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Livro de Gustavo Ioschpe derruba mitos da educação

Obra reúne artigos em que o autor usa pesquisas e argumentação coerente para mostrar o que vai mal na escola. Leia resenha de VEJA desta semana

As escolas brasileiras permaneceram por séculos como uma caixa-preta inviolável. Não se sabia nem quantas delas havia no país, muito menos o nível do ensino que ofertavam. Esses tempos de escuridão ficaram para trás desde que começou a surgir no Brasil uma profusão de termômetros para medir a qualidade da educação – tão numerosos que um cidadão comum até se perde em meio a tantos indicadores. Não se pode culpar a pobreza estatística, portanto, pela falta de objetividade que ainda domina as discussões sobre as grandes questões da sala de aula. O problema é outro: boa parcela dos educadores prefere manter-se aferrada a bandeiras ideológicas do passado a encarar os fatos mesmo quando eles contrariam suas velhas convicções. O economista e articulista de VEJA Gustavo Ioschpe bate nessa tecla em seu novo livro, O que o Brasil Quer Ser Quando Crescer? (Editora Paralela; 250 páginas; 29,90 reais). O que o distingue da maioria dos que enveredam por essa área é justamente a disposição de encarar os temas mais espinhosos sem se deixar cegar pelas certezas absolutas.

No livro – que reúne 34 artigos publicados em VEJA entre 2006 e 2012 -, Ioschpe se vale de um arsenal de pesquisas e de uma argumentação coerente para desconstruir um a um os mitos que pairam como uma camisa de força sobre o ensino brasileiro. Um deles diz respeito à escassez de dinheiro para a educação – a raiz de nossos males, diria a esmagadora maioria. Pois os números apresentados por Ioschpe demonstram que o Brasil despende para a sala de aula quase tanto quanto o clube dos países mais desenvolvidos da OCDE (5,7% em relação ao PIB nós X 5,8% eles, se comparados os gastos públicos). Mas só se o investimento subir será possível dar o grande salto de que precisamos, muitos ainda insistiriam. Talvez não saibam que, mesmo quando países como China e Coreia do Sul se lançavam em sua exitosa corrida rumo à excelência, não excederam os atuais gastos brasileiros. E, ainda que o Brasil destine mais dinheiro à área, como está previsto, não há garantia de sucesso, alerta Ioschpe. Na última década, o país foi vice-campeão em aumento de recursos para a educação, mas continuou na rabeira do ensino. Os reajustes no salário dos professores tampouco se traduziram em avanços relevantes na sala de aula – nem mesmo nas escolas particulares. Um dos artigos expõe um dado que derruba a crença de que elas são um oásis de bom ensino: os alunos mais ricos do Brasil têm desempenho pior do que os mais pobres dos países que estão no topo.

Não há nada de mirabolante nem de tão dispendioso nas saídas sugeridas por Ioschpe. Trata-se, antes de tudo, de uma mudança de mentalidade – a começar pelos cursos de pedagogia, que preferem perder-se em teorias obsoletas a ensinar aos futuros mestres estratégias para a sala de aula. A experiência internacional indica que os caminhos para o êxito acadêmico passam pelo mais básico: metas de aprendizado, dever de casa, meritocracia. Foi assim que a China alçou seus alunos ao pódio da educação mundial, como mostra um capítulo em que Ioschpe conta o que viu em sua investigação in loco. Aos 35 anos e também autor do livro A Ignorância Custa um Mundo, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti, ele diz atrair mais detratores do que simpatizantes às suas ideias. Não arrefece o tom ácido que permeia seus artigos. “Quero romper com a ideia de que está tudo bem na escola. Os pais têm o papel de cobrar avanços.”