Tarifaço americano: empresários de Brasil e Estados Unidos tentam evitar o pior
Economistas falam sobre proposta de um 'acordo de curto prazo'
A possibilidade de os Estados Unidos anunciarem um novo tarifaço (de 25% e 12,5%) na próxima quarta-feira, 15, sobre produtos brasileiros mobilizou parte do setor privado dos dois países.
A carta
Em meio ao avanço da investigação conduzida pelos americanos com base na Seção 301, a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a U.S. Chamber of Commerce enviaram uma carta aos governos brasileiro e americano defendendo uma saída negociada para evitar o agravamento das tensões comerciais.
Tom preocupado, mas pragmático
O tom do documento é de preocupação, mas também de pragmatismo. As entidades afirmam que uma escalada tarifária prejudicaria cadeias produtivas integradas entre os dois países e defendem um acordo de curto prazo que preserve o comércio bilateral.
Proposta
A proposta prioriza o acesso a mercados para insumos industriais, bens de capital, produtos ligados à segurança energética, infraestrutura para inteligência artificial e a ampliação da cooperação em minerais críticos, áreas consideradas estratégicas para as duas economias.
Importância dos setores
Na avaliação do economista Igor Lucena, doutor em relações internacionais, a iniciativa das entidades aumenta as chances de uma solução negociada justamente pelo peso político das empresas envolvidas. “Essas empresas possuem um lobby legalizado e muito poderoso nos Estados Unidos”, afirma.
Segundo ele, há interesse direto do setor produtivo americano em evitar uma ruptura porque boa parte da cadeia industrial depende de insumos brasileiros para concluir a produção em território americano.
Mais isenções
Lucena, que falou ao programa Mercado nesta sexta, 10, acredita que o desfecho mais provável não seja a retirada completa das tarifas, mas a ampliação da lista de produtos beneficiados por isenções. “O foco da negociação deve ser aumentar o rol de isenções”, diz.
Café, laranja e carnes
O economista lembra que itens como café, laranja e carnes já pressionam a inflação dos alimentos nos Estados Unidos, o que cria resistência interna à adoção de barreiras comerciais mais amplas. Para ele, o embate atual “não é econômico em si, é muito mais político ideológico”.
Política de estado
O especialista em comércio internacional Felipe Cima avalia que a estratégia tarifária americana deixou de ser apenas uma política de governo para se consolidar como uma política de Estado, independentemente de quem ocupe a Casa Branca.
China e Estados Unidos
Na visão dele, a investigação baseada na Seção 301 também funciona como instrumento de negociação para que os Estados Unidos preservem sua posição estratégica diante da China e evitem perder espaço nas relações comerciais com o Brasil.
Empresas de tecnologia e minerais críticos
Cima entende que Washington busca ampliar seu poder de barganha em temas considerados sensíveis, como o etanol de milho, futuras regulamentações envolvendo grandes empresas de tecnologia e a tributação de serviços digitais.
“Os Estados Unidos querem abrir espaço para negociar pautas que já estavam na mesa há bastante tempo”, afirma. Assim como Lucena, ele acredita que o caminho mais viável passa por acordos específicos e pela concessão de isenções para setores considerados estratégicos.
Tentativa de evitar uma guerra tarifária
A mobilização das entidades empresariais reforça a percepção de que a disputa ultrapassa o campo político e pode produzir impactos relevantes sobre investimentos, inflação e competitividade nos dois países.
Ao defender uma negociação imediata, Amcham, CNI e U.S. Chamber procuram evitar que o conflito comercial avance para uma guerra tarifária mais ampla, preservando uma das mais importantes relações econômicas das Américas.







