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Volkswagen destina 16 bilhões de euros para mega corte de empregos

Montadora alemã pode eliminar até 60 mil postos e reduzir drasticamente sua produção

Por Ernesto Neves Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 10 set 2026, 14h10 | Atualizado em 10 set 2026, 14h14
Volkswagen destina 16 bilhões de euros para mega corte de empregos Priorize VEJA no Google

A Volkswagen reservou cerca de 16 bilhões de euros (R$ 95 bilhões) para financiar uma profunda reestruturação de suas operações, incluindo cortes de pessoal e a possível desativação de fábricas na Alemanha.

O valor, revelado por fontes à Reuters e inicialmente publicado pela revista alemã Der Spiegel, dá a dimensão da transformação pela qual passa a maior montadora da Europa.

Do total, aproximadamente 10 bilhões de euros (R$ 59,4 bilhões) seriam destinados aos custos relacionados à redução do quadro de funcionários.

Enquanto outros 6 bilhões de euros (R$ 35,6 bilhões) seriam necessários para retirar gradualmente a produção de quatro unidades alemãs: Emden, Zwickau, Neckarsulm e Hanôver. A Volkswagen não confirmou os valores.

O plano é a resposta mais agressiva da companhia a uma combinação de problemas que se agravou nos últimos anos. Avanço dos fabricantes chineses, excesso de capacidade produtiva, custos elevados na Alemanha, tarifas comerciais e dificuldades na transição para veículos elétricos.

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Até 60 mil empregos em risco

A nova rodada de cortes pode atingir até 60 mil empregos em todo o mundo, segundo a Reuters. Ela se soma ao programa anunciado anteriormente, que prevê a eliminação de cerca de 50 mil postos na Alemanha até 2030.

Somados, os dois movimentos podem levar à redução de aproximadamente 100 mil postos de trabalho, uma mudança sem precedentes na estrutura da Volkswagen.

A empresa emprega centenas de milhares de pessoas em suas operações mundiais e mantém na Alemanha uma das maiores concentrações de trabalhadores da indústria automobilística europeia.

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A dimensão dos cortes evidencia o problema de produtividade enfrentado pela montadora.

A Volkswagen possui uma estrutura industrial muito maior do que a demanda atual exige, particularmente na Europa. A companhia calcula que tenha capacidade para produzir aproximadamente 500 mil veículos a mais do que o mercado consegue absorver.

Quatro fábricas perdem espaço

O futuro das unidades de Emden, Zwickau, Neckarsulm e Hanôver está no centro da reestruturação.

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A Volkswagen pretende retirar gradualmente a produção de veículos dessas fábricas ao longo da próxima década e buscar usos alternativos para as instalações.

Segundo as fontes ouvidas pela Reuters, o custo estimado para encerrar a produção seria de aproximadamente 1 bilhão de euros (R$ 5,9 bilhões) em Emden, o mesmo valor em Zwickau e 2 bilhões de euros (R$ 11,9 bilhões) para cada uma das unidades de Neckarsulm e Hanôver.

O movimento é historicamente significativo. A Volkswagen nunca havia enfrentado uma reestruturação dessa magnitude em suas operações domésticas.

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O problema chinês

A raiz da crise está, em boa medida, na perda de competitividade da Volkswagen na China. O país durante anos foi um dos principais motores de crescimento da companhia, mas fabricantes locais passaram a dominar segmentos estratégicos, principalmente os de veículos elétricos.

Em 2025, o grupo entregou 2,69 milhões de veículos na China, queda de 8% em relação ao ano anterior. As vendas de modelos totalmente elétricos recuaram ainda mais, para cerca de 115 mil unidades, uma redução de 44,3%.

A dificuldade é particularmente grave porque a China deixou de ser apenas um grande mercado consumidor. O país tornou-se também o principal centro mundial de desenvolvimento de baterias, veículos elétricos e tecnologias automotivas, colocando empresas como BYD, Geely e Nio em posição cada vez mais competitiva.

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A Volkswagen tenta reagir desenvolvendo modelos específicos para o mercado chinês e acelerando seus lançamentos. A estratégia, porém, exige investimentos justamente no momento em que a companhia precisa cortar custos.

Uma fábrica grande demais

A Volkswagen está tentando resolver um paradoxo: possui uma estrutura gigantesca, mas não consegue gerar lucro suficiente para mantê-la.

A companhia pretende reduzir pela metade seu número de modelos e diminuir em 75% a complexidade de seu portfólio até 2035. O objetivo é concentrar a produção em veículos de maior volume e reduzir custos de fabricação.

A lógica representa uma mudança radical em relação à expansão que marcou a Volkswagen durante décadas. A montadora construiu sua força justamente a partir de uma ampla variedade de marcas, modelos e fábricas.

Agora, a ordem é inversa: menos modelos, menos fábricas e menos trabalhadores para aumentar a rentabilidade.

Lucro despenca

Os resultados financeiros explicam a urgência.

Em 2025, a Volkswagen teve receita de  322 bilhões de euros (R$ 1,91 trilhão), praticamente estável em relação ao ano anterior.

O lucro operacional, porém, caiu de 19,1 bilhões de euros para 8,9 bilhões de euros (R$ 52,9 bilhões), uma redução de 53%.

A margem operacional despencou de 5,9% para apenas 2,8%.

No primeiro semestre de 2026, a margem operacional ficou em 3,8%, ainda muito distante da meta de 9% estabelecida para 2030. O lucro operacional também recuou no período.

A diferença entre os números atuais e a meta ajuda a explicar o tamanho da reestruturação. A Volkswagen precisa mais que dobrar sua margem em poucos anos.

Alemanha ficou cara

Parte importante do problema está dentro da própria Alemanha.

A Volkswagen afirma que seus custos trabalhistas no país são muito superiores aos de outras unidades europeias. O CEO Oliver Blume já afirmou que os custos de pessoal da companhia na Alemanha são mais que o dobro dos registrados em fábricas europeias comparáveis.

O problema se tornou ainda mais evidente com a concorrência chinesa, que opera com estruturas de custos diferentes e conseguiu reduzir rapidamente o preço e o tempo de desenvolvimento de novos veículos.

A montadora alemã passou, assim, a enfrentar uma combinação difícil: salários elevados, fábricas antigas, energia cara, excesso de capacidade e concorrentes capazes de lançar modelos mais rapidamente.

O custo da transição elétrica

A mudança para os carros elétricos também está no centro da crise.

A Volkswagen conseguiu aumentar em 32% suas vendas de veículos totalmente elétricos em 2025, chegando a cerca de 983 mil unidades. O desempenho, entretanto, não foi suficiente para compensar as dificuldades em mercados importantes.

Na China, justamente onde a transição elétrica avançou mais rapidamente, os fabricantes locais passaram a dominar uma parcela crescente do mercado.

A Volkswagen precisa, portanto, investir simultaneamente em baterias, software, veículos elétricos e novas plataformas enquanto reduz sua estrutura tradicional.

Entre 2027 e 2031, o grupo prevê 135 bilhões de euros (R$ 802 bilhões) em investimentos e pesquisa e desenvolvimento.

O dinheiro será usado para financiar a próxima geração de veículos e tecnologias, enquanto a empresa corta milhares de funcionários e reduz sua capacidade industrial.

A aposta para sobreviver

O plano  revela a dimensão da aposta de Oliver Blume. A Volkswagen está tentando gastar menos onde sua estrutura se tornou pesada para liberar recursos para competir onde a indústria está crescendo.

O desafio é fazer isso sem perder capacidade tecnológica nem participação de mercado.

A crise da Volkswagen também ultrapassa a empresa. BMW, Mercedes-Benz, Stellantis e outros fabricantes europeus enfrentam problemas semelhantes, diante da pressão dos chineses, da transição elétrica, dos custos industriais e da fragmentação do mercado.

Para a Volkswagen, porém, a transformação é especialmente dolorosa. A companhia está desmontando parte da estrutura que a tornou uma das maiores fabricantes de automóveis do mundo.

 

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