Volkswagen destina 16 bilhões de euros para mega corte de empregos
Montadora alemã pode eliminar até 60 mil postos e reduzir drasticamente sua produção
A Volkswagen reservou cerca de 16 bilhões de euros (R$ 95 bilhões) para financiar uma profunda reestruturação de suas operações, incluindo cortes de pessoal e a possível desativação de fábricas na Alemanha.
O valor, revelado por fontes à Reuters e inicialmente publicado pela revista alemã Der Spiegel, dá a dimensão da transformação pela qual passa a maior montadora da Europa.
Do total, aproximadamente 10 bilhões de euros (R$ 59,4 bilhões) seriam destinados aos custos relacionados à redução do quadro de funcionários.
Enquanto outros 6 bilhões de euros (R$ 35,6 bilhões) seriam necessários para retirar gradualmente a produção de quatro unidades alemãs: Emden, Zwickau, Neckarsulm e Hanôver. A Volkswagen não confirmou os valores.
O plano é a resposta mais agressiva da companhia a uma combinação de problemas que se agravou nos últimos anos. Avanço dos fabricantes chineses, excesso de capacidade produtiva, custos elevados na Alemanha, tarifas comerciais e dificuldades na transição para veículos elétricos.
Até 60 mil empregos em risco
A nova rodada de cortes pode atingir até 60 mil empregos em todo o mundo, segundo a Reuters. Ela se soma ao programa anunciado anteriormente, que prevê a eliminação de cerca de 50 mil postos na Alemanha até 2030.
Somados, os dois movimentos podem levar à redução de aproximadamente 100 mil postos de trabalho, uma mudança sem precedentes na estrutura da Volkswagen.
A empresa emprega centenas de milhares de pessoas em suas operações mundiais e mantém na Alemanha uma das maiores concentrações de trabalhadores da indústria automobilística europeia.
A dimensão dos cortes evidencia o problema de produtividade enfrentado pela montadora.
A Volkswagen possui uma estrutura industrial muito maior do que a demanda atual exige, particularmente na Europa. A companhia calcula que tenha capacidade para produzir aproximadamente 500 mil veículos a mais do que o mercado consegue absorver.
Quatro fábricas perdem espaço
O futuro das unidades de Emden, Zwickau, Neckarsulm e Hanôver está no centro da reestruturação.
A Volkswagen pretende retirar gradualmente a produção de veículos dessas fábricas ao longo da próxima década e buscar usos alternativos para as instalações.
Segundo as fontes ouvidas pela Reuters, o custo estimado para encerrar a produção seria de aproximadamente 1 bilhão de euros (R$ 5,9 bilhões) em Emden, o mesmo valor em Zwickau e 2 bilhões de euros (R$ 11,9 bilhões) para cada uma das unidades de Neckarsulm e Hanôver.
O movimento é historicamente significativo. A Volkswagen nunca havia enfrentado uma reestruturação dessa magnitude em suas operações domésticas.
O problema chinês
A raiz da crise está, em boa medida, na perda de competitividade da Volkswagen na China. O país durante anos foi um dos principais motores de crescimento da companhia, mas fabricantes locais passaram a dominar segmentos estratégicos, principalmente os de veículos elétricos.
Em 2025, o grupo entregou 2,69 milhões de veículos na China, queda de 8% em relação ao ano anterior. As vendas de modelos totalmente elétricos recuaram ainda mais, para cerca de 115 mil unidades, uma redução de 44,3%.
A dificuldade é particularmente grave porque a China deixou de ser apenas um grande mercado consumidor. O país tornou-se também o principal centro mundial de desenvolvimento de baterias, veículos elétricos e tecnologias automotivas, colocando empresas como BYD, Geely e Nio em posição cada vez mais competitiva.
A Volkswagen tenta reagir desenvolvendo modelos específicos para o mercado chinês e acelerando seus lançamentos. A estratégia, porém, exige investimentos justamente no momento em que a companhia precisa cortar custos.
Uma fábrica grande demais
A Volkswagen está tentando resolver um paradoxo: possui uma estrutura gigantesca, mas não consegue gerar lucro suficiente para mantê-la.
A companhia pretende reduzir pela metade seu número de modelos e diminuir em 75% a complexidade de seu portfólio até 2035. O objetivo é concentrar a produção em veículos de maior volume e reduzir custos de fabricação.
A lógica representa uma mudança radical em relação à expansão que marcou a Volkswagen durante décadas. A montadora construiu sua força justamente a partir de uma ampla variedade de marcas, modelos e fábricas.
Agora, a ordem é inversa: menos modelos, menos fábricas e menos trabalhadores para aumentar a rentabilidade.
Lucro despenca
Os resultados financeiros explicam a urgência.
Em 2025, a Volkswagen teve receita de 322 bilhões de euros (R$ 1,91 trilhão), praticamente estável em relação ao ano anterior.
O lucro operacional, porém, caiu de 19,1 bilhões de euros para 8,9 bilhões de euros (R$ 52,9 bilhões), uma redução de 53%.
A margem operacional despencou de 5,9% para apenas 2,8%.
No primeiro semestre de 2026, a margem operacional ficou em 3,8%, ainda muito distante da meta de 9% estabelecida para 2030. O lucro operacional também recuou no período.
A diferença entre os números atuais e a meta ajuda a explicar o tamanho da reestruturação. A Volkswagen precisa mais que dobrar sua margem em poucos anos.
Alemanha ficou cara
Parte importante do problema está dentro da própria Alemanha.
A Volkswagen afirma que seus custos trabalhistas no país são muito superiores aos de outras unidades europeias. O CEO Oliver Blume já afirmou que os custos de pessoal da companhia na Alemanha são mais que o dobro dos registrados em fábricas europeias comparáveis.
O problema se tornou ainda mais evidente com a concorrência chinesa, que opera com estruturas de custos diferentes e conseguiu reduzir rapidamente o preço e o tempo de desenvolvimento de novos veículos.
A montadora alemã passou, assim, a enfrentar uma combinação difícil: salários elevados, fábricas antigas, energia cara, excesso de capacidade e concorrentes capazes de lançar modelos mais rapidamente.
O custo da transição elétrica
A mudança para os carros elétricos também está no centro da crise.
A Volkswagen conseguiu aumentar em 32% suas vendas de veículos totalmente elétricos em 2025, chegando a cerca de 983 mil unidades. O desempenho, entretanto, não foi suficiente para compensar as dificuldades em mercados importantes.
Na China, justamente onde a transição elétrica avançou mais rapidamente, os fabricantes locais passaram a dominar uma parcela crescente do mercado.
A Volkswagen precisa, portanto, investir simultaneamente em baterias, software, veículos elétricos e novas plataformas enquanto reduz sua estrutura tradicional.
Entre 2027 e 2031, o grupo prevê 135 bilhões de euros (R$ 802 bilhões) em investimentos e pesquisa e desenvolvimento.
O dinheiro será usado para financiar a próxima geração de veículos e tecnologias, enquanto a empresa corta milhares de funcionários e reduz sua capacidade industrial.
A aposta para sobreviver
O plano revela a dimensão da aposta de Oliver Blume. A Volkswagen está tentando gastar menos onde sua estrutura se tornou pesada para liberar recursos para competir onde a indústria está crescendo.
O desafio é fazer isso sem perder capacidade tecnológica nem participação de mercado.
A crise da Volkswagen também ultrapassa a empresa. BMW, Mercedes-Benz, Stellantis e outros fabricantes europeus enfrentam problemas semelhantes, diante da pressão dos chineses, da transição elétrica, dos custos industriais e da fragmentação do mercado.
Para a Volkswagen, porém, a transformação é especialmente dolorosa. A companhia está desmontando parte da estrutura que a tornou uma das maiores fabricantes de automóveis do mundo.







