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Com atraso, MEC apresenta plano de apoio à alfabetização

Ação estava entre as metas a serem cumpridas nos 100 dias de governo

Por Maria Clara Vieira - Atualizado em 19 fev 2020, 20h44 - Publicado em 18 fev 2020, 19h38

Mais de 400 dias após a posse do presidente Jair Bolsonaro, o Ministério da Educação (MEC) apresentou, nesta terça-feira, 18, o programa Tempo de Aprender, destinado a implantar a Política Nacional de Alfabetização – única medida ligada ao ensino e aprendizado no país listada entre as metas a serem cumpridas nos 100 primeiros dias de governo, completos em abril do ano passado. A apresentação foi realizada pelo secretário de alfabetização, Carlos Nadalim, junto ao ministro Abraham Weintraub.

No auditório do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em Brasília, o secretário apresentou as principais linhas do programa, que incluem a formação de professores por meio de cursos online, a serem iniciados ainda este semestre. Anunciou também a criação de cursos presenciais e à distância para diretores e gestores da rede pública e de ferramentas para construção de aulas, em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG). Nadalim afirmou também que o MEC dará prioridade a avaliação por meio da medida de fluência de leitura dos alunos e oferecerá prêmios por desempenho a professores dos dois primeiros anos do ensino fundamental.

O secretário anunciou também a reformulação do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) e a criação de novos editais alinhados ao programa. No começo deste mês, o ministro aprovou uma portaria permitindo que o MEC possa elaborar os próprios livros, medida que causou alvoroço entre ativistas e estudiosos do tema. Durante a coletiva, Nadalim garantiu que não iria “anunciar material didático elaborado na salinha do secretário”. Ao final da fala, Weintraub afirmou que o educador, dono de uma escola de ensino fundamental em Londrina (PR), foi vítima de preconceito. “Esse jeito meu mais ‘confrontivo’ atrai muita antipatia, mas o Nadalim é um doce de pessoa. O Tito (ursinho de pelúcia mascote do programa de literacia familiar) foi inspirado nele”, disse o ministro.

Desde os primeiros meses de governo, o debate sobre a alfabetização ganhou contornos ideológicos. Carlos Nadalim foi aluno do guru bolsonarista Olavo de Carvalho e é conhecido por defender o método fônico, segundo o qual as crianças devem aprender a ler a partir da memorização dos fonemas associados às letras; e rejeitar o método global, que parte das palavras já formadas para chegar à compreensão do significado. Esta fórmula é associada ao método construtivista, rechaçado por alguns educadores e ativistas à direita.

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Ontem, o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) divulgou uma nota pública afirmando que a estrutura do programa Tempo de Aprender foi apresentada a alguns integrantes da diretoria há menos de um mês e que houve pouco diálogo entre as lideranças estaduais e o ministério. “O programa não foi (…) construído em “parceria” com os secretários de Estado da Educação (…). Por isso, o Consed recebe com cautela e preocupação as ações propostas”, diz o documento. Para a diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (Ceipe) da FGV, Cláudia Costin, o sucesso do programa depende deste alinhamento. “O plano vai na direção certa e tem chances de funcionar se respeitar a realidade de cada município, além de se pautar por um cronograma mais claro”, explicou a especialista, a VEJA.

Atualmente, de acordo com dados da última Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA), cerca de 55% dos alunos que chegam ao 3º ano do ensino fundamental, aos 8 anos de idade, tem conhecimento insuficiente de leitura para sua faixa etária; enquanto metade dos que chegam ao Ensino Médio não possui sequer o nível básico requerido para sua faixa etária.

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