Trump libera importação de carne para tentar baixar preços nos EUA, Brasil pode se beneficiar
Presidente americano autoriza entrada de até 300 mil toneladas de carne moída sem cobrança de tarifas mais altas
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira, 21, uma medida para tentar conter a alta do preço da carne bovina no país.
A administração americana permitirá, durante os próximos 90 dias, a importação de até 300 mil toneladas de carne moída sem a incidência das tarifas mais elevadas previstas pelo sistema americano de cotas.
Trump afirmou em uma publicação nas redes sociais que existe um compromisso de que a carne importada seja vendida aos consumidores americanos 25% abaixo dos preços atuais de mercado.
A medida ocorre em meio à disparada dos preços da carne bovina nos Estados Unidos e à menor oferta de gado do país em décadas.
Segundo dados do Departamento de Agricultura americano (USDA), o rebanho americano começou 2026 com cerca de 86,2 milhões de bovinos e bezerros, o menor nível desde os anos 1950.
O preço da carne moída chegou a US$ 6,89 por libra em julho, alta de 10% em relação ao mesmo mês do ano passado.
A decisão cria uma oportunidade para grandes exportadores de carne bovina, entre eles o Brasil, mas também expõe uma contradição da política comercial de Trump.
Depois de elevar tarifas para proteger a produção americana, o governo agora precisa abrir espaço para produtos estrangeiros para tentar reduzir a inflação.
Brasil pode ganhar espaço
O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina e tem capacidade para responder rapidamente a mudanças na demanda internacional.
A decisão americana, porém, não significa automaticamente que as 300 mil toneladas serão destinadas ao Brasil. Os Estados Unidos mantêm regras sanitárias e comerciais específicas para seus fornecedores, e a quantidade que cada país poderá enviar dependerá das condições de acesso ao mercado.
Ainda assim, a medida é relevante para frigoríficos brasileiros porque amplia a possibilidade de participação em um mercado que está enfrentando uma escassez estrutural de gado.
O movimento também pode aumentar a disputa internacional pela carne brasileira. Se os Estados Unidos ampliarem suas compras, exportadores de outros países poderão redirecionar cargas para mercados atualmente abastecidos pelo Brasil.
Isso pode afetar preços internacionais e mudar a rentabilidade das exportações brasileiras.
Por que falta carne nos Estados Unidos
A origem da crise está no tamanho do rebanho.
Anos de seca e condições financeiras ruins levaram pecuaristas americanos a reduzir seus rebanhos.
Reconstruir essa oferta não é uma tarefa rápida: mesmo que os produtores comecem imediatamente a reter fêmeas e aumentar a criação, são necessários aproximadamente dois anos para que o aumento do rebanho se transforme em maior oferta de carne.
É justamente essa defasagem que torna a importação a alternativa mais rápida para aumentar a oferta disponível aos consumidores.
O problema também chegou aos frigoríficos.
A Tyson, uma das maiores processadoras de carne dos Estados Unidos, fechou na semana passada uma grande unidade de processamento em Illinois. Foi a segunda fábrica da companhia encerrada neste ano.
A menor oferta de gado aumenta o custo da matéria-prima para os frigoríficos e reduz as margens de processamento.
Trump já tentou outras soluções
A importação de carne é apenas uma das medidas adotadas pela administração Trump para tentar reduzir os preços.
O Departamento de Justiça abriu uma investigação antitruste contra as maiores empresas americanas de processamento de carne depois de Trump acusar o setor de contribuir para a alta dos preços.
O governo também anunciou planos para financiar frigoríficos menores, numa tentativa de aumentar a concorrência no setor.
Outra frente envolve o México.
O Departamento de Agricultura americano anunciou no mês passado que pretende reabrir os portos de entrada para bovinos mexicanos, depois que as importações haviam sido suspensas por preocupações com a disseminação de uma praga parasitária que pode provocar ferimentos graves nos animais.
O gado mexicano representa aproximadamente 5% dos bovinos processados nos Estados Unidos.
Protecionismo dá lugar à necessidade de oferta
A decisão desta sexta-feira também mostra o dilema enfrentado pelo governo americano.
A política comercial de Trump tem priorizado tarifas e proteção da indústria doméstica. Mas, no caso da carne bovina, a produção americana não consegue aumentar rapidamente porque o problema está na quantidade de animais disponíveis.
A consequência é que tarifas elevadas sobre carne importada acabam encarecendo ainda mais um produto que já está pressionando o orçamento das famílias.
O governo havia planejado em maio suspender temporariamente o sistema de cotas que aumenta as tarifas depois que determinado volume de carne é importado. A iniciativa foi adiada após resistência de parlamentares republicanos e grupos de pecuaristas.
Agora, Trump optou por uma medida temporária e mais limitada, autorizando até 300 mil toneladas de carne moída por 90 dias.
A decisão deverá ser acompanhada de perto pelos pecuaristas americanos, que defendem uma solução diferente: reconstruir o rebanho doméstico.
Esse processo, porém, leva tempo.
O que está em jogo para o Brasil
Para o Brasil, a decisão americana abre uma questão estratégica.
O país vem ampliando sua presença no mercado internacional de carne bovina e, nos últimos anos, diversificou seus compradores.
Uma abertura maior do mercado americano pode criar uma nova frente de crescimento para os frigoríficos brasileiros, desde que as condições tarifárias e sanitárias permitam.
O movimento também mostra a importância crescente da carne brasileira em um mercado mundial marcado por restrições de oferta.
Mas há um segundo efeito possível: se os Estados Unidos aumentarem suas compras de carne no mercado internacional, a concorrência pelos animais e pela carne pode aumentar em outros mercados, pressionando os preços globais.
Para os pecuaristas brasileiros, isso pode significar preços melhores. Para os consumidores, porém, a mesma dinâmica pode representar carne mais cara.
A medida de Trump, portanto, não resolve o problema estrutural americano. Ela compra tempo.
A reconstrução do rebanho dos Estados Unidos pode levar anos. Até lá, o país terá de escolher entre aceitar preços elevados ou recorrer cada vez mais à carne produzida no exterior.
E, nesse segundo cenário, o Brasil está entre os países que mais têm a ganhar.







