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O Enem francês pergunta: Vale tudo para ser feliz?

Estudantes franceses tiveram de responder a essa questão no último exame nacional de conclusão do ensino médio. Mas o que é a felicidade?

Por Mario Sabino 19 jul 2014, 01h00

Deve-se fazer de tudo para ser feliz? Essa foi a pergunta escolhida para ser um dos temas da dissertação de filosofia do baccalauréat deste ano – o exame de conclusão do equivalente ao ensino médio na França e que dá acesso à universidade. A primeira intenção, bastante evidente, era pôr o estudante diante de um dilema ético sobre as escolhas a ser feitas na busca da realização de ambições e desejos. Ou melhor, sobre os limites das iniciativas a ser tomadas nesse sentido. A vida mostra que há quem os tenha mais estreitos, mais largos, ou mesmo quem só aparente tê-­los, na fronteira da psicopatia. Mas a pergunta aos alunos franceses embute uma segunda discussão: afinal de contas, o que é a felicidade?

Nos intervalos das partidas da Copa do Mundo, a música mais tocada nos estádios foi Happy, ou Feliz, do americano Pharrell Williams, com o seu ritmo transmissível como a dengue e a sua letra que proclama que nada é suficiente para estragar a alegria de quem a canta. O hit mundial proporcionou milhares de vídeos caseiros, postados na internet, com gente pulando de contentamento, e levou Williams a chorar (de alegria e também de desafogo pelo seu passado difícil) numa entrevista à apresentadora Oprah Winfrey, desaguadouro dos derramamentos das celebridades dos Estados Unidos. Tema frequente no universo pop, em especial em relação ao amor, a felicidade é um assunto exploradíssimo no mundo da propaganda – de comerciais de supermercado aos de banco, passando pelas inevitáveis cenas familiares dos anúncios de margarina. Em ambos os casos, ven­de-se a ideia de satisfação permanente, de encantamento suspenso no tempo e no espaço, de euforia de balada. A estratégia é legítima, embora vá de encontro à realidade tão bem expressa pela máxima do moralista François de la Rochefoucauld: “Não se é jamais tão infeliz quanto se crê, nem tão feliz quanto se esperava”.

Na filosofia do alemão Arthur Schopenhauer, tido como o arauto do pessimismo, podemos encontrar uma das melhores compreensões do que seja a felicidade – e, por consequência, tentar cultivá-la dentro dos parâmetros da frase de La Rochefoucauld. No livro A Arte de Ser Feliz, o italiano Franco Volpi compilou cinquenta regras que se encontravam esparsas pela obra do filósofo, ao estilo do que fez o próprio Schopenhauer nos seus manuais. Como é impossível mencionar todas no espaço destas páginas, fiquemos com as três principais:

1 Estar ciente de que só a dor é verdadeira. Ou seja, não requer nenhuma ilusão acessória para existir. Usufruir um presente sem dor, em vez de procurar o prazer num futuro improvável, é já uma forma de ser feliz, por mais que isso possa parecer sem graça aos olhos da civilização hedonista. “O homem sábio não aspira ao deleite, e sim à ausência de sofrimento”, escreveu Schopenhauer, citando o grego Aristóteles.

2 Evitar a inveja: ela tortura quem a nutre e, por esse motivo, causa infelicidade. “Você nunca será feliz enquanto se torturar por alguém ser mais feliz”, resumiu o romano Sêneca. A crueldade apontada por Schopenhauer: “E, no entanto, nós estamos constantemente preocupados em despertar inveja”.

3 Ser fiel a si próprio (de certa forma um prolongamento da segunda regra). Seguir as características e os pendores que o forjaram, assim como aceitar as suas limitações, é essencial para o indivíduo resguardar-se de frustrações. Trata-se de algo difícil, porque não raro somos tentados a enveredar por caminhos estranhos a nós mesmos, mais adaptados às condições de quem invejamos. Diz o filósofo alemão: “Quando reconhecemos claramente, e de uma vez por todas, nossas qualidades e forças, bem como nossos defeitos e fraquezas, conseguimos fixar os nossos objetivos e nos resignamos com o inatingível. Escapamos, dessa maneira, à mais terrível de todas as dores: a insatisfação com nós mesmos, essa insatisfação que é a consequência inelutável da ignorância da própria individualidade”.

O site da revista Le Point fez a pergunta do exame de baccalauréat a políticos franceses. A maioria respondeu que se deve fazer de tudo para ser feliz, “desde que a felicidade almejada seja coletiva”. Previsível, superficial e até certo ponto desejável na boca de homens públicos, quando se pensa que a hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude. Políticos… Não é necessário ser um Schopenhauer para saber que, de uma forma ou de outra, a felicidade será tema na campanha eleitoral que se avizinha no Brasil. Acrescente-se, então, uma 51ª regra circunstancial àquelas imanentes ao filósofo alemão: desconfiar dos candidatos que se apresentarem felizes com a nossa situação atual.

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