Trump ataca JBS e MBRF em plano para reduzir concentração no mercado de carne
JBS está entre as quatro empresas que concentram cerca de 85% do processamento bovino americano
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira (28) que pretende adotar medidas para permitir que pecuaristas e agricultores processem e comercializem sua própria carne, em uma tentativa de reduzir o poder das grandes empresas que dominam o processamento de carne bovina no país. Entre elas estão as brasileiras JBS e MBRF.
Trump afirmou que autorizou a elaboração de documentos legais para enfrentar o que chamou de um “monopólio nefasto” formado pelas grandes processadoras de alimentos.
O presidente não detalhou o conteúdo nem o cronograma da medida, mas disse que pretende dar aos produtores mais alternativas para abater e processar seus animais sem depender das grandes companhias.
O anúncio ocorre em meio à forte alta do preço da carne bovina nos Estados Unidos.
Quatro empresas — JBS USA, Tyson Foods, Cargill e National Beef Packing — respondem por cerca de 85% do processamento de carne bovina do país, segundo dados citados pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
A concentração não significa que as quatro empresas controlem toda a cadeia da carne americana nem que exista, até o momento, uma conclusão oficial de que formem um cartel.
O ponto de preocupação do governo é o elevado poder de mercado dos grandes frigoríficos na compra do gado dos pecuaristas e no processamento dos animais.
JBS no centro da disputa
A presença da JBS tornou a discussão particularmente relevante para o Brasil. A empresa brasileira é uma das maiores processadoras de carne bovina dos Estados Unidos e opera por meio da JBS USA.
A companhia mantém nove unidades de processamento de carne bovina no país, com capacidade para processar cerca de 28 mil cabeças de gado por dia.
As operações americanas fazem parte de uma plataforma global que, segundo a própria empresa, tem capacidade agregada para processar mais de 78 mil bovinos diariamente em diferentes países.
A JBS, portanto, não é uma empresa estrangeira que simplesmente exporta carne para os Estados Unidos. Ela possui uma extensa estrutura produtiva instalada no país e compra gado de pecuaristas americanos para abastecer o mercado local.
A companhia também passou por uma reorganização societária em 2025.
A JBS N.V. tornou-se a holding do grupo, com ações negociadas na Bolsa de Nova York e BDRs na B3. A estrutura preservou o controle indireto da J&F, holding dos irmãos Joesley e Wesley Batista.
Já a concorrente National Beef Packing é controlada pela também brasileira MBRF, gigante dos alimentos formada pela fusão entre Marfrig e BRF.
Por que Trump está atacando os frigoríficos
O movimento ocorre em um momento particularmente difícil para o mercado americano de carne bovina.
O rebanho dos Estados Unidos caiu para cerca de 86,2 milhões de cabeças, o menor nível em 75 anos. A combinação de seca, incêndios, redução do rebanho e restrições à entrada de gado do México reduziu a oferta de animais para os frigoríficos.
A escassez elevou o preço do gado e, consequentemente, o custo da carne para os consumidores.
O preço da carne moída chegou a cerca de US$ 6,89 por libra em julho, segundo dados do governo americano, equivalente a aproximadamente US$ 15,19 por quilo.
Em cinco anos, o preço da carne moída subiu 57%, enquanto cortes de bife tiveram alta de 35%, segundo a Associated Press.
A pressão sobre os preços também tem um componente estrutural: reconstruir o rebanho americano é um processo demorado.
Mesmo com sinais iniciais de recuperação do número de animais, o governo estima que a produção de carne bovina cairá cerca de 4% em 2026.
Trump tenta, portanto, atuar simultaneamente sobre oferta e estrutura de mercado.
Nesta semana, o governo anunciou a ampliação temporária da cota de importação de cortes de carne bovina magra em 300 mil toneladas, com o objetivo de aumentar a oferta e reduzir os preços.
A medida provocou reação negativa entre organizações de pecuaristas americanos, que temem a concorrência de produtos importados.
A concentração do setor
A concentração da indústria de processamento de carne bovina americana não é recente.
Durante décadas, frigoríficos de grande escala ganharam espaço porque conseguem operar plantas de abate e processamento com enormes volumes, distribuir produtos nacionalmente e negociar com grandes redes de supermercados e restaurantes.
Para os pecuaristas, o problema é que poucas empresas concentram a demanda pelos animais.
Isso pode reduzir o número de compradores disponíveis em determinadas regiões e aumentar o poder de negociação dos frigoríficos na definição do preço pago pelo gado.
Para os consumidores, a questão é diferente: a concentração pode dificultar a entrada de concorrentes e reduzir a competição ao longo da cadeia.
O governo americano investiga desde o ano passado se empresas do setor adotaram práticas para elevar ilegalmente os preços da carne.
O governo já vinha tentando ampliar a capacidade de pequenos e médios frigoríficos.
Em julho, o USDA anunciou um programa de apoio a processadores menores e destacou que quatro empresas respondem por quase 85% do mercado de carne bovina.
A proposta anunciada por Trump vai além do financiamento a novos frigoríficos.
A ideia é facilitar que os próprios pecuaristas processem e vendam a carne, inclusive ampliando a possibilidade de comercialização entre diferentes estados.
A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, afirmou que o governo pretende anunciar novas medidas sobre o processamento de carne a partir da próxima semana.
O desafio regulatório
Há, porém, um obstáculo importante. O processamento e a comercialização interestadual de carne nos Estados Unidos estão submetidos a regras de inspeção sanitária do USDA.
Permitir que produtores contornem determinadas exigências exigiria mudanças regulatórias relevantes e poderia provocar resistência da indústria e de autoridades sanitárias.
O Meat Institute, que representa a indústria americana de processamento de carne, já alertou que mudanças que permitam a entrada de carne sem inspeção adequada poderiam comprometer a segurança dos alimentos e a confiança dos consumidores.
Além disso, reduzir a concentração do mercado não resolve, por si só, o principal problema que levou a carne aos preços atuais: a falta de gado.
A ofensiva de Trump contra os grandes frigoríficos mistura, assim, dois problemas distintos: o aumento dos preços provocado pela escassez de gado e a concentração histórica da indústria de processamento.







