Tarifaço chinês à carne brasileira: saiba o que dizem os jornais de China, Argentina e Uruguai
Para veículos chineses, a medida é uma forma de proteger pecuaristas locais; na imprensa argentina, barreira é tratada como oportunidade
A partir de outubro, a carne bovina brasileira pagará 67% de imposto para entrar na China. É o tarifaço chinês: em dezembro do ano passado, o governo do país asiático decidiu estabelecer uma cota máxima que pagaria a tarifa universal de 12%. O limite estabelecido para o produto vindo do Brasil foi de 1,106 milhão de toneladas. A partir daí, seria cobrado um adicional de 55%. É o que vai acontecer agora, até a renovação da cota.
A sobretaxa é proibitiva. Na prática, ficará inviável para os frigoríficos do Brasil exportar carne para a China. O governo Lula tenta negociar uma alternativa. Uruguai e Argentina também foram submetidos a cotas, mas proporcionalmente mais baixas, e não as preencheram. Saiba o que dizem os veículos de imprensa da China, do Uruguai e da Argentina sobre o assunto:
China
Na imprensa da China continental, como Global Times e China Daily, predominou uma cobertura protocolar, próxima do comunicado oficial: o Brasil completou em 29 de setembro a cota de 1,106 milhão de toneladas e, desde 1º de outubro, as importações excedentes pagam 55% adicionais sobre a tarifa normal de 12%.
O enquadramento oficial é de proteção temporária da pecuária chinesa, supostamente prejudicada pelo aumento das importações — não de retaliação política contra o Brasil. Pequim sustenta que a salvaguarda é “moderada”, destina-se a permitir a recuperação dos produtores locais e não pretende interromper o comércio normal.
O South China Morning Post, de Hong Kong, que desfruta de uma liberdade editorial um pouco maior, foi mais incisivo: afirmou que os exportadores brasileiros “bateram num muro” e que a tarifa total de 67% praticamente fecha o maior mercado externo para a carne do Brasil pelo restante do ano. O jornal também destacou que a China não aceitou, até agora, que o Brasil aproveite a cota não utilizada pelo Uruguai, conforme vem pleiteando o governo Lula.
Argentina
A imprensa argentina enfatiza sobretudo a oportunidade que o tarifaço chinês sobre o Brasil abre para os próprios frigoríficos. TN, Infobae, Infocampo e outros veículos avaliam que a saída temporária de Brasil e Austrália (que preencheu sua cota em junho) do circuito tarifário preferencial pode elevar a demanda e os preços pagos pela carne argentina.
Mas a janela de oportunidade é tida como curta — aproximadamente 45 a 60 dias, possivelmente até novembro. Isso porque o fim da concorrência com o Brasil é temporário, não estrutural. Além disso, existe um efeito adverso potencial: o Brasil precisará redirecionar carne para outros destinos, aumentando a disputa com os argentinos fora da China.
A notícia factual publicada por La Nación ressaltou a tarifa total de 67%, a ausência de autorização chinesa para usar o saldo uruguaio e a estimativa de que pode haver uma queda de 10% nas exportações brasileiras de carne bovina em 2026.
Uruguai
No Uruguai, o assunto virou principalmente uma controvérsia política e comercial doméstica. Isso porque o país recebeu uma cota de 324 mil toneladas, mas deverá utilizar apenas aproximadamente metade; por essa razão, declarou-se disposto a permitir que Brasil e Austrália aproveitassem parte do saldo.
A imprensa uruguaia ressalta, porém, que o Uruguai não pode transferir unilateralmente uma cota definida por Pequim. Valeria Csukasi, sub-secretária de Relações Exteriores do país confirmou apenas a disposição uruguaia, enquanto Lula anunciou prematuramente que a autorização já estaria concedida; faltou o aval decisivo da China.
El Observador e Montevideo Portal tratam agora a operação como improvável ou praticamente descartada. Parte do setor teme ainda que o baixo uso da cota uruguaia sinalize a Pequim que o país não precisa de tamanho volume, prejudicando futuras alocações.







