Varejo à moda antiga: a receita da Lojas CEM para se destacar no mercado
A Lojas CEM combina crédito próprio, disciplina financeira e relacionamento com o cliente para sustentar sua expansão
Em um setor acostumado a associar inovação a rupturas, a Lojas CEM escolheu outro caminho: acreditar mais na evolução do que na revolução. O conceito resume um modelo construído ao longo de sete décadas e baseado em crescimento orgânico, recursos próprios e disciplina financeira. Fundada em 1952 por Remígio Dalla Vecchia como uma loja de bicicletas em Salto, no interior de São Paulo, a varejista permanece sob o controle da família e é administrada de forma colegiada pelos descendentes do fundador.
Em 2025, a rede reportou receita líquida de 5,9 bilhões de reais e lucro líquido de 1,3 bilhão, liderando a categoria varejo no ranking das TOP30, com a maior margem líquida (21,6%) e o menor endividamento (46,9%) do setor. Inaugurou duas lojas no interior paulista e conta com 312 unidades, quase todas em prédios próprios. A expansão também é financiada com o dinheiro em caixa.
Em um cenário de juros altos, inflação e mudanças nos hábitos de consumo, a varejista considera que sua principal vantagem é a confiança dos clientes. A empresa afirma que sua proposta não é competir pelo menor preço, mas transmitir segurança quando a família realiza uma compra cujo valor é relevante para o seu orçamento.
Tal confiança se estende para outro pilar da rede: o crediário próprio. Em vez de ampliar vendas a qualquer custo, a Lojas CEM analisa a capacidade de pagamento dos clientes e evita que caiam numa situação de superendividamento. Essa postura permite atender aqueles com pouco acesso ao crédito, conciliando inclusão financeira e responsabilidade na concessão de financiamento.
Para Hugo Silveira, fundador do Grupo HRZ, consultoria especializada em vendas, o crédito próprio explica a elevada rentabilidade da Lojas CEM. “Ele permite combinar a margem de venda dos produtos com a receita financeira do crediário”, diz. A estratégia é fundamental em períodos de juros altos, como o atual, quando as margens do varejo de bens duráveis ficam mais pressionadas.
A disciplina também orienta a adoção de novas tecnologias. Embora continue sem uma operação de vendas pela internet, a Lojas CEM digitalizou os bastidores: migrou para uma plataforma integrada, automatizou os estoques e aperfeiçoou a logística. Dobrou ainda a capacidade de armazenagem para reduzir prazos de entrega e para ampliar o poder de negociação com fornecedores.
O cenário, porém, segue complexo para o setor. Os juros altos e a inflação resiliente tornam o consumidor mais cauteloso e pressionam o varejo de bens duráveis. A inadimplência dos brasileiros não cede. Ainda assim, a Lojas CEM aposta na confiança dos clientes, na disciplina financeira e no tradicional “carnezinho” para seguir crescendo. “A prioridade é manter o que nos trouxe até aqui: crescimento consciente, sólido e sustentado, no ritmo certo”, afirma a empresa em nota. Afinal, é uma receita que resistiu bem ao tempo.
Publicado em VEJA, agosto de 2026, edição VEJA Negócios nº 29







