dos orçamentos. Perigo à vista!

7. Ao que tudo indica, a corrupção na órbita do MEC se concentra em alguns fundos mais vulneráveis — como o dos livros. O resto ou é limpo ou é coisinha da arraia-miúda. Portanto, para quem quer reforçar seu caixa, a educação não é uma boa opção.

8. Depois da poda feita por Paulo Renato, ministro de FHC, voltou a crescer a árvore de Natal dos programinhas financiados e operados pelo MEC. Sua gestão é um petisco para os burocratas da casa e seus beneficiários favoritos. Até podem ser iniciativas simpáticas, mas falta-lhes massa crítica para fazerem diferença nacionalmente. Trocar os programas inviáveis por outros de menor número e mais impacto é uma bela missão.

9. Na penúria vigente, é sonho pensar em mais dinheiro. Portanto, o desafio é conseguir mais resultados com o que existe.

10. Há um bando de gente bem informada, serena e com ideias claras sobre o que precisa ser feito. Melhor ouvi-las que embarcar em soluções milagrosas.

Publicado em VEJA de 5 de dezembro de 2018, edição nº 2611