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Enem: medidas rigorosas podem manter credibilidade

Por Cecília Araújo - 1 out 2009, 14h31

O cancelamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que seria realizado neste fim de semana e foi adiado por causa do vazamento da prova, levanta uma questão espinhosa: a credibilidade da prova ficou comprometida por causa do episódio? Para Gustavo Ioschpe, economista especializado em Educação, a reação dos estudantes e demais envolvidos com o exame vai depender das medidas tomadas pelo governo daqui para a frente. “O vazamento da prova foi um episódio isolado. Não chegou a ocorrer a fraude, e a situação foi contornada a tempo. Por isso, não acredito que o incidente chegue a afetar a credibilidade do exame em si”, afirma ele. Por outro lado, Ioschpe alerta que, caso esse deslize tenha potencial de se tornar sistêmico, o Ministério da Educação precisará tomar medidas enérgicas para que a ideia do Enem não fique comprometida.

“Fiquei surpreso ao saber que só existia um modelo de prova. Em minha opinião, deveria haver pelo menos três versões, para que uma delas fosse eleita, no último momento, e efetivamente aplicada”, comenta Ioschpe. Para ele, o fato de haver uma única versão do exame é um incentivo para o estudante desejar obter uma cópia e tomar conhecimento das questões antecipadamente. “Caso existissem outros modelos possíveis de serem aplicados no dia do exame, o vazamento ficaria coibido. Se tivéssemos cinco versões de prova, por exemplo, a probabilidade de as questões vazadas coincidirem com a versão aplicada diminuiria em 20%. Mesmo que ocorresse o vazamento, menos pessoas se interessariam em pagar pelo modelo”, afirma.

Outra saída levantada por Ioschpe seria a realização de provas completamente eletrônicas, como ocorre nos Estados Unidos para o ingresso em escolas de graduação e pós-graduação, como os testes Scholastic Aptitude Test (SAT) e Graduate Record Examination (GRE). “Claro que a disponibilização de mais de 4 milhões de computadores seria inviável. A ideia é que a prova pudesse ser feita em vários dias, desde que previamente agendada pelos estudantes inscritos”, explica. Para isso, o Inep precisaria criar uma nova estrutura, além de ter disponível um banco de dados que reunisse milhares de perguntas a serem escolhidas aleatoriamente. “Mesmo que os arquivos fossem totalmente corrompidos, ninguém teria memória suficiente para arquivar informações de um número tão grande de combinações de questões”, completa Ioschpe.

Justiça – Uma medida importante levantada por Gustavo Ioschpe é a punição rígida aos fraudadores, o suficiente para dissuadir e inibir outras pessoas a tentarem o mesmo. Segundo ele, por mais segura que seja a produção do exame, o processo envolve um número significativo de pessoas que têm contato físico com a prova. “Tudo indica que a culpa foi de um dos vários funcionários que trabalham nesse processo – de feitura da prova, revisão, impressão e transporte. É uma questão de caráter humano, que pode existir em qualquer área de serviço”, lembra o especialista.

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Para Ioschpe, apesar de ter gerado um descontentamento enorme entre a maioria dos estudantes, o cancelamento do Enem não trouxe prejuízo desigual aos alunos. “O desgaste é igual para todos os que se prepararam. O incidente foi um soluço, um tropeço desagradável, mas não chegou a prejudicar ninguém individualmente.”

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