Trump diz já ter destino para bilhões de barris de petróleo da Venezuela
Acordo amplia a influência de Washington sobre a indústria petrolífera venezuelana e pode redefinir a estratégia energética americana
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que pretende usar petróleo da Venezuela para recompor a Reserva Estratégica de Petróleo dos Estados Unidos (SPR, na sigla em inglês), que foi fortemente reduzida nos últimos anos e hoje opera com menos da metade de sua capacidade.
A declaração ocorre poucos dias depois de Washington anunciar um acordo com Caracas que prevê participação majoritária americana em projetos com acesso a mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas venezuelanas.
“Uma das coisas que vou fazer com o petróleo venezuelano é encher as Reservas Estratégicas Nacionais”, escreveu Trump no domingo, em sua rede social. O presidente afirmou que o processo de recomposição começará “muito em breve”.
A declaração, porém, não significa que os Estados Unidos terão acesso imediato a dezenas de bilhões de barris.
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O acordo anunciado por Trump ainda depende da recuperação da infraestrutura petrolífera venezuelana, de investimentos e da definição de contratos e estruturas de operação.
Especialistas ouvidos pela Reuters questionam justamente quanto tempo será necessário para que o pacto produza volumes relevantes de petróleo.
O estoque da reserva estratégica americana estava em 289,7 milhões de barris na semana encerrada em 21 de agosto, segundo a Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA).
É o menor nível desde o início dos anos 1980 e representa cerca de 40% da capacidade autorizada do sistema, de 714 milhões de barris.
A diferença em relação ao início do governo de Joe Biden é expressiva. Em janeiro de 2021, a SPR armazenava mais de 638 milhões de barris. Ao final daquele mandato, o volume havia caído para menos de 395 milhões.
Parte relevante da redução ocorreu durante a resposta americana à alta dos preços de energia provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia, quando Washington liberou grandes volumes para aumentar a oferta de petróleo e conter a pressão sobre os combustíveis.
A reserva foi criada justamente como uma espécie de seguro contra interrupções no abastecimento. O petróleo fica armazenado em cavernas subterrâneas de sal em quatro instalações na costa do Golfo do México e pode ser liberado em situações de emergência. Sua capacidade autorizada é de 714 milhões de barris.
O acordo com a Venezuela
O anúncio sobre a SPR é consequência de um acordo muito mais amplo entre Washington e Caracas. Na sexta-feira, Trump afirmou que os Estados Unidos haviam obtido controle majoritário sobre mais de 65 bilhões de barris das reservas comprovadas da Venezuela — cerca de um quinto do estoque do país, que possui as maiores reservas de petróleo do mundo.
O plano prevê uma parceria entre o governo americano, empresas privadas e o governo venezuelano para desenvolver 17 campos de petróleo. A administração Trump afirma que a iniciativa poderá atrair cerca de US$ 100 bilhões em investimentos e ampliar a produção venezuelana, hoje limitada pela deterioração da infraestrutura e pela falta de investimentos.
A Venezuela, por sua vez, estima que o projeto poderá gerar US$ 209 bilhões em receitas tributárias para o governo.
A presidente interina Delcy Rodríguez apresentou o acordo como uma tentativa de reconstruir a indústria petrolífera do país e recuperar a capacidade de produção.
O modelo, entretanto, ainda é pouco transparente. A Reuters informou nesta segunda-feira que especialistas em energia e advogados questionam a legalidade e a execução do acordo e defendem que os contratos sejam divulgados.
A negociação não passou por um processo competitivo e ocorreu paralelamente a uma reforma da legislação petrolífera venezuelana.
Outro ponto de incerteza é a própria capacidade da Venezuela de transformar reservas em produção.
O país possui uma quantidade extraordinária de petróleo no subsolo, mas sua indústria foi degradada por anos de falta de investimentos, sanções, problemas de infraestrutura e dificuldades operacionais.
O acordo, portanto, pode ampliar significativamente a oferta futura, mas não resolve de imediato a escassez de petróleo disponível para a reserva americana.
Pressão sobre os preços
A iniciativa também ocorre em um momento de forte preocupação de Washington com o preço dos combustíveis.
A guerra entre Estados Unidos e Irã e a instabilidade no Estreito de Ormuz voltaram a pressionar o mercado internacional de petróleo. O Brent chegou a superar US$ 90 por barril nesta segunda-feira após novos ataques americanos contra alvos iranianos.
Nesse contexto, a Venezuela ganha importância estratégica para Trump.
Além de possuir as maiores reservas de petróleo do mundo, o país está geograficamente próximo dos Estados Unidos, o que reduz a distância em relação a fornecedores do Oriente Médio e pode facilitar o abastecimento das refinarias americanas, especialmente as adaptadas para processar o petróleo pesado venezuelano.
A recuperação da SPR, portanto, tem uma dimensão que vai além da formação de um estoque de emergência.
Para Trump, o acordo com Caracas combina segurança energética, tentativa de ampliar a oferta de petróleo e uma estratégia de maior controle americano sobre a produção de energia no hemisfério ocidental.
Ainda assim, a distância entre as reservas anunciadas e o petróleo efetivamente disponível é significativa.
Os 65 bilhões de barris representam uma quantidade de recursos no subsolo, não um estoque que possa ser bombeado imediatamente para as cavernas da SPR.
A transformação desse potencial em produção dependerá de investimentos, recuperação dos campos e da infraestrutura venezuelana e de contratos que ainda precisam ser detalhados.
A própria escala da reserva americana ajuda a dimensionar o desafio.
Mesmo que os EUA conseguissem utilizar integralmente o petróleo venezuelano associado ao acordo, a SPR tem capacidade física para armazenar 714 milhões de barris. Ou seja, o volume anunciado por Trump é cerca de 90 vezes superior à capacidade atual da reserva estratégica americana.
Por isso, o anúncio representa mais uma promessa de mudança na trajetória energética dos Estados Unidos do que uma solução imediata para recompor a reserva.
A questão central agora é quanto petróleo a Venezuela conseguirá efetivamente produzir e quanto desse volume poderá chegar aos Estados Unidos nos próximos anos.







