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Um guia econômico para a Guerra e a Paz

Segundo Steve Killelea, os custos globais para conter a violência atingiram 9,5 trilhões de dólares — ou 11% do PIB mundial

Por Steve Killelea 22 jun 2014, 14h46

As notícias sobre conflitos enchem as manchetes dos jornais na atualidade: quer seja sobre a guerra civil na Síria, sobre os conflitos internos na Ucrânia, o terrorismo na Nigéria, ou a repressão policial no Brasil; o imediatismo espantoso da violência é realmente muito evidente. Mas, enquanto os comentaristas debatem sobre as questões geoestratégicas, a dissuasão, os conflitos étnicos, a situação desesperada dos cidadãos comuns capturados no meio desses conflitos, raramente o assunto de outro aspecto vital do conflito é abordado objetivamente – o seu custo econômico.

A violência também tem custos financeiros significativos. Os custos globais para conter a violência ou para o tratamento das suas consequências atingiram a incrível soma de 9,5 trilhões de dólares (11% do PIB mundial) em 2012. Este valor representa mais que o dobro do tamanho do setor agrícola a nível global e excede o total de gastos em ajuda externa.

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Levando em conta esses montantes colossais, é crucial que os responsáveis políticos analisem devidamente onde e como esse dinheiro é gasto, e considerem maneiras de reduzir essa cifra. Infelizmente, tais questões são raramente analisadas com a devida seriedade. Esta situação deve-se, em grande medida, ao fato de as campanhas militares serem geralmente motivadas por preocupações de natureza geoestratégica e não de lógica financeira. Embora os opositores à guerra do Iraque possam acusar os Estados Unidos de cobiçar os campos de petróleo do país, a campanha foi, no mínimo, antieconômica. A Guerra do Vietnã e outros conflitos também foram verdadeiras catástrofes financeiras.

Existem perguntas semelhantes em termos de gastos em armas em tempo de paz. Poderíamos, por exemplo, questionar a lógica financeira da recente decisão tomada pela Austrália de gastar 24 bilhões de dólares na aquisição de problemáticos aviões de caça enquanto, simultaneamente, prepara o país para os mais rigorosos cortes orçamentários registados em décadas.

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Os gastos desnecessários relacionados com a violência não são apenas uma questão de guerra ou dissuasão. Por exemplo, as campanhas de “ordem pública”, duras e dispendiosas, embora sejam atrativas para os eleitores, geralmente, têm pouco efeito sobre as taxas de criminalidade subjacentes. Quer seja uma situação de guerra mundial ou de policiamento local, os conflitos envolvem sempre um aumento acentuado nos gastos públicos. A questão é saber se essa despesa vale a pena.

É evidente que gastar dinheiro a fim de conter a violência nem sempre é uma coisa ruim. A presença da polícia, dos serviços militares, policiais ou segurança pessoal são, muitas vezes, uma presença muito bem-vinda e necessária. Se for devidamente aplicada, conduzirá, em longo prazo, à economia do dinheiro dos contribuintes. A questão pertinente é se o montante gasto em cada caso é adequado.

Certamente, poucos países alcançaram um bom equilíbrio ao abordar a questão da violência e o fizeram mediante custos relativamente baixos; isto prova que existem formas de reduzir as despesas desnecessárias. A utilização mais eficiente de fundos pode ser conseguida mediante um trabalho minucioso sobre a prevenção. Sabemos como se sustentam as sociedades pacíficas: a distribuição equitativa de renda, o respeito pelos direitos das minorias, padrões de elevada qualidade no ensino, baixos níveis de corrupção e um ambiente de negócios atrativos.

Além disso, quando os governos gastam demais para conter a violência, desperdiçam dinheiro que poderia ser investido em outras áreas mais produtivas, como a infraestrutura, o desenvolvimento de negócios, ou a educação. A maior produtividade resultará em consequência, por exemplo, com a criação de escolas em lugar de prisões, melhoraria o bem-estar dos cidadãos e, consequentemente, diminuiria a necessidade de investir na prevenção da violência. A isso eu dou o nome de “ciclo virtuoso de paz”.

Comparemos, por exemplo, os quase 10 trilhões de dólares gastos em 2012 no mundo para conter a violência com os custos globais da recente crise financeira mundial. Mark Adelson, o ex-diretor de crédito do Standard & Poors, estima que a crise tenha originado perdas totais globais no valor de 15 trilhões de dólares no período entre 2007 e 2011, o que representa a metade do valor derivado para fins de contenção da violência durante o mesmo período. Se os responsáveis pelas diretrizes políticas gastam o mesmo tempo e dinheiro para prevenir e conter os conflitos, o benefício, em termos de menos violência e de um crescimento econômico mais rápido, poderia ser enorme.

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Os governos poderiam começar por reavaliar as suas despesas em matéria de auxílio. Em termos globais, o valor gasto em contenção da violência já é 75 vezes maior que em ajuda total combinada para o desenvolvimento. Além disso, não é coincidência que os países com maior despesa com violência (em relação ao PIB) figuram também entre os mais pobres do mundo – a Coreia do Norte, a Síria, a Libéria, o Afeganistão e a Líbia, para nomear alguns entre muitos outros. Poderia esse dinheiro ser melhor direcionado para investimentos destinados a reduzir ou a prevenir conflitos?

Além das razões humanitárias óbvias de que é preciso se investir na paz, especialmente no âmbito de estruturas de desenvolvimento internacionais estabelecidas, tal investimento tornar-se visível também uma das formas mais rentáveis de desenvolver a economia e equilibrar o orçamento. É por essa razão que vale a pena discutir este tema.

Steve Killelea é presidente do Instituto de Economia e Paz

(Tradução: Roseli Honório)

© Project Syndicate 2014

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