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Em sala, aluno ‘vira’ traficante. E giz, cocaína

Maria Teresa Campos é professora do ensino fundamental na Escola Classe Varjão, na periferia de Brasília. Seus alunos têm entre 9 e 13 anos. Diariamente, ela tem de interromper brigas na classe. Recentemente, porém, veio o pior. Em uma das brincadeiras, os estudantes assumiam o papal de traficantes, utilizando pó de giz – usado pela professora para escrever na lousa – em lugar da cocaína. “Eles tratam as drogas com normalidade”, diz Maria Teresa.

Diante da situação alarmante, a professora se inscreveu no Curso de Prevenção do Uso de Drogas para Educadores de Escolas Públicas – promovido pelo Ministério da Educação (MEC) e pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), em parceria com a Universidade de Brasília (UnB). Na entrevista a seguir, ela conta as dificuldade de lidar com o assunto em sala de aula.

Por que a senhora decidiu fazer o curso de prevenção do uso de drogas?

A escola em que trabalho está localizada em uma comunidade muito carente, um dos lugares mais perigosos de Brasília e, por isso, os problemas com drogas e violência são recorrentes. Muitos pais de alunos bebem, fumam cigarro e também usam drogas ilícitas. As crianças convivem com isso desde pequenas. O vocabulário dos meus alunos chega a me chocar: eles tratam as drogas com normalidade. Quando soube do curso, percebi que tinha tudo a ver com a minha realidade como professora e queria fazer alguma coisa pela escola.

A senhora acredita que o curso está sendo efetivo?

Com certeza. Antes, eu via o problema das drogas como um “bicho-papão”, e o curso me ensinou que não é bem por aí. Temos que falar do assunto com os alunos sem grandes dramas, deixando as coisas parecerem mais claras. O diálogo com a criança e o adolescente é fundamental, assim como arranjar atividades para ocupar o tempo deles e não deixar que se envolvam em ações destrutivas. Na escola, os professores costumavam fazer um sermão quando o assunto é o uso de drogas, falando que quem consome vai acabar na cadeia. Aprendi que o melhor discurso não é esse. Não podemos excluir ou discriminar os usuários de drogas dentro da escola: deve haver uma conversa e a criação de vínculos com os jovens, com o intuito de ajudá-los.

Qual é a realidade de drogas na escola?

Tenho problemas principalmente com os pais. Preciso chamá-los para falar sobre as crianças, e eles aparecem bêbados para a reunião. Também tenho alunos cujos pais estão presos ou ficam no bar até a madrugada, enquanto deixam os filhos na rua. A violência dentro de sala de aula também é constante. Temos problemas de bullying e brigas o tempo todo. Preciso parar a aula diversas vezes para apartar discussões de meninos e meninas e isso atrapalha muito o aprendizado. Ao redor da escola, o tráfico é muito presente. Enquanto as crianças estão entrando ou saindo do colégio, se deparam com situações de venda e consumo de drogas com frequência.

Já existia algum projeto para a prevenção do uso de drogas na escola antes do curso?

Trabalho na Escola Classe Varjão há cinco anos, e não sei de nada que já tenha sido feito.

E depois do curso? O que vai mudar?

Estou iniciando um projeto agora. Penso em realizar algo em 2010, para trabalharmos em grupo e eu poder passar o que aprendi para os demais professores.

Houve algum caso grave de uso ou venda de drogas dentro da escola?

Já houve casos de crianças fumando cigarro ou cheirando vidro de cola tenaz dentro da escola. Na minha turma, as crianças ralavam giz e fingiam que estavam usando e traficando cocaína – e isso já é chocante. Mas não tenho conhecimento de flagarmos criança com droga pesada dentro da escola. Estamos prestando muita atenção no problema do álcool, por conta da recorrência no cotidiano dos pais de nossos alunos.