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Vilão da degradação ambiental, o plástico ajuda a prevenir o coronavírus

Após anos de campanhas para reduzir o uso do material descartável, o produto voltou com tudo como forma de barreira contra a Covid-19

Por Jennifer Ann Thomas - Atualizado em 10 jul 2020, 09h57 - Publicado em 10 jul 2020, 06h00

Desde agosto de 2015, quando viralizou um vídeo de pesquisadores removendo um canudo da narina de uma tartaruga, não houve material que sofreu maior escárnio público do que o plástico. Em meia década, as campanhas de conscientização sobre os efeitos perversos da poluição — extremamente necessárias em um cenário de sujeira descontrolada — surtiram efeito. Diversas cidades, em diferentes lugares do mundo, incluindo as capitais de São Paulo e Rio de Janeiro, aprovaram legislações específicas para banir o plástico de uso único, a exemplo de canudos e talheres descartáveis. Mas o cenário mudou. Com o avanço da pandemia da Covid-19, o material ressurgiu em variados formatos, mas agora como estratégia de proteção. Barreiras físicas em supermercados, protetores faciais, coberturas em máquinas de pagamentos e vedação em pratos de comida, entre muitos outros usos, tornaram o plástico onipresente na crise do coronavírus. Em questão de meses, a população preparada para eliminar um dos vilões dos oceanos se viu, quase literalmente, embrulhada pelo material.

Todos os anos, 8 milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos. Cerca de 700 espécies que vivem no mar já foram contaminadas pela poluição e quase todas as aves marinhas ingeriram algum material plástico. Os microplásticos, pedaços que se quebram até ficarem com menos de 5 milímetros, foram encontrados na água potável, no ar e nos alimentos, e estão presentes em todos os continentes, até na Antártica. Não à toa, o material foi tratado como praga que deve ser combatida com tenacidade. A pandemia, porém, deu um trégua à busca obsessiva por eliminá-lo. Estima-se que, apenas nos Estados Unidos, a produção de uso único aumente entre 250% e 300% em 2020, de acordo com a Associação Internacional de Resíduos Sólidos. O avanço será puxado por produtos de proteção individual, como máscaras, viseiras e luvas. Os plásticos são essenciais para algumas atividades e precisam ser pensados para ter vida útil longa — ou seja, na contramão dos descartáveis. “O material não pode ser tratado como vilão”, diz o urbanista especializado em gestão ambiental Carlos Henrique Andrade de Oliveira. “Ao mesmo tempo, as empresas devem oferecer opções mais sustentáveis e os consumidores precisam ter hábitos críticos.”

No surto, quando o que está em jogo é a vida humana, a avaliação pode ser mais difícil. Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), em maio houve um aumento de 28% na coleta de resíduos recicláveis, como plástico e papelão, no lixo doméstico. Mas não significa que a reciclagem aconteça — no Brasil, menos de 2% do plástico produzido é recuperado. Para o biólogo e gerente nacional da The Nature Conservancy (TNC) Brasil, Samuel Barreto, é essencial que haja investimento em políticas públicas. “Não adianta exagerar em camadas de embalagens se quem as manuseia pode estar contaminado”, diz. “O vírus está em todos os lugares e sobrevive nas superfícies.”

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O novo desafio é redescobrir em quais situações o material é bem-vindo e as ocasiões em que será, mais uma vez, empregado em demasia. Para a cientista marinha da ONG Oceana, Lara Iwanicki, a pandemia trará a discussão sobre separar a importância para fins sanitários e de saúde daquilo que é evitável. “O material vai fazer parte da vida pós-pandemia e o momento reforça a necessidade de redução de produção”, diz a especialista. “Com a paralisação dos trabalhadores de reciclagem, por exemplo, o sistema entra em colapso.” No momento em que cidades planejam a reabertura e permitem a reaproximação, o plástico tem sido um aliado. Um exemplo é o caso de idosos que puderam sentir o conforto de um abraço após o distanciamento social graças à proteção que o material é capaz de proporcionar. O plástico pode ser nocivo para o planeta, mas agora descobre-se também que ele ajuda a proteger a vida.

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Publicado em VEJA de 15 de julho de 2020, edição nº 2695

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