“Um banco verde olha além do lucro”, diz diretor de sustentabilidade do Santander
Em entrevista ao VEJA+Verde, Leonardo Fleck fala sobre greenwashing e o papel do setor financeiro na transição climática
O mercado de créditos de carbono viveu um susto este ano: a Microsoft, uma das maiores compradoras globais de créditos de remoção de carbono, anunciou a pausa temporária de seu programa de compras. “A Microsoft representa cerca de 80% da demanda por esses créditos no mundo. O anúncio de que pausaria as compras foi, obviamente, um susto para o mercado”, afirma Leonardo Fleck, diretor de sustentabilidade do Santander Brasil, em entrevista ao programa VEJA+Verde. Apesar do abalo, segundo Fleck, a companhia não alterou seu compromisso de redução de emissões — apenas reavalia quais tipos de crédito fazem mais sentido para sua estratégia.
Formado em ciências biológicas e administração de empresas, Fleck construiu uma carreira de mais de 25 anos dedicada à sustentabilidade. Passou por projetos de ecoturismo no Mato Grosso do Sul e na Amazônia, fez mestrado em economia ambiental na Inglaterra e atuou por sete anos numa organização que avaliava o impacto de grandes obras de infraestrutura na América Latina, como a hidrelétrica de Belo Monte.
Depois, passou uma década nos Estados Unidos estruturando o programa de sustentabilidade financeira da fundação da família de Gordon Moore, cofundador da Intel, com projetos em países como China, Indonésia e Brasil. Chegou ao Santander em 2019, convidado pelo então presidente do banco no Brasil, Sérgio Rial, no momento em que o mercado financeiro global começava a tratar a sustentabilidade como prioridade estratégica.
Para Fleck, um banco só pode ser chamado de sustentável se olhar além do lucro, dedicando atenção também às partes interessadas que impactam ou dependem de sua atuação — clientes, funcionários, fornecedores e a sociedade em geral. Essa lógica orienta tanto a análise de risco na concessão de crédito quanto a comunicação de operações como sustentáveis, terreno em que a instituição precisa se blindar contra o greenwashing. “Greenwashing é quando uma empresa diz que é verde, mas não é — ela fala mais do que deveria”, resume o executivo. Para evitar essa armadilha, o Santander adotou em 2022 a taxonomia europeia de sustentabilidade, complementada por outras metodologias reconhecidas no mercado, criando um sistema interno de classificação avaliando operação por operação.
O banco também é um dos maiores financiadores de energia renovável do mundo, segundo Fleck. O Brasil, lembra ele, já tem uma matriz elétrica limpa e uma das maiores taxas de insolação do planeta — vantagens que abrem espaço para financiar não apenas grandes usinas, mas também painéis solares residenciais e para pequenos negócios, segmento que cresceu com a queda do custo dos equipamentos e os incentivos criados no país. O desafio, diz, é acompanhar a demanda crescente de energia gerada pela expansão da inteligência artificial e dos data centers.
Sobre o mercado de carbono, Fleck distingue dois modelos. O regulado, criado por lei no Brasil e ainda em fase de implementação pelo governo, vai obrigar setores prioritários a reduzir emissões e permitirá a comercialização de excedentes. Já o voluntário, mais maduro, passou por uma crise de credibilidade nos últimos anos por causa de projetos florestais sem lastro fundiário adequado — problema que, segundo ele, está sendo corrigido com metodologias mais rigorosas.
Nesse cenário, o episódio da Microsoft ganha outro contorno: para compensar a pausa da empresa, surgiram novas coalizões de compradores, como a Arc, lançada em Singapura, e a Symbiosis, do Vale do Silício, que reúne Microsoft, Google e Meta, entre outras empresas. “Essas coalizões mandam um sinal para o mercado de que existe um grupo grande de organizações interessadas em comprar créditos de alta qualidade”, afirma Fleck.
Fleck também esteve na COP30, em Belém, e destaca o protagonismo do Brasil como provedor de soluções climáticas e o fortalecimento da agenda paralela do evento, que reúne setor privado, sociedade civil e governos subnacionais. Entre as iniciativas de financiamento discutidas na conferência, ele cita o TFFF (Fundo Florestas Tropicais para Sempre, na sigla em inglês), desenhado no Brasil em parceria com o Banco Mundial para levantar capital e, com o retorno desse investimento, financiar a proteção de florestas tropicais na Amazônia, na África Central e no Sudeste Asiático — sem depender de doações. Países como a Noruega já aportaram capital na iniciativa.
Para Fleck, o setor privado — responsável, segundo estimativas, por mais de 80% do capital necessário à transição climática — será decisivo nos próximos anos. “No dia em que poluir custar caro para todo mundo, as pessoas vão pensar duas vezes antes de fazê-lo — e aí, sim, isso se torna sustentável”, diz. “Estou otimista, muito otimista, de que estamos progredindo na direção certa.”
O VEJA+Verde, conduzido por Diogo Schelp, editor de VEJA NEGÓCIOS, traz empresários, personalidades, gestores públicos e especialistas para apresentar suas visões e soluções sobre um dos maiores desafios para a sobrevivência da humanidade: conciliar desenvolvimento econômico e social com preservação do meio ambiente. O programa pode ser assistido toda quinta-feira, às 17h, nos canais Samsung TV Plus canal 2059, LG Channels canal 126, TCL Channel 10031 e Roku 221, além de estar disponível no YouTube de VEJA.







