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Usineiro ‘vendeu’ jatinho em que estava Campos por US$ 450 mil — mas não recebeu nada

Grupo AF Andrade cedeu aeronave a empresários amigos do candidato morto em acordo que incluía ainda o pagamento de parcelas atrasadas

Por Ana Clara Costa - 21 ago 2014, 23h22

Inferno astral é a expressão mais suave para descrever a situação da família de usineiros de Ribeirão Preto que era dona da aeronave na qual voava Eduardo Campos quando ocorreu o acidente que o matou, na semana passada. O grupo AF Andrade, hoje atolado em dívidas, queria se ver livre das despesas com seu jato Cessna Citation 560XL. Após dois anos de busca, conseguiu, enfim, uma dupla de empresários interessada em adquirir o ‘brinquedo’ avaliado em 9,5 milhões de dólares. A negociação, feita em maio, envolvia o pagamento de oito parcelas atrasadas do leasing do avião e 450.000 dólares em dinheiro aos Andrade. Depois disso, bastava que a Cessna Finance, o braço financeiro da fabricante de jatos, aceitasse a transferência de titularidade entre arrendatários. Como o processo é burocrático, o grupo autorizou que os novos donos saíssem voando, desde que acertassem as parcelas atrasadas. O pagamento de 450.000 dólares seria a próxima etapa. Mas a tragédia que vitimou Eduardo Campos atrapalhou os planos.

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Segundo o advogado dos Andrade no caso, Ricardo Tepedino, nenhum membro da família do usineiro Alexandre Andrade teve contato com Eduardo Campos. “A conversa foi feita por meio de corretor. Eles nunca viram o Eduardo”, disse. O site de VEJA apurou que o grupo esperava apenas a venda do jato para protocolar o pedido de recuperação judicial de suas empresas – o que ocorreu, de fato, há cerca de um mês. Manter a aeronave em solo representava uma despesa que não podia ser paga pelo grupo. Assim, transferi-la a outro dono era questão de primordial. A dupla de interessados em adquirir o jato era formada pelos empresários pernambucanos João Carlos Lyra Pessoa de Melo Filho e Apolo Santana Vieira, amigos de Campos. O único documento que comprova a negociação é uma proposta de compra feita pelos dos empresários, por meio de suas empresas, a BR Par Participações e a Bandeirantes Pneus. Ambos os empresários e as empresas ainda não constam como doadores da campanha presidencial do pernambucano, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

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A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) afirmou que a AF Andrade enviou informações ao órgão relatando a negociação do jato. A documentação está sendo repassada à Polícia Federal, que leva adiante as investigações sobre o caso. Contudo, a Anac afirma que, independentemente das tratativas entre empresários, o operador do avião segue sendo a AF Andrade – e a propriedade é da Cessna Finance Export Corporation. De acordo com a agência, não houve qualquer solicitação de alteração no registro. Tepedino, advogado dos Andrade, afirmou que o grupo chegou a pedir a transferência de arrendatário à Cessna, mas a empresa ainda não havia dado andamento ao pedido.

Além de perder a aeronave e não ter recebido o valor em dinheiro, o grupo Andrade poderá enfrentar ainda um processo por responsabilidade civil e ter grandes dificuldades para acionar o seguro do bem. Diante do alto valor do jato e das condições pouco transparentes com que as negociações com terceiros foram conduzidas, especialistas do setor de seguros afirmaram ao site de VEJA que há uma grande probabilidade de haver disputa judicial em torno do pagamento da apólice. “O risco ao que a aeronave estava sujeita com o grupo Andrade era um. Já com um candidato em plena campanha eleitoral e voando três vezes ao dia, era outro muito maior”, afirma um dos especialistas, que pediu para não ter seu nome revelado.

Na semana passada, o site de VEJA conversou com Fabiano de Camargo Peixoto, piloto do jato até maio deste ano, que contou como havia sido seu último voo no Cessna. “Os donos pediram para que eu levasse a aeronave para o Campos experimentar há três meses. Voamos em São Paulo, ele gostou e o avião já ficou com ele”, afirmou o piloto, que até então desconhecia a origem dos novos ‘proprietários’ da aeronave. “Os donos quase não voavam e a aeronave estava nova. Com a crise, também não tinham dinheiro para pagar o combustível. Aliás, estão há três meses sem pagar ninguém”, disse.

Após o negócio com a aeronave, Peixoto e o comandante André, pilotos dos usineiros, foram dispensados – e a campanha de Campos contratou nova tripulação: entre eles Marcos Martins e Geraldo Cunha, também vítimas do acidente. Os novos pilotos tinham horas de voo suficientes e prática em voar os modelos Cessna, segundo a Anac. Cunha era, inclusive, credenciado nos Estados Unidos pela Federal Aviation Administration (FAA), o órgão federal que regula o setor. Tanto que, apenas uma semana após a compra, Campos já estava voando pelo Brasil com o novo avião. A base da aeronave ficava no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, no hangar da Líder Aviação.

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