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Tudo sobe, menos os salários

Os preços seguem em alta e o arrocho reduz a renda das famílias brasileiras, que se adaptam à nova realidade cortando os gastos e o padrão de consumo

Por Marcelo Sakate e Bianca Alvarenga 29 Maio 2015, 22h12

Os últimos meses têm sido estressantes para a família Santos. Ana e Ernesto, pais de Artur, Rafaela e Alexandre, elegeram a educação e a formação dos filhos como o investimento mais valioso que poderiam fazer. Ernesto, dono de uma consultoria de vendas, começou a sentir o aperto no rendimento quando as empresas que o contratavam diminuíram a demanda por serviços. Ao mesmo tempo, as despesas passaram a ficar mais pesadas. Com menos folga no orçamento, a família se viu obrigada a eliminar gastos para manter a faculdade do primogênito, o curso de alemão da filha do meio e a escola do filho mais novo. A primeira medida foi cancelar os cartões de crédito e trocar o plano dos celulares de pós para pré-pago. Depois, o casal diminuiu a frequência dos serviços da faxineira e, por fim, cancelou a TV a cabo. “É doloroso cortar coisas com as quais nos acostumamos, mas, quando as contas não param de aumentar, é preciso fazer escolhas”, diz Ana.

As mudanças de hábitos da família Santos representam um microcosmo do novo padrão de consumo dos lares brasileiros nos últimos meses, com reflexos sobre toda a economia. Em bares e restaurantes badalados, as filas minguaram. Dois em cada três brasileiros reduziram os gastos com lazer fora de casa, segundo dados da consultoria Nielsen. O consumo arrefeceu, diminuindo também o tráfego de veículos comerciais nas estradas. Até mesmo os infernais congestionamentos de São Paulo estão menos intensos nos horários de pico neste ano. São sinais de que a retração na atividade econômica chegou definitivamente à casa dos brasileiros, e as famílias fazem bem em se ajustar. “Para que o dinheiro renda o máximo, é preciso que o consumo seja consciente – isto é, separar o que é essencial do que é ostentação, o chamado bem posicional”, afirma William Eid Junior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas. “Sempre dá para procurar um restaurante que não seja o mais caro”, diz o economista. São tempos difíceis corroborados pelos números fracos generalizados da atividade.

Os dados sobre o desempenho da economia no primeiro trimestre do ano, divulgados na sexta-feira, mostraram uma queda de 0,9% no consumo das famílias em relação ao mesmo período de 2014. Foi o pior resultado desde 2003. O produto interno bruto (PIB) como um todo recuou 1,6%. Se o calendário de doze meses acabasse em março, a economia brasileira teria encolhido 0,9%. Não existem mais dúvidas. O país está em recessão. O desemprego aumentou, e os rendimentos reais (descontada a inflação) estão em queda. As dificuldades para as famílias são ainda maiores por causa da inflação. Uma comparação entre os preços anunciados pelos supermercados e lojas hoje e há um ano revela o reajuste expressivo no custo de alguns itens de consumo comuns no cotidiano da classe média, sem falar na alta pesada no preço das tarifas de energia e água. O arrocho é ainda mais doloroso porque as famílias haviam se acostumado a um novo padrão de consumo, com viagens internacionais, carro novo na garagem, aquisição de produtos eletrônicos de última geração, saúde e ensino privados de melhor qualidade. A ascensão da classe média havia colocado o Brasil no radar das maiores empresas do mundo. O governo ajudou a impulsionar esse movimento, ao incentivar a concessão de crédito, sobretudo pelos bancos públicos. Mas a capacidade de gastar do brasileiro chegou a um limite.

Arte- Os sinais da crise
Arte- Os sinais da crise VEJA

O desemprego subiu, mas não houve demissões em massa. O maior tormento dos orçamentos familiares é a inflação. O índice em doze meses está em 8,2%, muito acima do teto da meta oficial do Banco Central, que é de 6,5%. E ela não deve ficar abaixo de 8% antes do próximo ano, segundo analistas. Muito além da taxa oficial, no entanto, foram os aumentos de preços de produtos e serviços que fazem parte da cesta de consumo da maior parte da população. A conta de luz subiu 60% nos últimos doze meses; a refeição em restaurantes, 11%; e o plano de saúde, 10%. Ao mesmo tempo, a renda média de quem estava empregado caiu 3%. “O encarecimento de itens essenciais como a energia elétrica e a gasolina tira uma parte do orçamento doméstico. É possível gastar menos com supérfluos, mas não dá para cortar a eletricidade”, diz Rodrigo Baggi, economista da consultoria Tendências. Segundo cálculos da empresa, hoje 67% da renda das famílias está comprometida com o consumo de bens e serviços essenciais, e outros 30%, com o pagamento de dívidas (o dado do Banco Central indica que essa fatia é de 22,4% e está crescendo). “A parcela de recursos que sobra para o consumo de outros bens é muito pequena. Além disso, a confiança das famílias está em um nível baixíssimo e não há perspectiva de melhora no curto prazo. Há muito pessimismo”, afirma Baggi.

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