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‘O jovem guia sua carreira por um propósito e por prazer’

A presidente da agência de recrutamento Cia. de Talentos fala de dúvidas que atormentam novos profissionais no mercado de trabalho. E como fugir delas

Por Nathalia Goulart 21 abr 2012, 21h01

Há quase três décadas, a consultora de recursos humanos Sofia Esteves trabalha com jovens em início de carreira. Sua missão é ajudá-los a identificar os melhores caminhos para ingressar no mercado de trabalho. Sua experiência a levou à especialização na chamada geração Y, jovens nascidos entre as décadas de 1980 e 1990, inquietos e capazes de desenvolver várias tarefas simultaneamente, fruto da era digital em que cresceram e do consequente acesso quase irrestrito à informação. “Estamos falando aqui de um jovem que é guiado por propósito e prazer”, diz Sofia. Profissionalmente, porém, eles são indecisos, têm dificuldade em encontrar um curso e em fazer parte de empresas que ainda não se adaptaram à nova realidade. “Existem hoje mais de 22.000 cursos à disposição e o jovem sente dificuldade em escolher aquele com o qual se identifica de verdade. O que acontece na prática é que essa é uma geração que aprende pela tentativa e erro.” O remédio, diz Sofia, é o autoconhecimento. “Tudo o que o jovem puder fazer para se conhecer melhor é válido, encurta caminhos.” Sofia colocará todo o seu know-how agora à disposição de jovens talentos. Ela é parceira do Prêmio Jovens Inspiradores, iniciativa de VEJA.com e da Fundação Estudar que vai selecionar estudantes ou recém-formados com espírito de liderança e compromisso permanente com a busca da excelência: os vencedores ganharão iPads, bolsas de estudo no exterior e um ano de orientação profissional com nomes de destaque do meio empresarial e político (mentoring). As inscrições no Prêmio se encerram neste domingo. Confira a entrevista que Sofia concedeu ao site de VEJA.

Prêmio Jovens Inspiradores: increva-se já

Quais as características da geração Y? Estamos falando aqui de um jovem que é guiado por propósito e prazer. Ele precisa se identificar com algo para poder se dedicar verdadeiramente a ele. Profissionalmente, isso gera um impasse, porque ele está exposto a um volume muito grande de oportunidades. Existem hoje mais de 22.000 cursos à disposição e o jovem sente dificuldade em escolher aquele com o qual se identifica de verdade. O que acontece na prática é que essa é uma geração que aprende pela tentativa e erro: o jovem ingressa em um curso, não gosta e desiste. E assim ele segue até encontrar um que lhe dê prazer. Por outro lado, a geração Y é mais colaborativa e já sabe quais são seus valores e ética. E já está cientificamente comprovado que são mais inteligentes do que as gerações anteriores.

Esses jovens são mais imaturos? Sim. Os pais da geração Y vieram de um ambiente mais repressor e costumaram oferecer tudo aos filhos. Como consequência, os jovens crescem com menos responsabilidade e costumam ter tudo nas mãos. O processo de amadurecimento é postergado.

Como um jovem assim faz para descobrir o que realmente o interessa? Tudo passa pelo autoconhecimento. Tudo o que o jovem puder fazer para se conhecer melhor é válido, encurta caminhos. Sempre recomendo aos jovens que consultem pais, professores e amigos e os questionem quais os talentos são mais salientes em sua personalidade. Identificar a percepção que pessoas próximas têm de nós nos ajuda a perceber quais são nossos traços mais fortes. Aliado a isso, existe um exame de consciência intenso que precisa ser feito. Questionar-se sobre os valores e desejos ajudam a construir um futuro profissional sólido.

Quais são os principais equívocos dos jovens que estão ingressando agora no mercado de trabalho? Eles não têm foco. Eles fecham os olhos e atiram para todos os lados. Com frequência vejo garotos se inscrevendo em 30 processos seletivos de uma única vez. Como os processos costumam ser longos, eles acabam desgastados ou desistem diante dos primeiros obstáculos. Para evitar essa situação, sugiro que antes de se inscrever o jovem faça uma pesquisa criteriosa das empresas. Ele precisa encontrar aquelas que mais têm a ver com ele, com seus valores e objetivos. Sem esse conhecimento, aumentam as chances de frustrações e diminuem as chances de sucesso.

De maneira geral, que perfil profissional as empresas buscam hoje? Elas buscam pessoas com iniciativa, que tenham determinação, capacidade de análise e argumentação. Os candidatos precisam ter sustentação pessoal, saber trabalhar em time e comunicar com clareza. Recentemente realizamos um levantamento sobre os requisitos que mais eliminam candidatos nos processos seletivos. São eles: capacidade de análise e sustentação. Percebemos que os jovens leem cada vez menos e por isso tem dificuldade de fazer uma análise mais profunda dos temas mais variados. Sem essa capacidade, eles não conseguem sustentar seus pontos de vista.

Que tipo de atividade ajuda nesse processo? Recomendo sempre participar de agremiações, organizações estudantis e empresas júnior. Tudo o que puder ser feito nesse sentido é enriquecedor porque ajuda a desenvolver capacidades valorizadas pelo mercado de trabalho. Esportes coletivos também auxiliam bastante. Por fim, indico sempre o envolvimento com trabalho voluntário. Conhecer e se sensibilizar com diferentes realidades é extremamente importante.

O que mudou nos processos seletivos nos últimos anos? Antes, ter cursado uma boa universidade era certificação de sucesso profissional. Um diploma conceituado era como um atestado de inteligência – e isso bastava. As empresas concluíam que, se o candidato tinha tido capacidade de passar em um vestibular difícil, ele era um bom profissional. Mais tarde, elas perceberam que não as coisas funcionavam exatamente dessa forma. Uma pessoa pode ser inteligente, mas se não sabe se comunicar, trabalhar em grupo ou liderar sua inteligência não é muito efetiva no trabalho. Hoje, o que importa são as características comportamentais e os valores pessoais de cada um. Até o inglês, que costumava ser prérrequisito indispensável, hoje já não é mais: inglês se aprende, mas certas habilidades, como iniciativa, não.

As empresas já se adaptaram aos jovens da geração Y? Algumas lidam melhor com eles do que outras. O que as companhias começam a entender agora é que, para atrair os jovens, elas precisam treinar seus gestores para que eles saibam lidar com essa geração. Caso contrário, haverá um choque. Quando as duas partes se dispõem a dialogar e a aprender uma com a outra, as coisas fluem melhor.

Quem são os líderes dessa geração? São gente de carne e osso. Pessoas próximas, que servem de exemplo no dia a dia e não mais aquelas figuras históricas das quais sempre ouvimos falar que mereciam respeito. Muitas vezes, são pessoas que não fizeram nada de extraordinário, mas que exercem bem o papel de gestor. A admiração hoje está mais ligada às figuras que cumprem aquilo que falam, que lideram pelo exemplo. É uma figura palpável, não o mito como costumava ser antigamente.

O Prêmio Jovens Inspiradores pretende revelar novas lideranças para o Brasil. A senhora sente que os profissionais dessa nova geração estão mais preocupados com o país em que vivem? Sem dúvida. Em uma pesquisa recente pedimos para os jovens apontarem em que empresa gostariam de começar a carreira. Quase metade deles citou companhias nacionais. Isso reflete a realidade do Brasil hoje. Há 30 anos, quando comecei a trabalhar com programas de trainee, o maior sonho dos jovem brasileiro era ter uma carreira no exterior. Eles queriam passagem de ida sem data para voltar. Hoje, eles querem experiência internacional, mas já não estão mais dispostos a abrir mão de viver em seu país. Eles vão para fora, estudam, trabalham e voltam para construir uma carreira aqui.

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