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O século 21 será da China?

A maior dificuldade que a China deverá enfrentar, porém, é institucional e doméstica. Muitos sinólogos vêem grande risco de convulsão interna no colapso do PC chinês e a transição para a democracia. A teoria prevê que o próprio desenvolvimento capitalista chinês gerará grupos que se ressentirão da mão pesada de um estado ditatorial e com poder econômico para rivalizar com o partido. Será que o mundo tolerará outro massacre da praça Tianamen, caso as tensões cheguem à superfície? Essas preocupações são justificadas, mas creio que também um pouco precoces e etnocêntricas.

A qualidade da educação chinesa tem impactos geopolíticos importantes. Se antes do PISA podíamos pensar no país como “a fábrica do mundo”, uma vasta área que abastece o mundo de isqueiros, guarda-chuvas e outras quinquilharias e preços imbatíveis por conta de seu praticamente infinito estoque de trabalho “escravo”, depois dele somos forçados a mudar de idéia. A China está se capacitando para jogar o jogo onde ele importa: nas áreas de produção de conhecimento e tecnologia, mirando os bens e serviços que alavancam um país desenvolvido. Se há vinte anos a China fazia brinquedos de plástico, hoje suas fábricas já produzem o iPad, e a aposta do país é de que em mais dez produtos como esses sejam também criados por chineses, e não californianos.

Se isso acontecer, como já aconteceu antes com o Japão e os Tigres Asiáticos, as mudanças serão sísmicas: teremos não apenas uma nova potência, mas provavelmente um novo poder hegemônico. O cálculo é simples. Mantendo as atuais populações constantes, a China seria maior que os EUA se tivesse uma renda per capita de 11 mil dólares – o que é o nível de riqueza do Brasil. Se a China chegar ao PIB per capita da Grécia, sua economia será maior do que as economias dos Estados Unidos e da União Européia…somadas! A ultrapassagem dos Estados Unidos como maior economia do mundo não deve demorar muito. Se a China crescer a 9% ao ano e os Estados Unidos a 2%, a ultrapassagem acontece em 2024. Mesmo se formos mais conservadores e projetarmos 7% para a China e 3% pros EUA, a ultrapassagem ocorreria exatos dez anos depois.

Eu sei, você já ouviu isso antes. Quem tem mais idade ou lê História sabe que o declínio americano já foi previsto em relação à Alemanha na década de 30, à União Soviética na década de 50 e ao Japão na década de 80. Todos os concorrentes fizeram água. Por que haveria de ser diferente com a China? Uma razão é o tamanho. Todos os outros países tinham populações menores do que a americana, por isso precisavam ser mais produtivos do que os EUA. A China é quatro vezes maior. Basta produzir um quarto por habitante e se iguala.

A segunda é que, aparentemente, os chineses não se contentarão em produzir um quarto, e estão, literalmente, fazendo o dever de casa para que isso aconteça. Curiosamente, permanece na psique chinesa um pouco do isolacionismo auto-suficiente dos tempos de império. Não creio que a maior preocupação da China seja ser superior aos Estados Unidos. Tenho a impressão de que eles acreditam que sua cultura, sua história e suas tradições já são muito superiores à americana e européia. O movimento chinês é para que o país realize suas potencialidades, que ficaram soterradas por mais de cem anos de governos que oscilaram entre a inépcia e a catástrofe. Como neto de imigrantes judeus que chegaram ao Brasil miseráveis, fugindo de perseguições na Europa, foi fácil ver nos chineses o mesmo espírito, a maciça liberação de energia empreendedora de um povo oprimido por sua história. Os chineses de hoje são como imigrantes. Foram exilados, em sua própria terra, de sua história, e agora fazem o movimento de retorno.

Trabalhadores aguardam o horário de entrada em frente a uma fábrica de produtos eletrônicos na cidade chinesa de Shenzhen Trabalhadores aguardam o horário de entrada em frente a uma fábrica de produtos eletrônicos na cidade chinesa de Shenzhen

Trabalhadores aguardam o horário de entrada em frente a uma fábrica de produtos eletrônicos na cidade chinesa de Shenzhen (/)

Apesar do “espírito animal” afiado, das altas taxas de poupança/investimento e da qualidade do seu capital humano, não há garantias de que o crescimento chinês continuará robusto no longo prazo. Primeiro pela própria dinâmica desse processo: é bem mais fácil ter crescimento acelerado começando de terra arrasada e simplesmente jogando dinheiro e gente trabalhando onde antes nem havia propriedade privada do que gerar os ganhos de produtividade que são necessários para chegar ao Primeiro Mundo. Segundo, pela ameaça externa: é provável que o mundo ocidental em crise comece a ter menos tolerância a um país que desvaloriza seu câmbio e subsidia suas empresas para ganhar o mercado desses países. No limite, a ciência política mostra que a troca de poderes hegemônicos costuma ser acompanhada por guerras – ainda que a devastação causada por um conflito EUA x China seja um bom motivo para deter os ânimos mais exaltados.

O desafio institucional – A maior dificuldade que a China deverá enfrentar, porém, é institucional e doméstica. Muitos sinólogos vêem grande risco de convulsão interna no colapso do PC chinês e a transição para a democracia. A teoria prevê que o próprio desenvolvimento capitalista chinês gerará grupos que se ressentirão da mão pesada de um estado ditatorial e com poder econômico para rivalizar com o partido. Será que o mundo tolerará outro massacre da praça Tianamen, caso as tensões cheguem à superfície? Essas preocupações são justificadas, mas creio que também um pouco precoces e etnocêntricas.

Etnocêntricas porque a democracia liberal é uma criação recente do Ocidente. A China tem milênios de História e jamais foi democrática. Não creio que a maioria dos chineses concordem com Fukuyama. Precoces porque acho difícil que haja novo movimento maciço de oposição ao regime enquanto o crescimento econômico continuar tão forte. É difícil de explicar a energia que se sente em um país que está crescendo a 10% ao ano: o caos de um trânsito em que tanto os motoristas quanto os engenheiros de trânsito estão fazendo aquilo tudo pela primeira vez, o otimismo desabrido dos jovens sobre suas possibilidades de futuro, mega cidades surgindo do nada e virando a líderes industriais mundiais em suas áreas, canteiros de obra por toda a parte. As rupturas políticas costumam se dar em momentos de crise econômica, normalmente aguda. É claro que a China não está imune a esses riscos, mas ela ainda tem muita graxa pra queimar. Na grande crise de 2008-09, o crescimento seguiu entre 9% e 10% ao ano. E agora o país começa a desenvolver um mercado interno cada vez maior e mais rico, que protege o país das crises externas.

Mão-de-obra – Tamanho importa: a população chinesa é maior do que a soma das populações americana e européia somadas. Se esses dois blocos se desenvolveram no pós-guerra basicamente atendendo seu mercado interno e comercializando entre si, a China também pode continuar crescendo com suas próprias pernas. E pense nisso: mesmo depois desses trinta anos de crescimento acelerado e migração do campo para as cidades, a China ainda tem 53% da população (equivalente a mais de três vezes a população de todo o Brasil!) no campo. Nos Estados Unidos, são 18% . É uma perspectiva assustadora: a China poderá ocupar todos os nichos de mercado. Enquanto sua população mais qualificada vai dominando as áreas de maior valor agregado, ainda há centenas de milhões de pessoas que poderão continuar abastecendo as fábricas de mão-de-obra muito barata.

O papel que a educação chinesa vai desempenhar nesse desenvolvimento será decisivo. Seus líderes sabem que, por melhor que seja o seu sistema educacional, ele é excessivamente baseado em esforço, memorização e preparação para exames. Não é tão surpreendente, afinal, que os chineses vão bem em testes como o PISA: quase desde a primeira infância seu único objetivo no sistema educacional é ir bem em testes. Para se tornar um país plenamente desenvolvido, os chineses terão de ir bem naquilo que o gao kao não mede: criatividade, curiosidade, flexibilidade etc. Conversei com alguns empresários estrangeiros com negócios na China, e todos reclamam da falta de inventividade, iniciativa e capacidade de liderança dos funcionários chineses. Eles são ótimos em seguir ordens, mas não em pensar sobre elas, muito menos questiona-las. Será que o PC vai conseguir insistir nessas reformas modernizantes, sabendo que o trabalhador flexível e questionador também será o ser político com as mesmas características?

Skyline de Shenzhen, na China Skyline de Shenzhen, na China

Skyline de Shenzhen, na China (/)

Shenzhen talvez seja uma amostra do caminho a trilhar. A cidade, vizinha a Hong Kong e local da primeira Zona Econômica Especial da China, onde o capitalismo foi pioneiramente implantado, é também onde o modo de vida ocidental fez mais avanços. Lá eu visitei a melhor high school da cidade e uma das melhores de todo o país. O ensino era muito bom, como nas melhores escolas de Xangai, mas o clima era decididamente diferente. Não havia bandeira da China na sala – as paredes eram decoradas com posters da NBA, do Barcelona e dos filmes da série Crepúsculo. Os alunos não usavam uniforme, o clima da aula era bem mais relaxado, com brincadeiras e risadas, e no intervalo entre um período e outro o pessoal batia uma bola no fundo da sala. Me chamava a atenção, nas escolas de Pequim e Xangai, que mesmo entrando com um fotógrafo e tradutora a tiracolo e ficando muito perto dos alunos, ninguém se virava para nos espiar ou perguntar de onde éramos. Na escola de Shenzhen os alunos não só vieram bater papo como um deles me pediu e-mail e ficou em contato. Vários alunos se vestiam com a roupa da moda e usavam penteados estilosos. O diretor da escola criticou abertamente algumas políticas do governo central.Os namoros são permitidos e nos shoppings da cidade (que têm lojas Louis Vuitton e Prada do tamanho que as Americanas ou C&A têm no Brasil) foi frequente ver adolescentes andando de mãos dadas. Toda essa ocidentalização não vem sem custos: mesmo na geração mais jovem já há gente reclamando da perda das tradições chinesas, do enfraquecimento da identidade nacional.

Enfim, não será um caminho simples, e há muitas razões que podem fazer com que esse período de apogeu da civilização chinesa seja seguido de mais uma crise, fragmentação etc., como já ocorreu tantas vezes no império. Mas, sinceramente, acredito que as possibilidades de sucesso são muito maiores que as de fracasso. Já estou procurando uma escola de mandarim pros meus filhos.