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Troca de farpas entre Guedes e Campos Neto cria tensão na área econômica

O ministro e o presidente do BC vivem jogo de empurra por maus resultados — quando o foco deveria ser trabalharem unidos para corrigir os problemas

Por Victor Irajá, Carlos Valim
Atualizado em 17 dez 2021, 10h14 - Publicado em 17 dez 2021, 06h00

De tempos em tempos, a área econômica do governo é minada por cizânias que brotam em meio à condução da pauta do ministro Paulo Guedes ou por percalços que surgem nesse processo. Por exemplo, quando a sua prioridade era evitar o aumento de gastos no governo, Guedes trombou com os companheiros de pastas Rogério Marinho e Walter Braga Netto em desgastantes disputas que azedaram o clima de várias reuniões ministeriais. Recentemente, o foco passou a se ater a um personagem inesperado, exatamente um dos raros remanescentes entre os indicados originalmente por Guedes para compor o primeiro escalão do governo. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, entrou na mira por causa da alta da inflação, que tem se mantido acima dos 10% no acumulado de doze meses, levando a uma perda do poder de compra da população e respingado na aprovação do governo.

REAÇÃO - Campos Neto: o risco fiscal e o travamento das reformas dificultam a retomada -
REAÇÃO - Campos Neto: o risco fiscal e o travamento das reformas dificultam a retomada – (Raphael Rbeiro/BCB/.)

Fazia mais de um mês que o ministro, em conversas privadas, vinha demonstrando insatisfação com a condução da política monetária por Campos Neto. Diz ele que o presidente do BC foi influenciado negativamente pelas decisões de instituições monetárias de países desenvolvidos. Guedes refere-se aos bancos centrais dos Estados Unidos, cuja taxa básica de juros está entre 0% e 0,25%, e da União Europeia, com taxas entre -0,5% e 0%. Dessa forma, o BC brasileiro, com uma realidade bastante diversa da de seus correlatos, teria exagerado em baixar as taxas de juros a apenas 2% em meados de 2020 e depois teria demorado a reagir diante da ameaça do aumento da inflação. Tais opiniões antes reservadas transformaram-se em recados mais diretos e públicos nos últimos dias. “Os bancos centrais e os Tesouros estão achando que estão fazendo um grande trabalho. Vão descobrir brevemente que dormiram ao volante”, criticou o ministro, em um raciocínio que não excluiu a instituição brasileira.

Campos Neto, por sua vez, também tem sutilmente criticado o governo, e por extensão o Ministério da Economia, por ter tratado o risco fiscal de maneira desastrosa, ao buscar formas de financiar o programa social Auxílio Brasil, e com isso contribuir para o plano de reeleição do presidente Jair Bolsonaro. Desde o início do ano, as instabilidades nos mercados só aumentaram, afugentando investidores e valorizando o dólar perante o real, o que causa inflação. Por causa disso, os comunicados oficiais do BC seguidamente justificam a necessidade dos recentes aumentos mais drásticos da taxa Selic — que vai fechar 2021 em 9,25% — como única alternativa, mesmo que isso comprometa a atividade econômica.

Na ata da reunião que explicou o último aumento, apareceu mais um recado do BC. Desta vez, quanto à estagnação da agenda de reformas que garantiria maior racionalização das contas públicas. “O esmorecimento no esforço de reformas estruturais e alterações de caráter permanente no processo de ajuste das contas públicas podem elevar a taxa de juros estrutural da economia”, diz o documento do BC. Campos Neto ainda declarou, na terça-feira 14, em evento do Tribunal de Contas da União (TCU), que “voltamos ao problema de crescimento estrutural baixo no país”, num discurso que contradiz as falas mais otimistas de retomada econômica de Guedes.

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O jogo de empurra em torno dos maus resultados da economia, protagonizado por Guedes e Campos Neto, é controverso. Enquanto o chefe da Economia tenta se eximir de responsabilidades que também são suas, os comunicados da autarquia entram em terreno movediço. “O BC tem de se preocupar com política monetária. Se houver mais reformas, ótimo. Mas cada um tem o seu papel, e o BC tem de se ater ao seu. Não cabe a ele criticar o governo ou o Congresso”, afirma Carlos Thadeu de Freitas Gomes, ex-diretor da instituição. A rixa chama ainda mais a atenção pelo fato de os dois personagens terem desenvolvido uma relação que vai além da amistosa nos últimos anos.

No Ministério da Economia, assessores de Guedes afirmam que a relação dos dois é de confiança e de amizade. Por sua vez, Campos Neto já blindou o ministro de uma saída forçada do governo quando políticos e grandes nomes do mercado financeiro incentivavam a troca de Guedes por ele. Na ocasião, Campos Neto deixou imediatamente claro que não aceitaria o posto em hipótese alguma. A classe política costuma dedicar maior simpatia ao presidente do BC, por considerá-lo de mais fácil trato do que Guedes. Ele também já demonstrou ser capaz de circular mais confortavelmente em Brasília e chegou a participar de um churrasco com Ciro Nogueira, grande nome do Centrão, logo que este assumiu a Casa Civil. No entanto, ao acenar que não se interessaria pelo comando da Economia, acabou deixando de mãos atadas quem procurava derrubar Guedes.

CONTA CARA - Cliente em supermercado: o consumidor perdeu o poder de compra, o que prejudica a atividade econômica -
CONTA CARA - Cliente em supermercado: o consumidor perdeu o poder de compra, o que prejudica a atividade econômica – (Eduardo Matysiak/Futura Press/.)

Na tensão das últimas semanas, os dois expoentes da área econômica têm alguma razão em suas alegações. De um lado, ex-presidentes e diretores do BC ouvidos por VEJA concordam que a baixa da Selic foi excessiva e durou mais do que deveria. “Quando se percebia o preço de todas as commodities subindo ao mesmo tempo, dava para se suspeitar do exagero na dose”, comentou um ex-­presidente do BC nacional que prefere não se identificar. Ainda assim, os especialistas na área reconhecem que o cenário da pandemia prejudicou enormemente essa capacidade de previsão.

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Do outro lado, está claro que, ao não combater o risco fiscal e as instabilidades, Guedes jogou contra o real e deixou o BC trabalhando sozinho para conter a inflação. “Analisando em retrospecto, o BC entrou atrasado e deveria ter começado a subir os juros mais cedo. Porém se me perguntassem no começo do ano, estaria com o BC”, diz Alexandre Schwartsman, ex-diretor de assuntos internacionais da instituição. “A maior parcela da responsabilidade, no entanto, está do lado da política fiscal. Existe um problema sério aí.”

Repassar culpas em momentos de crise é quase sempre um esforço infrutífero. Ainda mais quando a raiz do problema está mais acima. O fato é que o presidente Jair Bolsonaro jogou contra a estabilidade econômica ao convocar manifestações massivas que ameaçaram as instituições e assus­ta­ram investidores, bem quando a crise sanitária causada pela pandemia estava esvanecendo e abriria espaço para uma retomada econômica. Ele também não demonstrou nenhum apoio forte à reforma administrativa, que ajustaria os gastos com os servidores públicos. E só se empenhou, de fato, com a pauta econômica para encontrar espaço no Orçamento com o objetivo de obter mais recursos para gastar. Tudo com o olho apenas em sua reeleição, não na melhoria das condições econômicas que Guedes e Campos Neto genuinamente desejam promover.

Publicado em VEJA de 22 de dezembro de 2021, edição nº 2769

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