Tecnologia que levou o Brasil ao pré-sal não avançou em segurança

Investimento em prevenção de acidentes não acompanhou o estímulo à exploração. Especialista da Coppe defende planos regionais, que façam empresas atuarem em pool no caso de acidentes

Por João Marcello Erthal - 27 nov 2011, 11h54

“As empresas que investiram pesado para se instalar na exploração têm extrema dificuldade para fazer parar o vazamento e recolher o óleo. O mercado penaliza muito esses erros, mas nem assim as companhias têm conseguido evitar e solucionar satisfatoriamente os desastres”, diz Adriano Pires

O passo a passo do acidente da Chevron na Bacia de Campos acende, para o Brasil, a luz amarela para o que ocorre com a rápida expansão da exploração do petróleo em alto mar. Às vésperas do início das atividades em larga escala na camada do pré-sal, quem evitou uma tragédia de grandes proporções na costa do Sudeste foi, em grande parte, a sorte: o vazamento foi descoberto pela Petrobras, não pela Chevron, e foi a estatal brasileira quem cedeu equipamentos para os primeiros trabalhos de contenção da mancha na lâmina d’água. Os ventos que sopraram para o mar também têm reduzido as chances de a lambança atingir o litoral na forma de bolas de piche.

Com a segurança da indústria não é movida a vento, é prudente, antes de o valioso petróleo do pré-sal começar a ser bombeado para a superfície, corrigir um descompasso: a tecnologia que levou a Petrobras e a engenharia brasileira aos confins da terra em busca de energia e dólares não avançou proporcionalmente em segurança, estratégias e políticas de prevenção.

A prevenção de acidentes é hoje o elo fraco da cadeia, como explica o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires. Houve nas últimas décadas um investimento em tecnologia e políticas de prevenção perigosamente desproporcional aos pesados recursos aplicados para alavancar a exploração. “Isso fica claro quando há um acidente. As empresas que investiram pesado para se instalar na exploração têm extrema dificuldade para fazer parar o vazamento e recolher o óleo. O mercado penaliza muito esses erros, mas nem assim as companhias têm conseguido evitar e solucionar satisfatoriamente os desastres”, alerta.

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Pires lembra que, por mais que pareçam duras as multas e pesadas as sanções à petroleira Chevron, a verdadeira punição pelo vazamento de óleo na Bacia de Campos não vem do governo e das entidades brasileiras, mas do mercado. O castigo imposto pelas autoridades até o momento, que beira os 250 milhões de reais, é pequeno se comparado às perdas de mais 14 bilhões de dólares no valor da companhia.

O Brasil, que se destaca no pioneirismo de algumas das tecnologias de exploração em grandes profundidades, deveria liderar também em tecnologia. Mas as falhas no quesito segurança da indústria do petróleo não são exclusividade dos órgãos e empresas daqui. “No vazamento da BP, nos Estados Unidos, também ficou claro que os órgãos de fiscalização não estão preparados para lidar com grandes acidentes”, diz. A pressão da sociedade e dos países, em defesa de seu patrimônio ambienta, pode ser a chave para mudar as regras do jogo. “Se o mercado continuar a impor grandes perdas a cada falha grave das companhias, tirar petróleo vai se revelar algo bem menos barato para as empresas. E se não prestarem atenção, isso pode ficar muito caro. O momento não é de falar em expulsar empresas, mas de uma reflexão serena e profunda sobre como vamos explorar nosso litoral”, afirma.

Aprendizado – Pelo volume – cerca de 2.500 barris, segundo a Chevro – e o local onde ocorreu o vazamento, o acidente de agora não é dos mais graves. Mas a forma atrapalhada de conter o poço onde ocorreu o problema e o desencontro de informações mostraram que ainda estamos aquém do aceitável, principalmente considerando a maior ocorrência com que os vazamentos devem ocorrer a partir o início da exploração do pré-sal. “É uma questão de bom senso e estatística, probabilidade. Teremos mais atividade de exploração. Se você repete muitas vezes uma ocorrência, há um salto quantitativo de possibilidades de acidentes concentrados no litoral do Sudeste do Brasil. Como vimos no Campo de Frade, essa máquina não está azeitada, para dizer o mínimo”, afirma o coordenador do Laboratório Interdisciplinar de Meio Ambiente da Coppe/UFRJ, Emilio La Rovere.

O especialista da Coppe forneceu dados para que o Ministério do Meio Ambiente elaborasse o Plano Nacional de Contingência – ainda não concluído. Como explica, o plano nacional, no caso da Chevron, não seria acionado. “Pelas dimensões do acidente, não seria algo que precisasse de uma coordenação nacional, por Brasília. Mas é claro que ter o plano é necessário”, explica.

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O que La Rovere defende, além do plano nacional, é algo intermediário: um plano que considera as sub-bacias. Assim, na Bacia de Campos, empresas que atuam geograficamente próximas, compartilhando uma região de características geológicas, profundidade e riscos semelhantes, estariam consorciadas também na gestão desses riscos. “Faz todo o sentido as empresas atuarem em pool. E, em nível regional, estar acordada a repartição de custos para uma eventual ação de contenção. Isso é vital, porque em um vazamento, qualquer hora de atraso é preciosa”, explica La Rovere.

O plano regional de contingência, além dos planos individuais – que correspondem a cada plataforma – evitaria muito do improviso que se viu no caso da Chevron.

O vazamento no Campo de Frade ocorre uma década depois do vazamento da Petrobras na Baía de Guanabara. Segundo o especialista da Coppe, houve avanços desde então. “O principal avanço foi quanto ao dimensionamento de equipamentos para resposta a emergência. Também crescemos com as possibilidades de cenários de risco de acidentes. Logo depois do acidente da Baía ocorreu outro no Paraná. Na época, não havia equipamento para atender ao mesmo tempo às duas emergências”, lembra La Rovere.

O atraso, como analisa o professor da Coppe, é na política. “São muitos órgãos envolvidos, e o Ministério do Meio Ambiente não pode agir sozinho. Não houve avanço na parte política dessa gestão de risco. E não se pode deixar o dimensionamento da segurança ser uma decisão empresarial”, critica.

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