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Tereza Cristina se desdobra para defender o agronegócio brasileiro

A ministra da Agricultura tenta impedir que a crise ambiental afete exportações e a abertura de mercados

Por Edoardo Ghirotto - Atualizado em 30 jul 2020, 19h39 - Publicado em 20 set 2019, 06h30

Tereza Cristina, ministra da Agricultura, embarcou no último dia 11 rumo à primeira viagem internacional após a crise ambiental e política em torno do desmatamento na Amazônia. No tour por quatro países do Oriente Médio, ela não tem gastado tempo apenas costurando acordos comerciais. Parte considerável do trabalho envolve um esforço diplomático para tratar das queimadas que avançaram sobre áreas de proteção ambiental e que foram manchete na imprensa internacional. Sempre que é indagada sobre esses problemas por autoridades no exterior, Tereza Cristina não nega a realidade. Admite a ocorrência de incêndios no Brasil, mas ressalta que houve excesso no que foi noticiado. Faz também questão de lembrar que os focos na Bolívia foram muito mais graves e chama atenção para o fato de este ser um ano de clima especialmente seco. Por fim, reitera que o Brasil está comprometido em combater os crimes ambientais na região. Ainda que o governo envie sinais contraditórios nessa direção (entre outras coisas, Bolsonaro já desautorizou ações do Ibama contra madeireiros ilegais), as explicações parecem ter soado satisfatórias aos árabes. Tanto que a ministra deve voltar para o Brasil no dia 23 com acordos para abrir o mercado egípcio aos lácteos e exportar ovoprodutos, castanhas e frutas para os sauditas.

A atuação de Tereza Cristina para reduzir danos e apagar focos de incêndio na imagem do agronegócio começou antes do giro pelo Oriente Médio. Há duas semanas, no auge da crise, a ministra tomou a iniciativa de ligar para a diretoria da Nestlé no Brasil ao chegar a seu conhecimento que a empresa pretendia suspender a compra de carne e cacau do país — a informação foi publicada pelo jornal O Globo e confirmada por VEJA. Em outro episódio, ela engrossou o tom com o presidente da Bayer na América Latina, Rodrigo Santos, após a matriz europeia, numa rede social, cobrar do governo o fim do desmatamento. Santos telefonou para se explicar e ouviu uma bronca. “Você não pode bater no governo em público e vir pedir desculpas no privado”, disse a ministra, segundo interlocutores que ouviram a conversa. Em resposta, a Bayer emitiu nota em que valoriza a agricultura e diz entender que “parte da cobertura internacional sobre o desmatamento da Amazônia não contextualizou corretamente a atual situação na região”.

Outros danos colaterais escaparam do alcance da ministra, como a suspensão da compra do couro brasileiro por empresas como a H&M, a segunda maior varejista do mundo. Deputados da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) reclamam da sobrecarga de trabalho depositada nos ombros de Tereza Cristina, o que a impediria de dedicar tempo a questões internas, como a discussão sobre a cobrança do passivo do Funrural. Nos bastidores, houve momentos em que a ministra teve de acalmar os ânimos até de setores insatisfeitos com a atuação do titular do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que chegou a receber cobranças de parlamentares em grupos de WhatsApp. “Se o governo puder agir sem criar adversários, melhor. Mas isso é com o presidente e seus ministros”, afirma o presidente da FPA, deputado Alceu Moreira (MDB-RS).

A estratégia adotada por Tereza Cristina está alinhada com os planos traçados por representantes do agronegócio e da indústria para recuperar a imagem dos produtos brasileiros. “Precisamos nos comunicar melhor com a sociedade”, disse a ministra a VEJA. A crise ambiental, que descambou até para um bate-boca entre Bolsonaro e o presidente francês Emmanuel Macron, trouxe o risco de consumidores organizarem boicotes às exportações, principalmente da carne nacional. Criou-se no setor a urgência de que era necessário fazer barulho para tirar o país das cordas.

ALARMISMO – Queimadas em Alter do Chão (PA), cujas imagens viralizaram nas redes sociais: mais um susto Bruno Kelly/Reuters

A primeira iniciativa tomou forma no último dia 5. A campanha “Seja legal com a Amazônia” reúne entidades dos setores produtivo, empresarial e industrial num movimento para pressionar o Ministério da Justiça e a Procuradoria-­Geral da República a agir contra a grilagem de terras. Lideranças envolvidas na divulgação da campanha querem apresentar a iniciativa nos eventos paralelos da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York. “Antes, íamos para lá como vendedores dos nossos produtos. Agora, somos defensores dos nossos produtos”, afirma Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag). “Talvez seja a maior crise de imagem que o Brasil enfrenta nos últimos cinquenta anos.”

Outra estratégia envolve a contratação de uma agência de relações públicas, que terá a missão de unificar a comunicação de representantes do agronegócio e difundir no exterior que o setor nacional é o mais produtivo e sustentável do mundo. A ideia se baseia nos estudos do pesquisador da Embrapa Evaristo de Miranda, guru de Bolsonaro nessa área. Orçado em 2 milhões de reais, o projeto terá os custos divididos pelas principais organizações do setor. São esforços para corrigir a propaganda fracassada do Itamaraty na internet e em jornais, como o Financial Times, que tinha até erros de inglês.

Existe ainda muito oportunismo em críticas desferidas contra o agronegócio brasileiro. Na França, produtores de carne temem perder mercado com a aprovação do acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia. “A questão ambiental é um campo forte para ser usado como barreira de comércio”, diz a economista Elizabeth Farina, presidente da consultoria Tendências. Quanto às questões ligadas à Amazônia, o clima continua delicado — e quente, literalmente. Nesta semana, o alarmismo foi em torno de uma foto divulgada nas redes sociais que mostrava uma queimada em Alter do Chão, no Pará. A imagem assustava, mas moradores contaram a VEJA que não houve pânico porque incêndios se repetem com frequência na região. Como se vê, no papel de bombeira da imagem do agronegócio, Tereza Cristina terá ainda muito trabalho pela frente.

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“Há exageros e distorções”

Em uma rara folga em meio à agenda atribulada de compromissos no Oriente Médio, Tereza Cristina falou a VEJA no último dia 18 sobre os efeitos da crise ambiental e os desafios do agronegócio.

Como a crise ambiental afetou a imagem do agro no exterior? Não houve, até o momento, perdas nas exportações. Foi uma crise de imagem com riscos contidos. Tivemos de explicar que o agronegócio não é responsável por desmatamento ilegal. Exageros e distorção de informações são usados por concorrentes para nos prejudicar.

Nos encontros no exterior, o que tem escutado de autoridades sobre a questão ambiental e sobre a retórica de Bolsonaro? Há uma exploração política, desvirtuada, das falas do presidente. Ele diz que o discurso ambiental radical tem impedido o desenvolvimento do país. O governo não mudou nenhuma lei ambiental.

A retórica não ajudou a personificar a crise no presidente? É preciso lembrar que Bolsonaro subiu o tom quando tentaram relativizar nossa soberania sobre a Amazônia. Isso é inaceitável.

Existem planos para evitar uma nova crise no verão, período em que as queimadas viram um problema ainda maior? O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, está envolvido na criação de uma força-tarefa interdisciplinar para nos anteciparmos aos problemas. Ele admitiu que houve falha de comunicação; desde as controvérsias sobre o Fundo Amazônia, os números do Inpe… Tudo isso transbordou com as queimadas. Não é fácil controlá-­las, mas faremos de tudo para evitar. Temos de coibir e substituir práticas de pequenos produtores que ainda usam as queimadas para limpar terrenos, muitas vezes com autorização legal. Isso na seca pode se alastrar, é um perigo.

O que acha das campanhas que o agronegócio está fazendo para melhorar a imagem do setor no exterior? Eu as acompanho e apoio. O setor precisa falar mais à sociedade. O produtor rural será o primeiro prejudicado se o desmatamento ilegal causar desequilíbrio nos ecossistemas.

Quais os desafios agora? Reiterar, insistir em mostrar o que fazemos corretamente. E precisamos ser cautelosos quando falamos de Amazônia.

Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2019, edição nº 2653

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