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“Mudei a vida de meus alunos”, diz finalista do Global Teacher Prize

Alçada à lista do prêmio mundial de educação, a professora Doani Bertan abriu oportunidades a centenas de crianças surdas em uma escola pública de Campinas

Por Julia Braun Atualizado em 12 nov 2020, 12h47 - Publicado em 13 nov 2020, 06h00

Esperava ver seu nome na lista dos dez melhores professores do mundo? Honestamente, fiquei surpresa. Quando me telefonaram com a notícia, senti meu coração parar, sem exagero. Vieram-me à cabeça todas as tentativas e erros até chegar ao modelo de aula que dou hoje.

A fórmula que adota é semelhante à de outras escolas. Onde exatamente reside a diferença que a fez chegar tão longe? Além de ensinar as matérias ao lado de outra professora, ela em português e eu em libras, como acontece em outras escolas, faço questão de dispor as carteiras de modo que os alunos surdos possam se olhar de frente, esforço-me para integrar a turma o tempo todo e atendo cada um de forma personalizada, levando em conta suas dificuldades.

Em geral, os colégios falham na tentativa de incluir alunos especiais? Sim, e a razão é que o que entendem por inclusão é tratar todo mundo igual. E isso acaba tendo o efeito contrário, de levar à exclusão.

O que acha das escolas especiais para deficientes? O melhor lugar para o surdo é aquele em que ele se sente à vontade e acolhido. Pode acontecer numa escola tradicional, sistema em que eu leciono, ou em um colégio voltado para essas crianças.

O que a motivou a se tornar professora de alunos surdos? Na minha infância, copiava os gestos do alfabeto manual que via na televisão. Sempre fui muito hábil com as mãos e peguei gosto fácil. Adolescente, eu me matriculei em um curso formal de libras e, quando entrei na faculdade de pedagogia, já sabia que queria me dedicar a essa área. Entendia que assim poderia transformar vidas.

E transformou? Com certeza. Ajudei muitas crianças a se aceitar como são e as ensinei a exigir seus direitos e buscar respeito. Um fato que me marcou foi a experiência com um menino que tinha o sonho de ser arquiteto, mas não se sentia capaz de entrar na universidade por ser surdo. Dediquei tempo a encorajá-­lo. Hoje ele está formado e muito bem.

Tem a expectativa de subir ao pódio máximo, quando o prêmio for dado a um dos dez professores da lista, em dezembro? Eu me sinto merecedora, sim, mas só a visibilidade que meu trabalho está tendo já é um prêmio em si. No Brasil, infelizmente, os bons exemplos não são divulgados e valorizados como deveriam. Mas não gosto de ficar reclamando, prefiro partir para o trabalho. Cresci muito ao sair da minha zona de conforto.

Publicado em VEJA de 18 de novembro de 2020, edição nº 2713

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